Ela balançou a cabeça que sim, ainda segurando a cadeira, ofegante. Dom continuou próximo, sem entender bem o que estava acontecendo, e repetiu a pergunta, com a voz carregada de preocupação.
— Quer sentar?
Marvila balançou a cabeça novamente e ele a ajudou a sentar-se. Ela sorriu sutilmente, recuperando o fôlego.
— São... contrações de treinamento. — ela disse, voltando ao normal.
Dom riu sem jeito.
— Treinamento mesmo? Será? Você precisa ir ao médico, a um obstetra, e rápido.
Marvila se levantou, desconcertada, e as lágrimas começaram a escorrer.
— Eu não sei. Eles podem chamar a polícia, não entender a minha situação. Não quero que levem o meu bebê de mim.
Ela chorava sentida e nervosa. Dom ficou sério, olhando-a com gentileza.
— Não, calma. Tenho bons contatos. Vou te ajudar. Advogado, médico... Não vou deixar ninguém te prejudicar.
Ele deu água para ela, e a sua voz assumiu um tom mais sério e direto.
— Mas não posso ajudar sem saber de tudo. Eu vou ser direto com você. Sou sozinho e não tenho nada que me prenda a este mundo. Perdi minha esposa e a razão do meu viver. Você precisa de ajuda, e eu estou disposto a ajudar.
Marvila o olhou, apreensiva.
— Não quero comprometer ninguém. Nem prejudicar. Eu nunca deveria ter deixado as coisas chegarem a esse ponto. Eu tentei, juro que…
Ele a interrompeu gentilmente, com empatia.
— Eu acredito em você. Na força de uma mãe. Vamos fazer o seguinte, eu vou sair e resolver algumas pendências. Você vai deitar. Quando eu voltar, você me conta tudo com calma, desde o começo, e eu penso no que fazer.
Marvila segurou a mão dele e o olhou nos olhos.
— Não, eu quero contar agora. Claro, se puder ouvir.
Ele puxou uma cadeira e disse que sim. Ela começou a falar sobre sua infância e juventude, sobre como a mãe a deixava sozinha desde os 3 ou 4 anos para ir ao bar. Contou sobre as surras e a necessidade que passava. Engolindo o choro, ela foi contando tudo, e Dom a ouviu com atenção, sem dizer uma palavra.
Marvila continuou a contar sua história, revelando que escondeu a gravidez do ex por medo, e essa foi a razão pela qual não foi a nenhum médico. Para provar sua sinceridade, ela sugeriu que Dom pesquisasse os nomes dela, e do ex para verificar os processos que eles tinham. Ela confessou que estava com o nome sujo, o que a envergonhava profundamente. Ao final da confissão, Marvila parecia mais aliviada, como se tivesse tirado um peso das costas.
Dom ouviu tudo em silêncio e, após o relato, suspirou surpreso. Ele se levantou e disse que precisava sair para resolver algumas coisas.
— Você pode ficar bem sozinha? — ele perguntou, com a voz séria.
— Sim. Estou bem. — Marvila respondeu.
Ele sorriu sutilmente e saiu. Marvila terminou de guardar as compras com um misto de alívio e cansaço. A mente ainda estava a mil, repassando cada palavra que havia dito. Depois de arrumar tudo, subiu para o quarto e se deitou, tentando descansar. As horas passaram devagar, e o sol da tarde deu lugar às sombras do entardecer. Dom não voltava. O silêncio na mansão, antes reconfortante, começou a se tornar opressor. O medo, que ela havia tentado deixar para trás, voltou com força total.
Uma onda de pânico a invadiu. Pensando, em por que ele demorava tanto. Ela havia revelado tudo, sua história, seu passado, suas fraquezas. E pensou e se ele estivesse procurando a polícia. E se, ao invés de ajudá-la, estivesse planejando entregá-la. A desconfiança, tão enraizada em sua vida, a consumia.
Em um ato desesperado, ela se levantou, foi até o banheiro e vestiu uma roupa simples e limpa. Depois, pegou suas bolsas e colocou o pouco que tinha. A mala estava pronta, e ela também. A qualquer momento, se fosse necessário, fugiria de lá. O medo era real, e a esperança de um novo começo parecia frágil demais para se sustentar.
Dom foi direto para o escritório do seu amigo, um advogado de confiança, contou a história de Marvila, desde o encontro na estrada até a confissão na cozinha. Ele pediu que o amigo buscasse informações sobre a vida dela e do ex-marido, para que ele pudesse saber a melhor forma de ajudá-la.
Em seguida, foi a uma clínica particular e procurou o obstetra que cuidou de Ana Carolina. No consultório, ele explicou a situação de Marvila, a gravidez de risco por falta de acompanhamento e o medo de ir a um hospital público. O médico o ouviu com atenção e disse que faria todos os exames e consultas necessários, pelo particular, para que ela se sentisse segura.
Ao sair da clínica, Dom estava com a mente mais calma. O advogado e o médico lhe deram soluções para os problemas de Marvila, e ele sentiu um novo senso de propósito. Ele não sabia se ia continuar vivo, mas queria ter certeza de que, se algo acontecesse, ela e o bebê estariam seguros. Ele voltou para casa com a certeza de que a vida de Marvila e a do seu bebê importavam, e que ele tinha a chance de fazer a diferença.
Dom voltou no final da tarde, e Marvila, deitada no quarto, ouviu o barulho do carro. Seu coração disparou. Apavorada e com medo do que ele poderia trazer, ela desceu as escadas lentamente, mantendo a postura tensa. Dom estava entrando, se aproximou da escada, a olhando gentilmente.
— Olá, eu trouxe pão recheado, venha comer. — ele disse, estendendo a sacola.
— Marquei uma consulta com um bom médico, amanhã de manhã. Você vai fazer os exames e ele vai regularizar sua carteira de gestante.
Marvila relaxou, sentou na mesa, e começou a comer o pão doce, mas ele continuou a falar.
— Tenho uma ideia de como te ajudar. Você poderia trocar de nome, isso leva tempo, mas depois... depois você poderia se casar comigo e usar o meu sobrenome.
Marvila parou de comer e arregalou os olhos, confusa.
— Mas eu não te conheço e estou grávida.
Dom sorriu e explicou que não queria nada com ela, que o advogado lhe auxiliou e deu a ideia. Eles fariam um contrato pré-nupcial com separação total de bens, mas ele lhe daria uma casa pequena, talvez construída em um de seus terrenos, como ela quisesse. Ele sorriu sutilmente exultante.
— Casada e com um nome novo, seu ex teria mais dificuldade em te achar. Além disso, eu registaria o bebê como meu. No futuro, o bebê seria meu único herdeiro direto.