Mandei uma mensagem rápida para a Bia: "E esse alarme, amiga? É o que eu tô pensando?"
Ela não demorou nada para responder: "É sim... o Caveirão tá subindo. Fica entocada."
Xinguei baixinho, sentindo o peso da frustração. Já que eu não ia trabalhar e o dia estava perdido para o mercado de trabalho, decidi que, pelo menos, teria o luxo de um banho matinal sem pressa. No fundo, eu tentava me convencer de que para tudo na vida se dá um jeito, menos para a morte. Era o que eu precisava acreditar para não desmoronar.
Saí do banho, me enrolei na toalha e comecei a secar o cabelo. O Doruk estava começando a despertar, se espreguiçando na cama. Acendi o fogão e coloquei a água para esquentar — o ritual do leite era sagrado. Enquanto eu revirava a bolsa em busca da lata de leite em pó, batidas secas na porta me fizeram pular. O susto foi pequeno, mas o coração disparou.
— Quem é? — perguntei, com a voz falhando.
— Ai, dona, encomenda pra tu! Anda logo que eu tenho que vazar! — A voz era fraca, de um menino.
O medo era um nó na garganta, mas a curiosidade e o instinto me fizeram abrir uma fresta. No corredor, um menino que não devia ter nem dez anos me estendeu três sacolas pesadas e sumiu no beco sem dizer mais nada. Nem tive tempo de respirar.
Entrei e coloquei as sacolas sobre a pia. Dentro, havia de tudo para um café da manhã reforçado: pães frescos, frutas, queijo... Sorri por um segundo. "Isso só pode ser coisa da Bia", pensei. Peguei o celular e mandeei: "Obrigada pelas coisas, você é um anjo!"
A resposta veio em segundos: "Que coisas, Keila? Tá doida? Tô aqui trancada em casa!"
Meu sorriso morreu na hora. Olhei de novo para as sacolas. No fundo de uma delas, vi um brilho metálico. Peguei um carrinho vermelho, novinho, de metal.
— Bi-bi! Mamãe, dá! — O Doruk gritou, já de pé na cama, esticando as mãozinhas ansiosas para o brinquedo.
Entreguei o carro para ele, mas meu sangue gelou. Quem sabia onde eu morava? Quem mandaria um café de luxo e um brinquedo para o meu filho no meio de uma operação policial? Meus pensamentos voaram direto para aquele homem de olhos frios e relógio brilhante da loja.