Enzo
Nesse dia eu tive várias primeiras vezes, pois, foi a primeira vez do medo da morte, do sentimento de abandono, da preocupação genuína de outra pessoa, dos cuidados sem interesse. Então como gesto de gratidão eu irei me oferecer para andar pelas ruas e encontrar a sua filha. Eu acho que isso é o certo a se fazer, ajudar uma senhora boa, que precisa de apoio para encontrar sua filha.
As vezes me pergunto o que levou os meus pais a me abandonarem, e se alguma dia saberei os seus motivos.
- Dona, se a senhora quiser eu posso ajudar. Eu sempre fico de lá pra cá nas ruas, encontro com muita gente e de todas as idades, muita gente mesmo. Me diz como é a sua filha que posso passar um olho e se a encontrar eu te procuro e te digo.
- do que ele... (seu marido inicia uma pergunta, mas depois para ao observar o pequeno sorriso da esposa).
- Você faria isso por mim jovenzinho?
- é claro dona, dá para ver que a senhora é gente fina e gosta mesmo da sua filha, então conte comigo para encontrá-la e isso é uma promessa de dedinho!
- promessa de dedinho? ( a senhora fica curiosa o que é essa tal de promessa de dedinho)
- é uma promessa inquebrável. O pessoal que tem casa acha que só porque somos de rua que todos nós somos iguais e não temos códigos e nem palavras, nos tratam feito lixo, mas eles estão enganos. É claro que tem aqueles sem honra, mas, alguns de nós procura fazer o seu melhor, nós ajudamos uns aos outros e a quem precisa também. Olha dona, digo isso não querendo ser santo, porque eu não sou, já fiz muita coisa errada, mas nada grave. E quando eu prometo de dedinho eu cumpro.
- querida, acho que entendi o porquê do convite de almoço. O seu novo amiguinho é um rapazinho bem interessante.
- ele é assim, querido. Um jovenzinho bem promissor! E eu aceito sua proposta Enzo!
E assim tem sido por alguns meses, eu sempre encontro com aquela dona rica, passo o meu relatório de busca e vamos almoçar, mas tem algo estranho nela. Toda vez que almoçamos ela come e muito bem, mas toda vez que a vejo ela está cada vez mais magra, ou essa dona está doente ou ela só come quando a encontro, porque é certo que ela tem dinheiro para comer.
- oh dona, deixa eu te fazer uma pergunta.?! Se a senhora não se ofender, é claro???!!!
- diga rapazinho. ( a senhora fala com um sorriso simples no rosto)
- a senhora está doente? Não é querendo falar m*l não, mas toda vez que a vejo a senhora come bem, chega até a repetir o prato, mas está cada vez mais magra.
- é complicado te explicar isso, mas, quando estou em casa é mais difícil suportar a ausência da minha filha. Todos me dizem para me conformar, aceitar e superar, mas não é fácil. Eu sinto falta dela, desde o momento que acordo até antes de dormir. E o único momento que me sinto bem, é quando estou aqui conversando com você Enzo. Você pode me achar uma fraca, mas, é mais forte que eu.
Eu já ouvi falar nisso, era a doença que estava crescendo entre os ricos, uma tal de depressão, acho que esse é o nome da doença. Eu vi nos jornais que os casos de pessoas se matando por isso tava crescendo. Confesso que de início achei tudo frescura, coisa que gente rica inventa para sofrer que nem os pobres. Mas ouvindo e vendo ela assim, não dava para duvidar. A ausência de sua filha estava consumindo ela aos poucos, acho que se essa dona não sair dessa, ela vai morrer logo.
- olha quem eu encontro aqui.( o marido da senhora aparece novamente na hora do almoço)
E pela segunda vez ouço aquela voz novamente, ela o marido da dona.
-querido, como foi de viagem?
- proveitosa, consegui fechar bons negócios.... amor, você está comendo bem, fico contente em ver seu apetite retornar.
- não tem como ficar sem comer na presença de Enzo. Me dá tanto gosto de vê-lo comer bem.
- entendo. E você meu rapaz como está suas investigações?
- senhor, para falar a verdade, nada boa! Mas eu vou continuar procurando assim como eu havia prometido.
- fico feliz em saber, mas, eu tenho um meio diferente de você me ajudar a encontrá-la.
- perdão?
- você é um jovem inteligente, com honra e entende o senso de família, e eu te digo isso por que são qualidades raras. E minha proposta é a seguinte, gostaria de ser nosso afilhado?
- querido?
- esposa, você não gosta da companhia de Enzo?
- eu gosto, mas você sabe que no nosso mundo é perigoso e se algo acontecer com ele do mesmo jeito que aconteceu com a nossa menina?
- não vai, pois, Enzo não é mais um bebê, ele é quase um homenzinho.
- mas e a opinião de Enzo?
- dona, se me permite falar, se for para ajudá-la a encontrar a sua filha eu aceito ser seu afilhado. Só me diz o que tenho que fazer.
- viu querida, ele aceitou.
-....
- Enzo, só que tem algo que você precisa saber sobre nós, mas não aqui.
