Marvila terminou de comer a banana com calma, como se não tivesse ouvido o pedido. Lavou as mãos, pegou a bolsa e caminhou até o carro sem olhar para trás.
Dom entrou na cozinha alguns minutos depois, trazendo o vestido no cabide. Mas a cozinha estava vazia. Ele franziu o cenho, olhou em volta e, ao notar a ausência dela, marchou até a porta de saída, irritado. Da janela, viu a caminhonete, Marvila já estava sentada no banco do passageiro, olhando pela janela, indiferente.
Ele caminhou firme, com o barulho de seus passos ecoando no chão. Abriu a porta do carro com força, irritado.
— Você deveria se envergonhar, Marvila. — disse, bravo, batendo o pé.
— De andar assim. Vá se trocar. Por favor.
Ela virou o rosto devagar, com os olhos cheios de afronta.
— Vergonha? — rebateu, com a voz firme apesar do coração acelerado.
— Quem deveria ter vergonha é você, Dom. De andar comigo usando as roupas e o perfume da sua falecida esposa.
O silêncio caiu como uma pedra entre eles. Dom fechou a porta sem responder, respirando fundo, entrou no carro, com os olhos fixos no volante. Não disse mais nada pelo caminho inteiro.
Entraram no consultório do obstetra, Marvila se deitou na maca em silêncio, com os olhos baixos, o coração apertado. O doutor ajeitou o aparelho, falando com Marvila e logo os batimentos fortes e ritmados preencheram a sala.
Foi então que Dom, quebrando o silêncio pesado, riu suavemente e falou com o médico:
— Como a minha menininha está, doutor?
Marvila virou o rosto de imediato, com os olhos marejando. Percebeu naquele instante que ele já sabia o s.exo do bebê. A tristeza lhe apertou o peito, como se uma parte de sua escolha tivesse sido arrancada dela. Engoliu o choro, mas as lágrimas escorreram silenciosas. Quase não falou nada durante todo o exame, respondendo apenas o necessário.
Quando saíram do consultório, ela caminhava cabisbaixa, segurando a bolsa contra o peito, em silêncio. O doutor chamou Dom de lado.
— Posso falar com você um instante? — pediu.
Marvila seguiu adiante, esperando no corredor, enxugando os olhos discretamente, sem querer que ninguém percebesse a dor que a consumia. Assim que ela saiu, o doutor fechou a porta e olhou Dom nos olhos, com a calma de quem já o conhecia há muitos anos.
— Dom, a bebê pode nascer a qualquer momento. — disse, entregando alguns papéis.
— O corpo da Marvila já está pronto, só precisamos ficar atentos aos sinais. É fundamental manter ela tranquila, bem alimentada e sem estresse.
Dom assentiu, sério, olhando os papéis com cuidado.
— Eu vou garantir isso. — respondeu, com a voz carregada de determinação.
O médico respirou fundo, cruzando os braços.
— E você? — perguntou em um tom mais pessoal.
— Como está? Psicologicamente? Eu sei… eu sei o que aconteceu no passado. A perda da Ana Carolina… e do bebê.
Essas palavras foram como um golpe em Dom. Ele apertou os olhos, tentando conter a emoção, mas não conseguiu. As lágrimas começaram a escorrer, silenciosas.
— Eu estou levando… — murmurou, a voz embargada.
— Mas tudo o que faço, cada detalhe, cada plano… é para que dê tudo certo agora. Para que seja seguro. Para que nada desestabilize a Marvila. Eu não vou deixar nada sair do controle, doutor. Eu não vou…
O médico colocou uma mão em seu ombro.
— Está certo em querer o melhor, mas não se esqueça que você também precisa de equilíbrio. Apoio. Carregar tudo sozinho não vai ajudar.
Dom apenas assentiu, secando o rosto com as mãos. Do lado de fora, Marvila já não conseguia ficar parada. Inquieta, irritada, saiu caminhando pela rua próxima ao consultório, observando as vitrines simples e as pessoas que passavam. Não sabia o que eles estavam conversando, mas algo em seu coração a alertava.
Quando Dom saiu, a paciência já havia se esgotado. Ele olhou em volta, avistou-a de longe e chamou com firmeza:
— Marvila! Vamos.
Ela se aproximou, vendo o rosto dele ainda marcado pelo choro, os olhos vermelhos. O peito dela se apertou.
— Você não podia ter feito isso, Dom. — disse, com a voz trêmula, mas firme.
— Tirou de mim o direito de mãe… o direito de escolher. Isso não está certo, ela é minha.
Ele permaneceu em silêncio, caminhando ao lado dela até o carro. Entraram sem trocar palavras. Dom ligou o carro e começou a dirigir, com a expressão dura.
Marvila encarava a janela, com a voz saindo como um sussurro carregado de dor.
— Eu não quero o lugar da sua esposa. Nunca quis. Não entendo, por que me propôs casamento.
Ele apertou o volante com força, e respondeu, seco, sem desviar os olhos da estrada:
— E nunca teria, mesmo que quisesse.
As palavras caíram entre eles como um muro invisível, separando-os. O trajeto de volta foi silencioso, sufocante. Ambos sabiam que algo havia mudado e que a distância criada naquele instante não seria fácil de atravessar.