Capítulo 13

872 Words
Marvila ficou paralisada, sem saber o que responder. O coração batia acelerado, e a sensação de estar sendo testada a sufocava. A mulher loira, ainda sorrindo com ar provocador, estendeu a mão com fingida cordialidade. — Janete. — disse, com a voz doce demais para soar verdadeira. — Amiga antiga do Dom. Marvila apenas a cumprimentou, num aperto de mão breve e gelado. Sentia o olhar de Janete varrendo sua barriga como quem julgava cada detalhe. Nesse momento, Dom se aproximou com uma garrafa de água. Entregou-o a Marvila, que bebeu rápido, tentando disfarçar o desconforto. — Olá, Dom. — disse Janete, rindo com a mesma ousadia. — Fiquei surpresa em te ver por aqui. E mais ainda em conhecer a… noiva. Dom manteve o semblante sério, mas cordial. — Janete. Quanto tempo. Marvila observava em silêncio, cada gesto, cada palavra. A naturalidade dele parecia contrariar o que a loira havia insinuado. Mas a dúvida já tinha se instalado em seu peito. — Pois é. — continuou Janete, ajeitando o cabelo longo com delicadeza exagerada. — Fico feliz que tenha… seguido em frente. Felicidades. — disse, com um olhar que soava mais como provocação do que como benção. Dom apenas assentiu, cortando o assunto. — Foi bom te ver. Precisamos ir. Ele segurou a mão de Marvila e a conduziu em direção ao carro. Janete permaneceu parada, observando-os, com um sorriso de canto que Marvila não conseguiu esquecer. Dentro do carro, o silêncio era sufocante. Marvila olhava pela janela, com a garrafa de água ainda firme em suas mãos. A cena se repetia em sua mente, o riso de Janete, as palavras carregadas de malícia, a insinuação. Dom ligou o carro e, sem encará-la, apenas disse: — Não dê importância ao que ela fala. Janete gosta de aparecer. Ela não é importante. Marvila respirou fundo, mas não respondeu. Guardou suas dúvidas para si, com medo de ouvir uma verdade que poderia desmoronar tudo. Enquanto a caminhonete se afastava da praça, ela acariciou a barriga, buscando no bebê a coragem que lhe faltava. Dom fingiu que nada havia acontecido após o encontro com Janete. Ao chegarem em casa, sem dar explicações, saiu outra vez, deixando Marvila sozinha. O silêncio pesado da mansão voltou a envolvê-la, ela queria olhar cada cômodo, mas tinha vergonha. Sem saber o que fazer, Marvila caminhou pelo quintal. O jardim era grande, cercado de vasos, mudas e flores bem cuidadas. Algumas plantas estavam secas, outras precisando de espaço. Movida pelo instinto de ocupar a mente, abaixou-se e começou a mexer na terra com as próprias mãos. Achou paz no contato simples com o solo. Replantou mudas, ajeitou vasos, organizou o espaço como sabia, acreditando que não teria problema algum. Depois, entrou, preparou um prato simples de ovos mexidos com salada e almoçou sozinha. O vazio da sala a fez companhia. Cansada, deitou no sofá, adormecendo em uma soneca longa, com uma das mãos apoiada sobre a barriga. O som do portão anunciava o retorno de Dom. Ele entrou distraído, carregando sacolas. Mas quando olhou para o quintal e viu os vasos reorganizados, parou. A expressão em seu rosto mudou rapidamente para irritação. — Quem o Chicho pensa que é? — resmungou, com raiva. Andou até o jardim e começou a xingar, falando sozinho, com a voz grave e dura ecoando no silêncio. Pegou o celular, gravou um áudio ríspido, cheio de ignorância: — Chicho, já falei mil vezes! Não mexe onde não é o seu serviço! Isso aqui não é pra você. Não quero ninguém metendo a mão nas minhas coisas! Em seguida, chutou um dos vasos com força. O barulho da cerâmica se quebrando ecoou no quintal. Mais palavrões saíram de sua boca enquanto chutava outro e outro, derrubando as mudas, espalhando terra por todo lado. Marvila, assustada, saiu até a porta da cozinha. O coração batia acelerado, e suas mãos tremiam ao segurar a barriga. Observava Dom em fúria, com os olhos cerrados de raiva, sem coragem de admitir que havia sido ela quem mexera nas plantas. Ele levantou o olhar e a viu parada. Respirou fundo, tentando se recompor. Pegou as sacolas caídas, todo sujo de terra, e caminhou na direção dela. — Entre. — disse, sem firmeza. — Eu não… — interrompeu-se, envergonhado. — Estou cansado. Ele sabe que não deve mexer nas minhas coisas. As flores da minha esposa… só eu mexo. Por isso eu od.eio ter pessoas dentro da minha casa. Marvila, em silêncio, entrou devagar. Encostou-se na pia, cabisbaixa, as mãos protegendo a barriga. O vestido estava sujo de terra. Dom a olhou fixamente, e então deduziu, desconcertado: — Foi você… A voz saiu mais baixa, carregada de um misto de raiva contida e frustração. A expressão dele mudou, embaraçada, tentando remediar. — Eu trouxe presentes. — disse, quase num sussurro, como quem não sabia como consertar o que acabara de fazer. Mas Marvila já não o escutava. As lágrimas escorreram sem controle, e ela saiu correndo, ofegante, atravessando a casa até alcançar o quarto. Deitou-se na cama, confusa, com o coração dividido entre a gratidão e o medo, a vontade de confiar e o receio de estar se entregando a mais uma prisão. Fechou os olhos, mas o choro não parava.
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