É muita informação, put@ que loucura! Essa gente rica quer ser meus padrinhos?! Eu queria recusar, mas tá na cara que essa dona aí tá caminhando para as últimas, e não posso deixar isso acontecer, ela foi a primeira mulher que me tratou como ser humano, que teve o mínimo de preocupação comigo, por isso, eu vou retribuir a gentileza. Nós três almoçamos e depois saímos dalí, entramos em um carro grande super de granfinos e eu fico só observando, sei que se fosse para me fazer m*l, eles já teriam feito.
Depois de alguns minutos de viagem, chegamos a uma imensa casa, de gente rica. Eles descem e vou atrás, eles entram em um lugar que acho que é uma biblioteca, mas, diferente daquelas do centro da cidade, pois, essa é mais cuidada e tem vários enfeites bacanas que se eu fosse vender conseguiria dinheiro para um ano de comida. Mas não vou roubar deles não, a dona sempre foi gente fina comigo e não serei um ingrato de morder a mão que me alimentou.
- Então Enzo, sente-se!
- Venha rapazinho sente-se ao meu lado.
- Enzo, quero que você saiba que pode recusar a minha proposta. Entendeu?
Eu só consigo balançar a cabeça, e esse suspense todo só tá me deixando mais preocupado.
- garoto, o que vou lhe dizer não pode sair dessa sala, isso pelo seu próprio bem. Você já ouviu falar dos Bratva?
E novamente só consigo balançar a cabeça, e eu conheço e muito bem a história desses Bratvas, ele são um grupo de mafiosos e ninguém na rua tem a coragem de cruzar o seu caminho. Eles tem até o respeito da sociedade e isso sem que ninguém saiba como eles são de verdade, já que, suas ideias são sigilosas.
- Eu vou Igor Romanoff, sou o líder dos Bratva, e quando sugiro a você para ser meu afilhado, preciso também te dizer que você será tratado como um m****o da organização. Será educado e treinado como um filho de alto escalão, você terá um lugar para morar, estudos, roupas, bens e tudo mais. Só que nem tudo será fácil, garoto, pois a partir do momento que eu lhe apresentar como meu afilhado, você será um alvo para os meus inimigos que também passarão a ser seus. Não contamos antes, mas o desaparecimento de nossa de nossa filha tem haver com o ataque de uma máfia rival, infelizmente foi um ataque muito bem orquestrado, entregaram um corpo com a identificação de nossa filha para que acreditassemos que ela havia morrido, mas fiz um teste de sangue que não sei se você já ouviu falar, se chama DNA, e a criança morta não era a nossa filha. Não sabemos onde ela está!
Eu ouço tudo aquilo com muito terror, dúvidas e outras coisas que não poderia reconhecer. O líder da tal organização de mafiosos Bratva estava a minha frente se relevando a mim, e perguntando se eu quero ser seu afilhado. Eu entendo os riscos de aceitar sua proposta, mas nada mudará na minha vida se eu continuar como estou. Ser um garoto de rua era a única coisa que tinha, e sabia que mais cedo ou mais tarde eu morreria, ou pelas mãos da polícia, ou pelas mãos de um grupo rival, ou seria usado como bucha de canhão por alguém que cometeu um crime.
E nesse tempo que estou nas ruas, vi vários garotos e garotas terem um fim trágico, e eu seria um i****a se recusasse tal proposta, pode ser perigoso, pode sim, mas pelo menos se eu morrer, morrerei bem vestido, com a barriga cheia, e sendo cuidado pela dona.
- eu aceito ser afilhado de vocês. Quando eu começo o meu treinamento.
- kkkkkkkk gostei de você garoto! forte de decidido! Seja bem vindo a família Romanoff!
A dona se aproxima e me abraça, e mais uma vez, ela é a causa de mais uma nova experiência, pois, esse foi o primeiro abraço que recebo em toda a minha vida. Acho que se eu tivesse tido uma mãe que me amasse esse seria o tipo de abraço que ganharia, um abraço afetuoso.
Não se preocupe dona, eu irei encontrar sua filha de trazê-la de volta para a senhora. - falo para mim mesmo, firmando um acordo em nós, pois, essa é a minha primeira missão.
(Florinhas, estamos no mês de Setembro Amarelo. Isso não é brincadeira, as razões podem ser bem diferentes, porém muito mais gente do que se imagina já pensou em suicídio. Segundo estudo realizado pela Unicamp, 17% dos brasileiros, em algum momento, pensaram seriamente em dar um fim à própria vida e, desses, 4,8% chegaram a elaborar um plano para isso. Em muitos casos, é possível evitar que esses pensamentos suicidas se tornem realidade. A primeira medida preventiva é a educação. Durante muito tempo, falar sobre suicídio foi um tabu, havia medo de se falar sobre o assunto. De uns tempos para cá, especialmente com o sucesso da campanha Setembro Amarelo, esta barreira foi derrubada e informações ligadas ao tema passaram a ser compartilhadas, possibilitando que as pessoas possam ter acesso a recursos de prevenção. Saber quais as principais causas e as formas de ajudar pode ser o primeiro passo para reduzir as taxas de suicídio no Brasil, onde atualmente 32 pessoas por dia tiram a própria vida. Surge então um outro desafio: falar com responsabilidade, de forma adequada e alinhada ao que recomendam as autoridades de saúde, para que o objetivo de prevenção seja realmente eficaz).