ISABELA NARRANDO
O barulho do portão abrindo ecoa alto, pesado, como se o ferro arrastasse contra a própria alma de quem entra aqui.
Eu desço do carro sem pressa. Não porque eu estou calma…, mas porque eu sei exatamente onde eu estou pisando.
O chão é frio. O ar é pesado. E cada passo que eu dou parece me puxar mais fundo pra dentro desse lugar. Não é a primeira vez dentro do presidio..., mas desse é... e eu to aqui por uma pessoa do meu sangue.
Um agente se aproxima.
AGENTE— documento. _ Entrego sem olhar muito pra ele. Minha atenção está em volta… sempre está. — Primeira vez? _ Levanto os olhos devagar.
ISABELA— aqui dentro… sim. _ Ele me observa por alguns segundos. Como se tentasse me ler. Como se eu fosse só mais uma. Mas eu não sou.
Ele libera minha entrada. Passo pela revista. Pelo detector. Pelos olhares. Pelas portas que vão se fechando atrás de mim com aquele som seco… definitivo.
Cada porta que fecha parece dizer a mesma coisa: Agora você já está dentro.
Sou guiada por outro agente por corredores longos, estreitos, cheios de grades e olhares. Alguns presos encostados, outros andando devagar… todos olhando. Sempre olhando. Mas eu não abaixo a cabeça. Nunca abaixo.
O salto do meu sapato ecoa firme no chão. Cada passo meu é calculado. Controlado. Eu não demonstro medo. Mas por dentro… Meu coração bate mais forte.
Porque eu sei. Eu estou perto dele.
AGENTE— é aqui. _ Ele para na frente de uma sala de visita. Simples. Fria. Separada por vidro grosso e telefone. Clássico.
Seguro a respiração por um segundo antes de entrar. E então eu entro. Me sento. e espero.
Os segundos passam devagar…, mas não o suficiente pra me preparar de verdade.
A porta do outro lado abre. E ele entra.
Ítalo. Eu reconheceria ele em qualquer lugar. Mesmo mais velho. Mesmo mais duro. Mesmo com o olhar pesado, cansado… diferente. Ainda é ele.
Só que quebrado de um jeito que ninguém conserta fácil.
Ele para pôr um segundo quando me vê. Os olhos dele passam por mim devagar… como se estivesse confirmando que sou real. Como se não acreditasse. E então ele se aproxima.
Senta na minha frente. Mas não pega o telefone. Fica só olhando. Eu também.
O silêncio pesa. Mas eu não fujo dele. Pegou o telefone primeiro.
ISABELA— vai ficar me olhando ou vai falar comigo? _ Ele solta um ar leve pelo nariz… quase um riso sem humor. E então pega o telefone.
ÍTALO— cresceu. _ A voz dele está rouca. Mais grave. Mais pesada. Eu seguro o olhar.
ISABELA— você também. _ Ele me analisa. De cima a baixo. Observando cada detalhe.
ÍTALO— virou o que?
ISABELA— advogada. _ Ele arqueia levemente a sobrancelha.
ÍTALO— advogada?
ISABELA— criminalista. _ O silêncio volta. Mas agora… diferente. Agora tem tensão.
ÍTALO— por quê? _ Eu não desvio.
ISABELA— por sua causa. _ Ele trava.
Os olhos dele mudam. Só um pouco…, mas eu vejo. Sempre vi tudo nele.
ÍTALO— não devia.
ISABELA— devia sim. _ Me inclino um pouco pra frente. Minha voz firme. Sem tremor. — Eu posso tirar você daqui. _ Ele fica em silêncio. E eu continuo. — Eu já analisei seu processo. Já vi tudo. Já revi cada detalhe, cada falha, cada brecha. — Você foi condenado…, mas não foi defendido como deveria. _ Ele aperta o maxilar.
ÍTALO— não vem com isso.
ISABELA— eu não estou vindo com nada. Eu estou te falando a verdade. _ Aproximo ainda mais. — Eu nunca perdi um caso. Ele me encara. Agora mais sério. Mais atento. — E não vai ser você o primeiro. _ O silêncio pesa entre a gente.
Mas dessa vez… é diferente. Porque eu vejo. Eu vejo a dúvida nele. A esperança… tentando nascer. Mesmo que ele não queira.
ÍTALO— você sabe de tudo da prisão. Mas não sabe quem eu me tornei. _ eu o olho.
ISABELA— então me conta. _ sou direta. Sem rodeio. Sem medo.
Ele solta o telefone por um segundo… passa a mão no rosto… respira fundo. E então pega de novo.
ÍTALO— Isabela…_ A voz dele muda. Mais baixa. Mais pesada. — Se eu te contar o que eu fiz. Mesmo sem te ver… Meu coração bate mais forte. Mas eu não recuo.
ISABELA— conta. _ Ele me encara fixo. E o que eu vejo ali… não é culpa. É pior. Muito pior.
ÍTALO— depois disso…_ Ele para pôr um segundo. Como se as palavras pesassem na boca. — Você nunca mais vai querer olhar na minha cara. _ O silêncio cai entre a gente. Pesado. Cortando. Mas eu não desvio. Não abaixo. Não recuo.
ISABELA— tenta. _ Minha voz sai firme. Sem medo. Mesmo sem saber o que vem. E no fundo… Eu sinto. Que o que sai da boca dele agora… pode destruir tudo que eu achei que sabia sobre ele.
ÍTALO— eu vendi você para o chefe da cidade de deus. _ quando ele fala isso, o mundo para pôr um segundo.
O som some. O ar pesa. E por um instante… eu não escuto mais nada. Só aquela frase.
Ecoando. Batendo. Destruindo.
Meu coração erra uma batida… depois outra… e o peito aperta de um jeito que eu nunca senti antes. Eu não me mexo. Não falo. Não respiro direito.
Só olho pra ele. Tentando entender. Tentando processar. Mas não entra. Não entra porque não faz sentido. Não entra porque é ele. Meu irmão. Meu sangue.
E ainda assim… Eu sei que ele não tá mentindo. Porque o olhar dele não foge. Não se esconde. Não pede desculpa. Ele só… aceita. E isso dói ainda mais. Muito mais.
AMORES COMENTEM E VOTEM MUITO. O LANÇAMENTO É AMANHÃ E O BABO VAI SER GRANDE.