POV DEMETRIA
Depois de acomodar Kai e Dera numa das nossas melhores suítes, porque eu e Aldahain ficávamos na outra e preparar roupas para Dera. Eu senti a presença de Aldahain atrás de mim. Kai apenas o estudou, insondável.
Aldahain me virou para si ainda estudando Kai e selou nossos lábios. Eu o odiei agora. Dera manteve-se quieta também ainda testando a cama. As lágrimas apenas desceram do meu rosto, Aldahain as ignorou. Eu quis morrer de estar sendo beijada por ele na frente de Kai e Dera. Como se eu fosse só uma meretriz que saciava suas vontades. Como se ele dissesse que eu o pertencia.
— Venha, serva. — Ele ordenou me fazendo tremer. Engraçado, mesmo eu o odiando, eu ainda tremia quando ele me chamava assim mesmo que fosse com o intuito de me humilhar.
Não havia nem a sombra do carinho de hoje cedo enquanto nós fazíamos sexo masoquista. Havia algo ríspido, ressentido e muito assustador em seu tom que não me atraía nenhum pouco, mas me repelia.
— Tenham uma boa noite, meus amores. — Eu desejei a Kai e Dera.
— Alimente-se do sangue de alguém na rua, Kai. — Ouvi a voz de Aldahain, ele cheirou o meu pescoço. — O sangue de Demetria é só meu. E para a criança... — Ele conjurou a comida na mesa antes vazia cheia de carnes. — Acho que isso bastará.
— Obrigado, anfitrião. — Kai debochou dele.
Não Kai. O que foi que você fez?
Antes que eu pudesse impedir, Aldahain o trouxe para si e segurou o pescoço de Kai, erguendo-o do chão, fazendo os pés dele ficarem acima do piso, e o estudando com os olhos rubros impiedosos. Dera veio correndo até mim, gritando.
— Eu te aceito na minha morada, te trato como um convidado e é assim que me responde? — Questionou Aldahain homicida a Kai que ele mantinha suspenso no ar com as garras na garganta dele, Aldahain arqueava a sobrancelha azul e havia um aviso homicida em seus olhos. — Eu deveria te matar aqui mesmo e separar sua cabeça do corpo? Não morre mais pelo sol, mas tenho formas bem divertidas de testar até onde é imortal como fiz com sua rainha quando enfiei uma espada no coração dela e deixei até que a quisesse acordada novamente.
— Por favor, solte ele. A promessa que me fez. — Eu o recordei. Mas ele parecia inalcançável agora. — A criança, Alda. — Eu gritei. — A criança. A criança não deve ver isso, por favor, por favor. — Eu tentei. Se eu dissesse que era por mim, talvez Aldahain ficasse mais furioso.
Eu levei a minha mão a de Aldahain. E eu a beijei fazendo-o soltar o pescoço de Kai e focar-se em mim.
— Mestre, por favor. — Implorei tentando não deixar evidente minha angústria.
Dera ainda abraçada as minhas pernas também chorando e gritando.
Ele largou Kai então com força descomunal contra a parede oposta que foi quebrada. E me estudou como se trazido de volta. Eu pude respirar aliviada. Aldahain estudou Dera abraçada as minhas pernas chorando e apenas tocou no cabelo dela como se a pedisse desculpas, Dera parecia ler minha mente e mesmo assustada, não recuou do toque dele.
Eu a peguei no colo, as pernas dela ao redor da minha cintura e acariciei seu lindo cabelo preto e rocei meu nariz no dela a carregando pelo quarto.
— Pronto, bebê amada. — Acalentei deixando o rosto bonito dela ficar no meu ombro e a sacudindo até ela dormir. — Quer comer alguma coisa?
Kai veio ficar ao meu lado e tocando Dera também. Mas eu não deixei. Eu estava realmente irritada com ele agora. Com a imprudência dele. Kai estava testando até onde ia a estima Aldahain por mim? Ele não sabia que a linha era tênue para se ter um monstro psicótico?
Dera negou com a cabeça, enxugando as lágrimas com as mãozinhas pequenas que tremiam.
Beijei a testa dela inúmeras vezes tentando passar que ela estava protegida ignorando o olhar de Aldahain sobre mim me estudando. Os bracinhos macios de Dera em volta do meu pescoço. A ninei tentando suprimir o horror do meu próprio choque com a violência de Alda e a imprudência de Kai. Eu odiei os dois agora. Alda, eu o odiei profundamente por ser a pura maldade. Mas Kai também não estava ajudando sempre o provocando.
