O Sangue e o Silêncio

422 Words
Keila: ​Não sei que horas eram quando finalmente abri os olhos. O teto branco da UPA parecia brilhar demais, me cegando por um instante. Uma enfermeira falava comigo, palavras técnicas que eu não entendia, e a Bianca apenas assentia ao lado da cama. Quando a mulher saiu, Bia me olhou fixamente. Tinha algo diferente no rosto dela, algo que eu não conseguia decifrar, mas que me deu um calafrio. ​— Ai, a tua anemia tá pelo chão — Bia tentou soar casual, forçando um sorriso que não chegava aos olhos. — Vão trazer sangue, tu vai virar vampira. ​Eu a conhecia bem demais para cair naquela cena. ​— Aconteceu algo com o Doruk? — perguntei, o coração já acelerando. ​— Não! — ela respondeu rápido demais. — Ele tá bem. ​— O que foi, Bia? Tu tá estranha. A gente é como irmã, fala logo. ​Ela fechou os olhos por um segundo, segurou minha mão com força e sussurrou, quase com medo do que eu ia responder: ​— Aquela vez que tu sumiu... onde tu andava, Keila? ​Senti um soco no estômago. Minha defesa subiu na hora. ​— Eu já te disse... vendo minha família. O que foi, Bianca? Por que isso agora? ​— Nada não... — Ela soltou minha mão e caminhou apressada em direção ao banheiro do quarto. ​Travei o maxilar. Era óbvio. Minhas lesões passadas tinham vindo à tona. O médico deve ter visto o que os anos não conseguiram apagar. Droga, eu estava ferrada. O que eu ia dizer se alguém me perguntasse? Que eu fui uma adolescente maluca que apanhou de homem por ser i****a? Que eu confiei em quem não devia? ​Minha vida não podia desmoronar. Não agora. Não por causa dele. O Doruk não tinha culpa dos erros da mãe. Só de pensar, meu coração disparou contra o peito. Me virei para o lado, sentindo uma lágrima quente escorrer e sumir no lençol áspero do hospital. ​A porta se abriu e uma enfermeira sorridente entrou, quebrando o silêncio pesado. ​— Keila? Um exame saiu alterado, preciso coletar mais sangue. ​— Tá bom — respondi, automática. ​Ela preparou os instrumentos, segurou meu braço com firmeza e deu pequenas batidinhas até encontrar a veia. Enquanto a agulha furava minha pele e o sangue escuro preenchia o frasco, meus pensamentos voavam para longe. Eu nem senti a picada. A dor por dentro era tão maior que qualquer agulha parecia um carinho.
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