Marvila ficou vermelha com o comentário. Não sabia se agradecia ou se se escondia. Tocou a barriga como se quisesse protegê-la dos olhos de Dom.
— Sorte... não sei. — murmurou.
— Só sei que, quando olho para ela, sinto medo e esperança ao mesmo tempo. Uma força da natureza e uma companhia.
Dom respirou fundo. O jeito dela falar lhe lembrava Ana Carolina, que dizia quase as mesmas palavras quando a gravidez deles ainda era um sonho distante. Ele desviou o olhar, engolindo a emoção, e mudou de assunto:
— Vou preparar um chá de erva doce, capim santo. Vai te ajudar a dormir melhor.
Marvila sorriu, envergonhada.
— Eu me viro. Já fiz você perder o sono demais.
Ele colocou a caneca no fogo, ignorando a tentativa dela de se afastar.
— Você não entende, Marvila. Cuidar de você... tem me feito lembrar que eu ainda estou vivo.
As palavras ficaram suspensas no ar. Marvila o olhou, surpresa, e depois abaixou os olhos, apertando os lábios. Não queria se apegar, mas algo dentro dela amolecia com cada gesto dele.
Quando o chá ficou pronto, Dom serviu uma xícara para ela e outra para si. Os dois beberam em silêncio. O relógio marcava quase três da manhã.
Marvila terminou o chá e se levantou devagar.
— Boa noite, Dom. Obrigada... por tudo. — disse, com a voz doce calma.
Ele apenas assentiu, observando-a subir as escadas com cuidado, uma mão apoiada na barriga e a outra no corrimão.
Sozinho, Dom passou a mão pela barba, sentindo o peso de tudo o que carregava. Pela primeira vez em anos, não pensava em como terminar sua própria vida. Pensava em como segurar firme a vida que estava prestes a começar dentro daquela casa.
Pela manhã, ao se arrumar para ir ao advogado, Marvila se pegou pensando na conversa da madrugada. As palavras de Dom ecoavam em sua mente, principalmente o modo como ele havia falado da barriga e do bebê, com uma ternura que ela não esperava de um homem tão fechado. Aquilo a confundia. Pensava será que ele realmente não queria nada com ela? Ou seria apenas bondade, um gesto de quem já não tinha nada a perder? O medo crescia dentro dela como uma sombra, medo de ser usada, medo de ser abandonada de novo, medo de perder o bebê.
Enquanto passava a mão sobre o vestido surrado que vestia, decidiu que precisava ser honesta. Precisava colocar todas as cartas na mesa antes que fosse tarde. Ela foi até a cozinha, deu bom dia, disse que o bebê, estava faminto. Dom acariciou a barriga dela, perguntou:
— Você está faminto ou a sua mãe? Se mexer, vai ganhar refrigerante.
— Vamos lá, de um chute bem forte.
No café da manhã, o silêncio era pesado, Marvila sorriu constrangida nervosa, Dom percebeu. O cheiro de café recém-passado dele, se misturava ao do pão dela aquecido na chapa, mas nem ela nem Dom conseguiam aproveitar a refeição. Ele percebeu que algo a incomodava e a observou em silêncio, até que não resistiu.
— O que foi, Marvila? — perguntou, com a voz baixa e gentil, como se tivesse medo de pressioná-la.
Ela respirou fundo, com os olhos marejados.
— Eu não quero ser um fardo para você... — respondeu, com a voz embargada.
— Eu tenho medo, Dom. Você é um estranho, e está me oferecendo tudo isso. Sendo tão gentil.
Dom a encarou por alguns segundos em silêncio. Os olhos dele, marcados por anos de dor, suavizaram-se. Ele suspirou e, sério, disse:
— Eu entendo o seu medo, Marvila. Mas eu juro, por tudo que é mais sagrado, que nunca vou te machucar. — inclinou-se levemente para a frente, firme.
— Eu quero o seu bem e o do seu filho. Só isso.
— Não irei mais, tocar a sua barriga, acho que você, não gosta.
As palavras dele não apagaram totalmente o receio que ela carregava, mas acalmaram seu coração o suficiente para que pudesse respirar em paz. Ainda assim, a insegurança não desaparecia. Ela começou rir constrangida:
— Não sou acostumada, com contato físico, mas... as pessoas, gostam muito da barriga de grávida.
— É tão estranho, na rua, querem tocar.
Dom começou rir:
— Não é estranho, é lindo. O bebê sente e ouve.
Ela perguntou, se ele achava, que era menina ou menino, ele disse que parecia barriga de menina, mas ela estava com cara de mãe, de menino, com a pele e o cabelo bom. Ela ficou rindo, imaginando as opções.
