Marvila foi ao banheiro, colocou a camisola e voltou para a sala de exames. Nervosa, ela viu Dom em pé ao lado da maca e ficou surpresa. Ele a ajudou a se sentar. O Dr. Daniel estava explicando o que seria feito, primeiro a ultrassonografia, depois o exame de toque. Marvila estava tão nervosa que não entendia nada. Cheia de vergonha, ela falou:
— Eu me cortei toda, me depilando.
O doutor riu e disse que era normal. Dom estava perto da cabeça dela, observando o monitor. A ultrassonografia começou, e os batimentos cardíacos do bebê ecoavam na sala. Havia uma moça no computador digitando as informações. Dom ficou calado, observando, e Marvila estava encantada. Ela não chorou, apenas ficou olhando para o bebê, emotiva. O doutor não disse qual era o sexo do bebê, e ela não perguntou.
A ultrassonografia terminou, e o médico confirmou que a gestação estava no final, com mais de trinta e seis semanas. Ele também percebeu o quanto Marvila parecia pouco instruída. O médico passou uma dieta e explicou tudo com calma. A consulta demorou bastante.
Quando saíram, Dom a ajudou a entrar no carro.
— Vamos às compras, depois do cartório. Já escolheu um nome?
Marvila balançou a cabeça em negativa. Quando ele entrou no carro, ela perguntou:
— Por que o médico não disse o que o bebê é?
Dom sorriu, com os olhos fixos na estrada.
— Eu falei que você não gostaria de saber. Mudou de ideia?
Marvila segurava a ultrassonografia nas mãos e parecia pensativa.
— Não mudei. — ela respondeu.
Ele parou em uma loja de calçados em uma avenida movimentada. Assim que saíram do carro, ele a olhou, preocupado.
— Está com dores? Não parece contente. Achei que ver o bebê a deixaria feliz.
— Estou com medo do futuro. — ela confessou.
Enquanto entravam na loja, uma vendedora simpática se aproximou. Dom tomou a frente.
— Queremos calçados confortáveis para ela. Tons neutros, discretos. Algo para festa e para o dia a dia.
A moça começou a mostrar opções. Ela perguntou o número de Marvila e foi buscar algumas caixas. Dom a ajudou a se sentar. Seu semblante estava calmo e seus olhos mostravam uma alegria que não se via há tempos. Enquanto isso, Marvila estava cética e com a mente distante.
A vendedora, ao ver a caminhonete de Dom, trouxe os melhores calçados da loja. Ela ajudou Marvila a experimentar e falava sobre a gravidez e os pés inchados. Marvila estava tímida, sentindo-se feia com as unhas sem fazer. Ela escolheu uma sandália rasteira, mas Dom escolheu mais quatro calçados e a ajudou a experimentá-los.
Eles saíram da loja trocando olhares. As boas ações de Dom a assustavam, deixando-a apreensiva.
Em seguida, foram ao cartório. Marvila disse que havia pensado em mudar o nome para Mariana ou Michele, mas que no dia a dia continuaria a usar seu nome atual. Dom concordou e disse que a mudança seria apenas no papel. Ela escolheu Marina, deu entrada nos papéis e se informaram sobre o casamento também.
Marvila estava pálida, com muita fome e se sentindo indisposta. Constrangida com o ronco da barriga, fingiu ter uma contração quando eles estavam indo em direção ao escritório do advogado. Dom, percebendo o desconforto, parou o carro e perguntou se ela estava bem. Ela respondeu que devia ser uma queda de pressão e que precisava de água.
Dom imediatamente disse que a levaria para almoçar em um restaurante ali perto, um que ele gostava muito.
— Hoje tem feijoada. — ele disse.
Marvila sorriu espontaneamente, com a fome falando mais alto.
— Tomara que tenha! Eu amo feijoada, faz muito tempo que não como. Nossa!
Ele garantiu que teria, e ela até desceu do carro sozinha, ansiosa.
O restaurante estava quase vazio por causa do horário. Um rapaz sorridente os recebeu, olhando para Marvila e para sua barriga com um certo desconforto. Dom se antecipou e disse que ela estava com fome e cansada de tanto andar, resolvendo a vida deles. O rapaz entregou o cardápio, visivelmente curioso, e perguntou o sexo do bebê.
— Não sabemos, vamos descobrir no parto. — Dom respondeu, sorrindo e acariciando a barriga de Marvila.
Marvila o olhou, com a testa franzida em desconforto. Ela se levantou com dificuldade, apoiando-se na mesa e na cadeira.
— Vou ao banheiro.
Assim que ela saiu, Dom explicou que ela era muito reservada e que os convidaria para o casamento. A esposa do rapaz se aproximou, e ao saber do casamento, disse que estava muito feliz por ele. Quando Marvila voltou, eles ainda estavam falando sobre a cerimônia. Ela sorriu para a moça, viu a feijoada na mesa e começou a comer, saboreando cada garfada e ignorando as conversas.
O casal que os atendia se afastou, e Dom começou a comer.
— Agora todos vão saber sobre nós. Cidade pequena, o que mais tem é fofoca. Está boa a comida? — ele perguntou.
Marvila sorriu, satisfeita.
— Sim, muito. Eu posso tomar refrigerante, só hoje? É que eu amo coca-cola com feijoada.
Ele sorriu, vendo-a animada como nunca antes. — Pode, vou pegar. Gelo e limão?
Ela disse que sim. Ele pegou e a serviu. Marvila repetiu o prato e, ao terminar, encostou-se na cadeira, acariciando a barriga.
— Obrigada por tudo, Dom. — ela suspirou.
Ele sorriu sutilmente e se virou para ela.
— Vocês vão ficar bem, eu prometo. Ele está mexendo?
Marvila o olhou fixamente e respondeu baixo, acariciando a barriga.
— Sim, está. Eu não sei como te dizer isso, mas eu não gosto de muito contato físico. Você me deixou muito desconfortável na frente deles. Eu não esperava que você fosse me tocar.
Dom riu, notando que ela realmente não imaginava o que estava por vir.
— Não toquei você, toquei o bebê. Ele sente tudo, escuta. Eu queria que ele me conhecesse.
Ela ficou em silêncio por alguns instantes. Depois, esticou a mão.
— Ele vai te conhecer. Sente ele, agradecendo o refrigerante, a comida.
Dom deu a mão, calejada e maltratada. Ela a colocou na barriga. De repente, o bebê mexeu forte, e o rosto de Dom se iluminou com um sorriso espontâneo.
— Se quer me manipular para ter refrigerante outras vezes, conseguiu.