Keila:
Fui levada para fazer uma ecografia e uma radiografia às pressas. O exame apontava uma infecção... Eu entrei em choque. "Quem procura, acha", já dizia minha finada mãe. Droga, eu precisava sair daquele hospital. O Doruk precisava de mim. Eu sussurrava o nome dele, sentada na cadeira de rodas, esperando que a enfermeira me levasse de volta para o quarto.
Do nada, ele apareceu.
Thomas estava de terno e gravata, a voz rouca, os cabelos pretos impecáveis. Notei um anel preto no dedo dele enquanto ele passava a mão pelo cabelo, mas foram os olhos dele que me deixaram boba mais uma vez.
— Keila? Tá esperando quem?
— A enfermeira — sorri de leve, tentando disfarçar o abatimento.
— Ah.
— E você? Está com a sua mãe? — perguntei.
— Sim — ele respondeu, curto, sem dar muita importância ao assunto.
Ele me olhava com uma intensidade que parecia ler meus segredos. Meu celular vibrou no colo. Olhei a tela: era a Ísis mandando uma foto do Doruk com o rosto todo sujo de sorvete de chocolate. Meu coração esquentou e, no segundo seguinte, apertou até doer. Eu estava falhando como mãe. Eu deveria estar lá, limpando aquele chocolate, e não presa em uma cadeira de rodas.
— Keila?
— Oi... desculpa. Eu estava na lua.
— Percebi. Bom, vou indo. Boa sorte — ele disse, já se afastando.
— Obrigada — respondi, vendo-o sumir pelo corredor.
A enfermeira chegou logo em seguida e começou a empurrar a cadeira. O barulho das rodas no piso frio daquele corredor comprido ecoou de um jeito estranho. Um calafrio subiu pela minha espinha e, como um soco, a lembrança que eu tanto lutava para enterrar voltou com tudo.
"Tu não tem voz aqui, sua p**a!" — ele gritava. O som do martelo batendo na mesa... e depois em mim. O grito ficou preso na garganta. Meus dedos latejavam, minha alma parecia estar saindo do corpo. Ele dizia que eu só estava viva por causa da criança. Só por causa do bebê.
— Keila? Keila!
Dei um solavanco. O corredor do hospital voltou a aparecer na minha frente.
— Acorda, garota!
— Bianca! — exclamei, me jogando nos braços dela assim que chegamos ao quarto.
A enfermeira me olhou de canto, sem entender nada. Eu tremia tanto que os dentes batiam.
— O que foi? Tu tá tremendo, amiga! — Bianca me apertava, preocupada.
— Nada não... — menti, tentando respirar.
Mas o cheiro do hospital agora tinha gosto de ferro. O passado não estava mais enterrado; ele estava subindo as escadas atrás de mim.
— Bia, respira… calma — ela murmurou, mas a voz dela parecia vir de outro planeta.
— Eu tô calma — rebati, embora minha voz estivesse trêmula e eu m*l conseguisse me ajeitar naquela maca desconfortável.
A Bia me encarava com aquela cara de quem queria ajudar, mas não sabia se me abraçava ou se saía correndo dali. O silêncio no quarto só foi quebrado pelo barulho da porta. A enfermeira surgiu do nada — eu nem tinha registrado que ela tinha saído — segurando uma seringa que parecia maior do que a minha paciência.
Ela injetou o líquido no meu acesso sem dizer uma palavra. Senti o gelado percorrer minha veia e, em questão de segundos, o mundo começou a girar mais devagar. Meus olhos pesaram, a luz do teto ficou embaçada e a última coisa que vi foi o vulto da Bia antes de tudo apagar de vez.