Eu caminhei de um lado a outro do quarto com Dera. Até que senti que a respiração alterada dela, acalmou-se. E espiei vendo que suas pálpebras estavam fechadas. A coloquei na cama com lençóis brancos de algodão egípcio, tirei suas botas e ela ajeitou-se na posição que considerava confortável.
Eu massageei as têmporas. E deixei meus olhos se encontrarem com os de Kai. Mas não foi nos violetas dele que senti a calma de antes, já que havia incontestável tormenta em suas orbes assim como eu. Eu estava cansada, esgotada e apesar de meus avisos sobre o temperamento de Aldahain, Kai ainda insistiu em o provocar.
Aldahain apenas veio até mim. Ele me abraçou forte como se implorasse desculpas. Cheirou meu cabelo como se isso fosse seu calmante. Ignorei o fato de estarmos na frente do meu amado Kai. Aldahain me ergueu do chão como fiz com Dera, minhas pernas arrodearam sua cintura, meus braços em seu pescoço e agora eu era a criança. Ele beijou meu rosto, beijou minha bochechas e então roçou o nariz no meu.
— Minha bebê amada... Minha criança linda... Minha linda bebêzinha, perdão por ter quase quebrado minha promessa. — Disse amorosamente. Disse só para mim como uma canção de ninar. E eu senti o peso nos meus olhos e o cansaço do meu próprio corpo agora.
Caminhou comigo pelo quarto como fiz com Dera, apesar de em direção a saída. E nós saímos para um dos corredores do andar, que era o vigésimo nono. Fomos até o elevador e ele apertou o botão para o trigésimo andar onde era a cobertura que ficávamos. Estremeci contra minha vontade nos braços dele, eu o vi sufocar Kai. Mas essas palavras sempre mexiam comigo. Sempre alcançavam a criança solitária que fui. Ele alcançava uma parte minha que me deixava dilacerada e sem defesas. E essa parte minha era muito submissa.
— Você não cumpriu sua promessa hoje. — Eu arrisquei, mesmo com medo de que ele se zangasse. Mas ele estava pensativo.
— Acredite, você não o ter decapitado agora é eu cumprindo minha promessa a você, bebê linda. — Avisou-me ainda com a voz sombria. Beijou minha testa dando um longo suspiro. — Eu esqueci da criança. Desculpe, minha Demi. Sei que ama Dera como sua filha. Sei que tem o desejo de ser mãe e fez dela sua filha de imediato quando a conheceu. Eu vou tentar não parecer o monstro que sou na frente da sua criança.
— Sua natureza é monstruosa, não adianta escondê-la. — Declarei. Ele desviou o olhar do meu. —Mas isso não é culpa sua, Alda. — Confessei algo na minha mente. Eu deixei minha mão ir ao rosto dele e o fiz me fitar novamente. — Não estou justificando os seus atos, eu nunca faria isso. Eu te odeio pelo que fez com Kai hoje, te odeio por ter me prendido nas correntes antes por mero capricho, te odeio por fazer meu corpo te desejar... Mas te estimo, porque no seu objetivo de destruir o mundo, fez uma trégua comigo. Eu sei como ter um objetivo alimenta a vingança dentro do peito e mesmo assim, mesmo furioso, você me deu uma trégua. — Ele me analisou me ouvindo com atenção. — Mas vamos tentar juntos... Eu também não sou uma boa pessoa. E minha gentileza com todo mundo pode ser sim tão c***l quanto ser boa só com quem estimo como você é. O que eu quero dizer é que... Eu entendo que você não consiga ser bom com todo mundo como é comigo e com seus irmãos. E eu te agradeço imensamente por dizer que vai tentar se controlar perto de Dera para não assustá-la. E por ter deixado eles dois ficarem aqui mesmo que esteja com ciúme e me queira inteira só para você por esse um ano.