Pouco depois, eles se arrumaram para ir ao advogado. Antes de sair, Dom surgiu segurando um vestido azul royal, longo e elegante de mangas três quartos. O tecido macio e brilhante parecia novo, embora Marvila tivesse a estranha sensação de que carregava memórias que não lhe pertenciam.
— Você precisa se cuidar, andar vaidosa. — disse Dom, com a voz calma.
— Por mais que eu seja um homem feio e largado, a mulher que está ao meu lado tem que estar sempre bem.
Marvila sorriu, tristonha, e agradeceu. O vestido era realmente lindo, mas usá-lo lhe pesava no peito, como se estivesse ocupando o espaço da falecida esposa de Dom. Para disfarçar a melancolia, passou o perfume que ele lhe dera e passou um pouco do batom vermelho. Olhou-se no espelho e, pela primeira vez em muito tempo, desejou tirar uma foto grávida para guardar de lembrança. Desceu apreensiva, encontrou Dom na sala, ele estava m*l vestido, como sempre.
Saíram juntos, trocando olhares rápidos e sorrisos tímidos no caminho. Ele ficou confuso, com o cheiro do perfume, que era o de Ana Carolina.
No escritório, o advogado os recebeu com formalidade e explicou cada detalhe dos documentos. Falou devagar, desenhou esquemas, deixou que Marvila fizesse anotações. Mas, enquanto anotava, algo não fazia sentido para ela. Havia lacunas que a deixavam com dúvidas, embora não tivesse coragem de perguntar diante de Dom. Guardou o desconforto para si.
Depois do escritório, foram até uma loja. Dom a incentivou a escolher uma bolsa. Discreta, Marvila pegou uma grande, em tom nude, funcional e elegante. Ele aprovou com um aceno de cabeça, satisfeito.
Quando entraram no carro, ela não aguentou mais o peso da dúvida. Apertou a bolsa contra o colo e perguntou, com a voz embargada:
— Por que você está me ajudando tanto?
Dom respirou fundo, virou-se para ela e segurou sua mão com firmeza. Seus olhos claros a olharam intensamente.
— A minha vida não vale nada. — confessou, sem rodeios.
— Mas a sua... a sua e a do seu bebê são muito importantes. Eu quero ver você feliz, Marvila. Quero que aproveite o milagre da vida.
— Eu acho que Deus te usou e agora, o meu propósito é esse. Cuidar de você.
Ela não conseguiu responder. Apenas engoliu em seco, sentindo as lágrimas se acumularem em seus olhos.
Dom, percebendo o peso do momento, sorriu de leve.
— Vou te levar para tomar sorvete. Toda grávida, gosta.
Pararam em uma praça movimentada. O sol já aquecia o dia, e o burburinho de moradores dava àquele espaço uma energia viva. Ao descerem do carro, Dom e Marvila caminharam em direção a uma sorveteria. A presença dos dois juntos, ainda mais com a barriga evidente de Marvila, chamou a atenção dos curiosos. Murmúrios discretos surgiam, olhares se voltavam para eles.
Dom percebeu e, com a voz grave e serena, perguntou:
— Você aceita andar de mãos dadas comigo?
Surpresa, Marvila assentiu e segurou a mão dele. O gesto era simples, mas carregava um peso imenso.
— Sinto muito por tudo. — ela disse, com sinceridade.
— Pela sua perda. Você não tem medo de se casar comigo e se arrepender?
Dom riu, sacudindo a cabeça.
— Não.
Marvila, no entanto, permaneceu séria.
— Você não tem vontade de viver algo bom? Não comigo... mas com alguém?
Ele parou por um instante, olhou nos olhos dela e perguntou de volta:
— Por que não com você?
Ela baixou os olhos, nervosa.
— Eu não sirvo para você. Você é um homem mais velho, livre e... bonito.
Dom corou, envergonhado, como não fazia há muito tempo.
— Eu nunca quis outro amor. Não existe mulher que me faria amar de novo.
Marvila apertou um pouco mais a mão dele, sua voz saiu quase num sussurro.
— Nossa.
Ele falou calmamente.
— Quando você decidir voltar a amar... eu te darei sua liberdade. Para viver como quiser.
Eles se entreolharam em silêncio, a praça barulhenta ao redor parecendo desaparecer. Era como se só existissem os dois, unidos por um acordo silencioso, ele lhe daria segurança e dignidade, e ela, em troca, lhe devolveria um propósito ainda que nenhum dos dois soubesse até onde aquilo os levaria.