Quando ele voltou para a cozinha, a cena o surpreendeu. O jantar estava pronto, a mesa arrumada, e o cheiro de comida caseira preenchia o ar, carne cozida com mandioca, arroz, feijão preto, salada de alface. Ele olhou para Marvila, que o esperava com um sorriso no rosto.
— Não precisava ter feito tudo sozinha. — ele disse.
— Eu ia te ajudar. Sente-se, você precisa descansar.
Marvila sorriu e sentou-se.
— Eu gosto de cozinhar. Posso te perguntar algumas coisas? Ainda estou confusa.
Dom concordou e serviu os dois. Ela começou a falar, apreensiva.
— Você não tem família? E se eles brigarem comigo? Querendo saber se é o pai do bebê? E se me acharem interesseira?
Dom suspirou e sentou para comer.
— Eles não têm esse direito, a vida é minha. Fique tranquila, você vai ter todos os seus direitos garantidos.
Marvila o olhou, séria.
— Não quero ter nada seu. Só o seu sobrenome, essa ideia parece incrível.
Ele sorriu, curioso.
— E já escolheu um nome novo?
Marvila disse que ainda não, e perguntou qual era o sobrenome dele.
— Ricci. — Dom respondeu.
— Precisamos combinar uma história sobre como nos conhecemos e… — ele apontou para a barriga dela
— Como isso aconteceu.
Marvila arregalou os olhos, desconcertada.
— Vão perguntar como eu engravidei?
Dom sorriu gentilmente.
— Não exatamente, mas precisamos ter um bom plano. Pensei em dizer que nos conhecemos em um bar, em uma das minhas viagens. Tivemos uma noite juntos e passamos meses separados, conversando sobre nós e o bebê. Tivemos recaídas e decidimos nos casar para ter uma família.
Marvila não gostou da sugestão, mas permaneceu em silêncio por um instante. Dom, percebendo a hesitação, perguntou se ela havia pensado em algo.
— Eu não frequento bar. Estarmos distantes e dormindo... me faz parecer uma mulher fácil e isso vai abrir espaço para eles pensarem que o bebê não é seu. — ela respondeu, cabisbaixa.
Ele perguntou o que ela tinha em mente.
— Algo mais sutil. — ela falou, timidamente.
— Como se tivéssemos tido química, longas conversas e... não uma tran.sa casual qualquer.
Dom riu, com um desdém amargo.
— Não vão acreditar. Na minha vida nunca teve espaço para outra mulher. Tem que ser um acidente, algo que aconteceu sem querer.
Marvila abaixou o olhar, dizendo que era melhor ele decidir sozinho. Eles terminaram de comer em silêncio. Ela se levantou para lavar a louça e, quando Dom se ofereceu para ajudar, tentou pegar um prato das mãos dela. Marvila, nitidamente irritada e emotiva por causa da gravidez, segurou com força. O prato escorregou e quebrou.
— Vá deitar e deixe a louça. — Dom ordenou, com a voz séria. Ele murmurou, bravo.
— Aquele prato era do meu casamento e nunca nenhum foi quebrado.
Marvila, apesar de ser honesta, calma e gentil, tinha um pavio curto. Ela foi para o quarto, brava, e adormeceu reclamando dele para o bebê, dizendo que só ficariam ali por um tempo. Mais tarde, Dom se sentiu m*l por ter sido rude. Bateu na porta do quarto, mas já era tarde, ela não respondeu. Ele abriu a porta e a viu dormindo.
Na manhã seguinte, Marvila levantou cedo. Revirou o lixo, juntou cada caco do prato quebrado e guardou, escondido. Tomou um banho longo, demorando quase uma hora para se depilar com dificuldade e arrumar o cabelo em um coque simples. Colocou um de seus vestidos gastos, que era cinza, sem perceber um furo na parte de trás. A calcinha não servia e estava velha, então, constrangida, ela preferiu não usar.
Com sua sandália gasta, ela foi para a sala. Dom já tinha levantado e estava arrumando a mesa do café. Ele a olhou, sério.
— Bom dia, dormiu bem? Daqui a meia hora temos que sair.
Marvila se aproximou e sentou à mesa, começando a preparar um pão com mortadela.
— Estou pronta. — ela disse, com a voz baixa.
Dom, que enchia uma caneca de café, parou e olhou para ela.
— Vou pegar um vestido para você. Esse seu está um pouco simples. Confesso que eu não estou muito bem cuidado, mas a mulher que está ao meu lado tem que estar. Vamos fazer compras esta semana.
Marvila o ouviu atenta e permaneceu em silêncio. Dom saiu da cozinha e logo voltou com um vestido vermelho florido em um cabide, que ele colocou na cadeira.
— O sapato compramos no caminho. Vou jogar uma água no carro e te espero lá fora. Ah, deixei algumas coisas para você em cima da sua cama.
Ela agradeceu e terminou de comer apressadamente. Subiu as escadas ansiosa para experimentar o vestido. Ele era todo aberto, transpassado e regata, bastante fresco e confortável. Em cima da cama, havia uma caixinha organizadora. Dentro, um perfume, um porta-joias e um batom vermelho. Marvila cheirou e olhou para cada item, sentindo-se incomodada, com a certeza de que aquelas coisas pertenciam à falecida esposa de Dom.
Ela desceu as escadas e foi até o quintal, onde Dom estava mexendo no celular. Ele a olhou, e um brilho de surpresa e nostalgia passou por seus olhos. Ele a encarou por tempo demais, lembrando-se de sua esposa com um vestido muito parecido. Disfarçando, abriu a porta do carro e a ajudou a entrar. Assim que saíram da casa, ele perguntou:
— Não quis usar o perfume e o batom? São novos!
Marvila engoliu em seco.
— Me esqueci. — respondeu.
Dom começou a falar que o médico já estava a par de toda a situação e faria a carteirinha de gestante para ela, além de descobrir o sexo do bebê. Marvila o interrompeu, séria.
— Não quero saber o que o bebê é.
— Por que não? Precisamos saber para montar o enxoval. Não se preocupe com nada, dinheiro não é problema. — ele insistiu.
Marvila permaneceu calada, cabisbaixa. Quando chegaram à clínica, Dom a ajudou a descer do carro, agitado e ansioso. Enquanto entravam, ele perguntou:
— Não está animada para ver seu bebê? Vamos fazer até uma ultrassonografia de última geração e ouvir o coração.
Marvila sorriu, emotiva, com um mau pressentimento.
— Sim, estou.
Ela o achava muito estranho. Na recepção, Dom tomou a frente, dando as informações necessárias. Sentaram para aguardar, e ela sentia as mãos trêmulas e geladas. Dom parecia ansioso, balançando a perna.
O médico chamou, e eles entraram, andando lado a lado. Dom entrou sorrindo. O Dr. Daniel foi muito simpático, fez perguntas a Marvila, preencheu a caderneta, fez anotações, imprimiu pedidos de exames e receitas de vitaminas. Por fim, pediu a ela que se trocasse para ser examinada.