Keila:
A comida do hospital é um castigo à parte. Olhei para a carne cortada em pedaços, pálida e sem um grão de sal, e minha mente voou para longe. Eu só conseguia pensar no Doruk. Estava sozinha naquele quarto; a Bia tinha ido descansar e a Ísis estava segurando as pontas com o pequeno, mas o silêncio daquelas paredes brancas me esmagava.
Achei estranho ninguém ter vindo me questionar sobre as lesões antigas. O médico passou, olhou o prontuário e não disse nada. Agradeci a Deus em silêncio; eu não teria forças para inventar uma mentira convincente agora.
A porta se abriu com um estalo baixo.
Ergui o olhar e meu coração deu um solavanco. Olhos frios, pretos como a noite, me encararam. Reconheci aquele olhar na mesma hora. Era o homem do tênis de novecentos reais.
— Desculpe, errei de quarto — ele disse, a voz grave ecoando no ambiente pequeno.
Fiquei muda por um segundo, sustentando o olhar dele. Ele não desviou. Pelo contrário, estreitou os olhos como se estivesse forçando a memória.
— Eu te conheço? — ele perguntou, dando um passo discreto para dentro.
— Ah... deve ser da loja. Eu trabalho lá — respondi, tentando manter a voz firme apesar do pijama de hospital. — Você comprou um tênis de corrida
— Ah, é mesmo. — Um brilho de reconhecimento cruzou o rosto dele, mas ele não sorriu. — Minha mãe está internada aqui, mas errei o número da porta. Melhoras para você.
— Obrigada — murmurei.
Ele fez menção de sair, mas parou com a mão na maçaneta. Girou o corpo devagar, me avaliando de um jeito que me fez esquecer da carne insossa no prato.
— Eu sou Thomas. E você?
— Keila — respondi, e um sorriso leve, quase involuntário, surgiu nos meus lábios.
— Prazer em te conhecer, Keila.
Ele saiu, fechando a porta com cuidado. Fiquei olhando para a madeira por um longo tempo, sentindo o eco do nome dele na minha cabeça. Thomas. O destino tinha acabado de me pregar uma peça, e pela primeira vez em dias, não era uma peça r**m. Sorri sozinha, mordendo um pedaço daquela carne sem gosto, sentindo que o dia tinha acabado de ganhar um tempero inesperado...
Terminei de comer e peguei meu celular. Busquei nas redes sociais por Thomas, mas havia um monte de nomes e nenhum era ele. Bufei, frustrada. Era um desconhecido que eu queria conhecer.
A porta se abriu de novo. Olhei, achando que fosse ele, mas não era — era a enfermeira trazendo mais soro e remédio. Talvez fosse só para ser um “oi” e um “adeus”, pensei, enquanto via a enfermeira repondo o soro