Remendos do Passado

526 Words
Bianca: ​Menti para a Keila que ia descansar, mas o sono era a última coisa na minha mente. Eu precisava de respostas. O Neco estava tramando algo, o Tonho também, e eu me sentia uma estrangeira dentro da minha própria família. Dirigi até o condomínio sentindo o peso do silêncio deles. ​Na catraca, digitei a senha com pressa. Parei o carro diante da casa da minha mãe e, antes mesmo de tocar a campainha, ela apareceu na porta. Tinha aquele olhar de quem já previa a minha visita. ​— Quem é vivo sempre aparece, né, mãe? — falei, tentando quebrar o gelo enquanto me adiantava. ​Ela apenas soltou um riso seco e fez sinal para eu entrar. ​— Tá com fome, filha? ​— Não, Dona Olga. Só passei para ver o Thomas. ​O nome dele saiu da minha boca como um teste. Queria ver a reação dela eu nunca chamava ele asim sempre era mano o neco ​— Aconteceu algo com teu irmão? — ela perguntou, mas os olhos dela entregavam uma preocupação antiga. ​— Mãe, ele está jogando um jogo que eu ainda não entendi. Lembra daquela minha amiga, a que eu disse que é como uma irmã para mim? A Keila? ​Minha mãe mudou a postura na hora. O olhar dela ficou estranho, uma mistura de alerta e pena. ​— O que tem a ver essa garota com o meu filho, Bianca? ​— Mãe, o Neco é o mais inteligente de nós, por isso virou advogado. Mas ele pode perder tudo por estar atrás dessa mulher. Ele está obcecado. ​— Bianca, olha o que tu fala... Ele não... — Ela parou no meio da frase e soltou um suspiro pesado, desviando os olhos. ​Aquele silêncio me confirmou tudo. ​— Mãe, a senhora sabe de algo que eu não sei. Fala logo! O Tonho não vai me contar nada e eu sou amiga da garota. Como eu vou esconder que meu irmão está tentando dar uma de super-herói para cima dela? ​Minha mãe me encarou com uma seriedade que me fez murchar. ​— Bianca, não te mete. Deixa ele. O Neco só está tentando remendar o passado. ​Minha espinha gelou. "Remendar o passado" não é frase de quem fez algo bom. ​— Espera aí... Então ele não é o herói dessa história? Ele é o vilão? O que ele fez com ela, mãe? ​Dona Olga não respondeu. Ela simplesmente caminhou até a mesa e cortou uma fatia generosa de bolo ​— Bianca, come um pedaço de bolo. Olha, fiz especialmente para você. ​Ela tentou mudar de assunto, mas o gosto do bolo era de segredo. Eu olhei para a minha mãe e percebi que, naquela casa, a verdade era uma mercadoria cara demais para ser entregue de graça. O Neco não estava protegendo a Keila do mundo; ele estava tentando se proteger do que ele mesmo causou. Mas eu vi a forma dele. Era de alguém que não a machucaria. A confusão tomou conta da minha cabeça, com mais perguntas do que respostas.
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