— Eu te quero só para mim, preciso que seja a chama traiçoeira da Esperança que escapou da caixa de Pandora e alimenta o homem com crenças traiçoeiras de ser melhor. — Ele confessou me fazendo sentir um puxão no estômago. Ele não olhava para mim porém. Olhava pelo janelão de vidro a paisagem horrenda e urbana de Salém. — Demi, você me enfrentou sem medo pelos seus, para impedir que um novo monstro se apossasse da sua Tretagon. Você é uma inimiga que respeito, não me apunhalou pelas costas, não tentou descobrir fraquezas, você me sentiu, sentiu o que eu sou e você veio como uma inimiga declarada. E como inimigos declarados nós nos confrontamos e você perdeu e eu não pude clamar sua vida como é o certo, já que com inimigos, um tem que morrer para o outro viver. E eu te fiz minha serva porque queria entender esse fogo da sua alma que brilha como ... como uma luz na escuridão profana que sou. Nós dois nos deitamos pela primeira vez e na violência e guerra do ato da carne acalmamos nossas frustrações um no outro e marcamos um ao outro na bandeira da paz de nossa individualidade que se tornou conquista de ambos encravadas na pele com mordidas e arranhões. Eu nunca tive com ninguém o que eu tenho com você. Nem com Hel. Eu sou capaz de adiar meus planos por você, planos que fiz contra meu Pai desde o começo. Planos de vingança por ter sido preso e considerado escória por toda a minha vida. Eu não sou benevolente, nem nunca vou ser. Mas por você, eu estou disposto a tentar acalmar minha fúria e a aprender tudo o que me recusei a entender durante os séculos que vaguei sem voz e imagem nos nove mundos e apenas como um arauto do que é infeliz.
“Eu gosto de você, gosto de como nos amamos, gosto de me perder em você, gosto que me domine e me mostre que eu não sou boa também e me puna por isso.” Eu quis dizer isso. Mas soava errado. Gostar é diferente de amar. Kai estava num dos quartos desse prédio de concreto. Eu suspirei incapaz de ser tão clara como ele era.
— Eu vou cumprir minha promessa. Serei só sua por esse um ano. Sua esposa, Alda. — Repeti a única coisa que eu conseguia dizer para declarar meus sentimentos conflituosos por ele.
Ele riu um pouco. Ele gargalhou assustadoramente, ecos frios. Como se fosse a piada do século. Saiu do elevador ainda comigo em seu colo.
— Por favor... Me poupe. Eu sei que queria correr para Kai. Não faça promessas que não pode cumprir. Desde que não fuja de mim antes do tempo... eu vou relevar tudo o que fizer. — Ele disse amargurado tocando meu lábio inferior com o polegar.
Olhei para a janela. Os pingos de chuva começaram a cair. Era ele?
— Serei fiel a você. Não importa se quem eu amo esteja no mesmo teto que o meu. Serei fiel a você. Confia em mim? Deixa eu te mostrar que nem toda a humanidade está perdida e é má como você pensa. — Eu pedi, cansada. Sonolenta. O abracei mais forte. — Eu amo Kai, eu quero correr para os braços dele e abraça-lo, beijá-lo e amá-lo. Está certo. Mas eu estou com você agora. E eu vou honrar o nosso compromisso.
Ele parou com a risada de escárnio. Sua mão veio ao meu rosto.
— Sabe o jeito que você quer cuidar de Dera? — Ele me perguntou de repente.
Eu assenti.
— É um dos jeitos que quero cuidar de você. Te considero minha cria. Só falta eu te dar o meu sangue. Mas fico pensando... se eu te der o meu sangue, você ficará mais forte... eu devo confiar em você assim? — Ele puxou meu cabelo e nossos lábios se encontraram violentamente. — Responda, serva.
— Não me dê o seu sangue ainda, mestre... — Eu falei analisando a situação delicada. — Me dê quando sentir que eu sou confiável. E se sentir... Está tudo bem para mim que só tome o meu.
Ele me soltou. Mordeu o próprio pulso. E o estendeu para mim.
— Agora... beba... beba, criança...
Eu o fiz. O gosto era só terrível como o de Kai. Mas então os flashs da vida dele. O poder. O sangue entrando em mim e me possuindo. Meus olhos se fecharam por um instante e quando se abriram eu entendi a descrença total dele com o mundo. Ele não cria no mundo, porque não cria no próprio criador como alguém confiável.
— Aldahain... — Eu o chamei.
Ele tirou o pulso da minha boca. Foi só uns goles. Eu estava tão sensível. Era como um coquetel de drogas, e o olho de Deus se dilatou, e nós estávamos no topo de sua insignificância . Era como se eu visse o mundo dentro do mundo.
— Entende agora por que confiar é algo superestimado? — Ele me perguntou.
Eu o puxei para um abraço bem forte. Não queria mais ele longe de mim. Eu queria cuidar dele para sempre.
— Não seja sentimental, tolinha... — Ele me repreendeu sadicamente. — É só o vínculo do sangue em você. Agora vamos para o nosso quarto.