Marvila ficou nervosa.
— Não sei se isso é certo — disse, com a voz trêmula, com o medo de Dom roubar seu bebê nítido em seus olhos.
— Não quero nada financeiro de você. Eu vou trabalhar quando o bebê nascer.
Dom a interrompeu, com a voz calma e gentil.
— Marvila, calma. São só formalidades. Entenda, eu não quero nada em troca. Para mim, a vida não faz mais diferença alguma. Pense bem, isso precisa ser resolvido antes do bebê nascer.
Marvila permaneceu cética, mas a razão falou mais alto. A proposta de Dom era a única chance de dar uma vida segura para seu filho.
— Eu aceito. Pelo meu bebê. E fico muito lisonjeada, Deus te colocou no meu caminho.
— Você está fazendo a escolha certa. Não irá se arrepender — disse Dom, com um sorriso sutil.
— Amanhã, vamos ao médico e depois ao cartório. Pense em algum nome que gostaria de usar.
Marvila riu, envergonhada.
— Não sei. Isso é tão estranho. Dom, mas você não precisa registrar o bebê. Se meu nome vai mudar, meu ex não vai nos achar.
Dom encheu um copo de água, serviu-a e sentou-se à mesa.
— Isso é uma escolha que só cabe a você aceitar ou não. Mas seu filho ou filha terá condições que vão lhe proporcionar nunca passar pelas dificuldades que você passou. Se eu tivesse um filho, ia querer que ele tivesse segurança.
Marvila concordou, terminou de comer o pão doce e olhou fixamente nos olhos de Dom.
— Você pode se divorciar e recomeçar. Sua vida tem muito valor.
Ele sorriu, um sorriso frustrado e cansado.
— Não tem cor ou valor, ela acabou. No dia em que enterrei minha esposa, meu grande amor, a minha alma gêmea. Já tentei de tudo, remédios, terapia, bebidas. Nada funcionou. Vamos focar em você, no seu bebê. Eu não sou importante aqui.
Marvila ficou cabisbaixa, triste.
— Eu sinto muito pela sua perda.
Ele desconversou, mudando o assunto.
— Tudo bem. Agora quero que me passe seus dados: RG, CPF... Ah, e você foi casada no papel?
Ela sorriu timidamente.
— Não, e eu queria muito. O sonho da minha vida era casar, de noiva. Que ironia do destino... primeiro tudo aquilo, e agora isso. — Ela olhou para ele, desconcertada.
— Não me leve a m*l, por favor. Não quero desfazer de você, da sua proposta, da sua ajuda. Eu só tinha um sonho que nunca esteve ao meu alcance.
Dom sorriu, curioso.
— Então você vai aceitar? Se casar comigo?
Marvila o encarou, constrangida.
— Eu acho que sim. Mas não quero casa, nada. Vou trabalhar e não serei um fardo, eu prometo.
Dom se levantou, visivelmente mais contente.
— Tudo bem, teremos muito o que negociar. Agora, vou tomar banho e já volto para te ajudar com o jantar.
Ele parou no meio do caminho e se virou para ela.
— Passou bem o dia?
Marvila sorriu e respondeu que sim, que descansou bastante e que não precisava de ajuda na cozinha. Dom subiu para o quarto, tomou um banho demorado quente e parou em frente ao espelho. Pela primeira vez em muito tempo, ele pensou em sua barba, que crescia de forma desleixada. Sem se importar com a aparência, vestiu uma de suas roupas largas e confortáveis e voltou para a cozinha.