Capítulo 12

707 Words
Marvila segurava o pote grande de sorvete cheio de coberturas e se sentou com Dom à sombra de uma árvore na praça. Ele preferiu um picolé simples, mordendo distraidamente enquanto a observava. O silêncio entre eles era denso, e o sorvete de Marvila começou a derreter, escorrendo pela colher e caindo sobre sua barriga. As palavras de Dom ecoavam em sua mente como uma promessa e, ao mesmo tempo, como um peso. Ele falava com uma certeza que a confundia, a certeza de um homem que já havia desistido de si, mas que, ainda assim, estava disposto a lutar por ela e pelo bebê. — Dom… — ela murmurou, com a voz trêmula. — Sobre a festa… eu tenho vergonha. Isso é um erro, se expor. Ele parou, pegou um guardanapo, sem hesitar, limpou com cuidado a barriga dela, retirando o sorvete que escorria. Depois, a olhou nos olhos com uma seriedade que quase a deixou sem ar. — Eu já cometi muitos erros, Marvila. Mas você não é um deles. — disse firme, com a voz carregada de verdade. — Você é a chance de fazer algo certo, talvez pela primeira vez desde que perdi tudo. Marvila engoliu em seco, e sua pergunta saiu quase num sussurro: — Mas vão nos criticar. Ele a olhou gentilmente. — É ou não um sonho seu? O silêncio voltou a se instalar entre eles, cortado apenas pelo riso distante das crianças brincando na praça e pelo barulho das folhas movidas pelo vento suave. Sem perceber, Marvila se aproximou mais dele, buscando na sua presença uma proteção instintiva. — Eu não sei se consigo sonhar. — confessou, com um sorriso fraco. — Eu desejei dormir e não acordar… Meu bebê passava fome dentro de mim. Eu sofri muito. Dom inclinou o rosto para ela, e os olhos marejados revelaram um pedaço da dor que ele ainda carregava. — Sinto muito. — disse, com a voz embargada. — Isso não irá mais acontecer. Eu também desaprendi a sonhar. Marvila respirou fundo, surpresa pela sinceridade dele. Sem pensar, apertou a mão de Dom, dessa vez não por medo, mas por impulso, como se quisesse transmitir um pouco de sua própria força. — Eu não sei o que vai acontecer, Dom. — ela disse, olhando para o céu. — Mas, se eu estiver ao seu lado, quero que seja de verdade. Sem mentiras, sem meias-palavras. Eu não aguento mais viver fugindo. Com medo. Ele assentiu, firme. — Sem mentiras. Eu prometo. Sou um homem íntegro. O sorriso que se formou no rosto de Marvila foi diferente de todos os anteriores. Não era apenas um gesto com os lábios, seus olhos também sorriram, radiantes, como se pela primeira vez em muito tempo acreditassem em um futuro. Enquanto terminavam o sorvete, sob os olhares curiosos da pequena cidade, ambos sabiam, ainda que em silêncio, que algo maior estava nascendo entre eles, algo que nem a dor, nem o passado, nem o medo poderiam apagar. Marvila pediu um copo de água, e Dom se levantou para buscar. Sozinha, ela respirava fundo, tentando absorver o momento, quando uma voz feminina soou às suas costas. — Oi… quem é você? A namorada do Dom? Ou a filha? Sobrinha? Marvila virou-se devagar, confusa e intimidada. Diante dela estava uma mulher loira, de shorts curtos e blusa decotada. O cabelo longo caía sobre os ombros bem cuidados, a maquiagem impecável destacava os olhos claros, e o perfume doce preenchia o ar ao redor. Ela parecia ter pouco mais de trinta anos e carregava no sorriso uma ousadia desconfortável. — Sou a noiva dele. — respondeu Marvila, com firmeza, apesar da voz trêmula. — E você? A loira riu, inclinando a cabeça de forma provocativa. — Noiva? Até esses dias ele estava atrás de mim… me comendo gostoso. As palavras caíram como um soco no estômago de Marvila. Seus olhos se arregalaram, e ela se levantou de imediato, sem saber o que responder, com o coração disparado. Antes que pudesse reagir, viu Dom voltando com uma garrafa de água. A loira, era Janete, agora com um sorriso simpático e cínico, mudou o tom de voz. — Nasce quando? — perguntou, olhando para a barriga de Marvila. — É menino ou menina?
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