Bianca:
Menti para a Keila que ia descansar, mas o sono era a última coisa na minha mente. Eu precisava de respostas. O Neco estava tramando algo, o Tonho também, e eu me sentia uma estrangeira dentro da minha própria família. Dirigi até o condomínio sentindo o peso do silêncio deles.
Na catraca, digitei a senha com pressa. Parei o carro diante da casa da minha mãe e, antes mesmo de tocar a campainha, ela apareceu na porta. Tinha aquele olhar de quem já previa a minha visita.
— Quem é vivo sempre aparece, né, mãe? — falei, tentando quebrar o gelo enquanto me adiantava.
Ela apenas soltou um riso seco e fez sinal para eu entrar.
— Tá com fome, filha?
— Não, Dona Olga. Só passei para ver o Thomas.
O nome dele saiu da minha boca como um teste. Queria ver a reação dela eu nunca chamava ele asim sempre era mano o neco
— Aconteceu algo com teu irmão? — ela perguntou, mas os olhos dela entregavam uma preocupação antiga.
— Mãe, ele está jogando um jogo que eu ainda não entendi. Lembra daquela minha amiga, a que eu disse que é como uma irmã para mim? A Keila?
Minha mãe mudou a postura na hora. O olhar dela ficou estranho, uma mistura de alerta e pena.
— O que tem a ver essa garota com o meu filho, Bianca?
— Mãe, o Neco é o mais inteligente de nós, por isso virou advogado. Mas ele pode perder tudo por estar atrás dessa mulher. Ele está obcecado.
— Bianca, olha o que tu fala... Ele não... — Ela parou no meio da frase e soltou um suspiro pesado, desviando os olhos.
Aquele silêncio me confirmou tudo.
— Mãe, a senhora sabe de algo que eu não sei. Fala logo! O Tonho não vai me contar nada e eu sou amiga da garota. Como eu vou esconder que meu irmão está tentando dar uma de super-herói para cima dela?
Minha mãe me encarou com uma seriedade que me fez murchar.
— Bianca, não te mete. Deixa ele. O Neco só está tentando remendar o passado.
Minha espinha gelou. "Remendar o passado" não é frase de quem fez algo bom.
— Espera aí... Então ele não é o herói dessa história? Ele é o vilão? O que ele fez com ela, mãe?
Dona Olga não respondeu. Ela simplesmente caminhou até a mesa e cortou uma fatia generosa de bolo
— Bianca, come um pedaço de bolo. Olha, fiz especialmente para você.
Ela tentou mudar de assunto, mas o gosto do bolo era de segredo. Eu olhei para a minha mãe e percebi que, naquela casa, a verdade era uma mercadoria cara demais para ser entregue de graça. O Neco não estava protegendo a Keila do mundo; ele estava tentando se proteger do que ele mesmo causou.
Mas eu vi a forma dele. Era de alguém que não a machucaria. A confusão tomou conta da minha cabeça, com mais perguntas do que respostas.