Capítulo 8

1110 Words
Quando ele voltou para a cozinha, a cena o surpreendeu. O jantar estava pronto, a mesa arrumada, e o cheiro de comida caseira preenchia o ar, carne cozida com mandioca, arroz, feijão preto, salada de alface. Ele olhou para Marvila, que o esperava com um sorriso no rosto. — Não precisava ter feito tudo sozinha. — ele disse. — Eu ia te ajudar. Sente-se, você precisa descansar. Marvila sorriu e sentou-se. — Eu gosto de cozinhar. Posso te perguntar algumas coisas? Ainda estou confusa. Dom concordou e serviu os dois. Ela começou a falar, apreensiva. — Você não tem família? E se eles brigarem comigo? Querendo saber se é o pai do bebê? E se me acharem interesseira? Dom suspirou e sentou para comer. — Eles não têm esse direito, a vida é minha. Fique tranquila, você vai ter todos os seus direitos garantidos. Marvila o olhou, séria. — Não quero ter nada seu. Só o seu sobrenome, essa ideia parece incrível. Ele sorriu, curioso. — E já escolheu um nome novo? Marvila disse que ainda não, e perguntou qual era o sobrenome dele. — Ricci. — Dom respondeu. — Precisamos combinar uma história sobre como nos conhecemos e… — ele apontou para a barriga dela — Como isso aconteceu. Marvila arregalou os olhos, desconcertada. — Vão perguntar como eu engravidei? Dom sorriu gentilmente. — Não exatamente, mas precisamos ter um bom plano. Pensei em dizer que nos conhecemos em um bar, em uma das minhas viagens. Tivemos uma noite juntos e passamos meses separados, conversando sobre nós e o bebê. Tivemos recaídas e decidimos nos casar para ter uma família. Marvila não gostou da sugestão, mas permaneceu em silêncio por um instante. Dom, percebendo a hesitação, perguntou se ela havia pensado em algo. — Eu não frequento bar. Estarmos distantes e dormindo... me faz parecer uma mulher fácil e isso vai abrir espaço para eles pensarem que o bebê não é seu. — ela respondeu, cabisbaixa. Ele perguntou o que ela tinha em mente. — Algo mais sutil. — ela falou, timidamente. — Como se tivéssemos tido química, longas conversas e... não uma tran.sa casual qualquer. Dom riu, com um desdém amargo. — Não vão acreditar. Na minha vida nunca teve espaço para outra mulher. Tem que ser um acidente, algo que aconteceu sem querer. Marvila abaixou o olhar, dizendo que era melhor ele decidir sozinho. Eles terminaram de comer em silêncio. Ela se levantou para lavar a louça e, quando Dom se ofereceu para ajudar, tentou pegar um prato das mãos dela. Marvila, nitidamente irritada e emotiva por causa da gravidez, segurou com força. O prato escorregou e quebrou. — Vá deitar e deixe a louça. — Dom ordenou, com a voz séria. Ele murmurou, bravo. — Aquele prato era do meu casamento e nunca nenhum foi quebrado. Marvila, apesar de ser honesta, calma e gentil, tinha um pavio curto. Ela foi para o quarto, brava, e adormeceu reclamando dele para o bebê, dizendo que só ficariam ali por um tempo. Mais tarde, Dom se sentiu m*l por ter sido rude. Bateu na porta do quarto, mas já era tarde, ela não respondeu. Ele abriu a porta e a viu dormindo. Na manhã seguinte, Marvila levantou cedo. Revirou o lixo, juntou cada caco do prato quebrado e guardou, escondido. Tomou um banho longo, demorando quase uma hora para se depilar com dificuldade e arrumar o cabelo em um coque simples. Colocou um de seus vestidos gastos, que era cinza, sem perceber um furo na parte de trás. A calcinha não servia e estava velha, então, constrangida, ela preferiu não usar. Com sua sandália gasta, ela foi para a sala. Dom já tinha levantado e estava arrumando a mesa do café. Ele a olhou, sério. — Bom dia, dormiu bem? Daqui a meia hora temos que sair. Marvila se aproximou e sentou à mesa, começando a preparar um pão com mortadela. — Estou pronta. — ela disse, com a voz baixa. Dom, que enchia uma caneca de café, parou e olhou para ela. — Vou pegar um vestido para você. Esse seu está um pouco simples. Confesso que eu não estou muito bem cuidado, mas a mulher que está ao meu lado tem que estar. Vamos fazer compras esta semana. Marvila o ouviu atenta e permaneceu em silêncio. Dom saiu da cozinha e logo voltou com um vestido vermelho florido em um cabide, que ele colocou na cadeira. — O sapato compramos no caminho. Vou jogar uma água no carro e te espero lá fora. Ah, deixei algumas coisas para você em cima da sua cama. Ela agradeceu e terminou de comer apressadamente. Subiu as escadas ansiosa para experimentar o vestido. Ele era todo aberto, transpassado e regata, bastante fresco e confortável. Em cima da cama, havia uma caixinha organizadora. Dentro, um perfume, um porta-joias e um batom vermelho. Marvila cheirou e olhou para cada item, sentindo-se incomodada, com a certeza de que aquelas coisas pertenciam à falecida esposa de Dom. Ela desceu as escadas e foi até o quintal, onde Dom estava mexendo no celular. Ele a olhou, e um brilho de surpresa e nostalgia passou por seus olhos. Ele a encarou por tempo demais, lembrando-se de sua esposa com um vestido muito parecido. Disfarçando, abriu a porta do carro e a ajudou a entrar. Assim que saíram da casa, ele perguntou: — Não quis usar o perfume e o batom? São novos! Marvila engoliu em seco. — Me esqueci. — respondeu. Dom começou a falar que o médico já estava a par de toda a situação e faria a carteirinha de gestante para ela, além de descobrir o sexo do bebê. Marvila o interrompeu, séria. — Não quero saber o que o bebê é. — Por que não? Precisamos saber para montar o enxoval. Não se preocupe com nada, dinheiro não é problema. — ele insistiu. Marvila permaneceu calada, cabisbaixa. Quando chegaram à clínica, Dom a ajudou a descer do carro, agitado e ansioso. Enquanto entravam, ele perguntou: — Não está animada para ver seu bebê? Vamos fazer até uma ultrassonografia de última geração e ouvir o coração. Marvila sorriu, emotiva, com um mau pressentimento. — Sim, estou. Ela o achava muito estranho. Na recepção, Dom tomou a frente, dando as informações necessárias. Sentaram para aguardar, e ela sentia as mãos trêmulas e geladas. Dom parecia ansioso, balançando a perna. O médico chamou, e eles entraram, andando lado a lado. Dom entrou sorrindo. O Dr. Daniel foi muito simpático, fez perguntas a Marvila, preencheu a caderneta, fez anotações, imprimiu pedidos de exames e receitas de vitaminas. Por fim, pediu a ela que se trocasse para ser examinada.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD