O Peso do Silêncio

503 Words
​Acordei, mas não sei quanto tempo tinha passado. A primeira coisa que senti foi uma luz branca, agressiva, que queimava minhas pálpebras e me impedia de abrir os olhos. Eu tentava me mexer, mas era como se meu corpo tivesse sido substituído por chumbo. Eu ouvia os sons, sentia o toque, mas não conseguia nem mesmo apertar a mão de quem segurava a minha. ​Havia alguém ali. Uma presença constante ao meu lado. ​Logo, ouvi o barulho da porta se abrindo e uma voz que eu reconheceria em qualquer lugar. Era a Bianca. ​— O que houve com ela? — A voz da Bia estava carregada de uma preocupação que eu raramente ouvia. ​— O médico disse que o estresse e a anemia fizeram grandes estragos no corpo dela — uma voz masculina respondeu. — Ela está em estado de exaustão profunda. ​— Meu Deus... — sussurrou a Bia. ​Eu tentava gritar, tentava dizer que estava ouvindo, que precisava saber do Doruk, mas minha garganta estava seca, bloqueada. Quem era aquele homem falando com a Bianca? A voz dele era firme, calma, mas eu não conseguia ligar o som a nenhum rosto na minha memória borrada. ​Era uma tortura estar ali, consciente e presa, sentindo o peso do meu próprio cansaço me esmagando contra o colchão. O que seria de nós agora? Onde estaria meu filho? O vazio da minha impotência doía mais do que a própria anemia. Não sei quanto tempo se passou desde que os sons começaram a entrar na minha mente como ecos num corredor vazio. Eu me sentia acordada, mas o meu corpo era uma estátua de gelo. Nada obedecia. ​A Bianca continuava ali, conversando com aquela voz sem rosto. O que estava me enlouquecendo era a i********e com que ela falava com ele. Ninguém tinha esse tipo de acesso à minha vida, ninguém entrava no meu círculo assim. Quem era ele para estar ali, decidindo o que aconteceria comigo? ​Ouvi passos firmes, pesados, que pareciam fazer o chão vibrar de leve perto da minha cama. ​— Doutor, ela vai acordar? — a voz perguntou. Era uma voz autoritária, mas carregada de uma nota de urgência que eu não conseguia decifrar. ​— Agora eu vou aplicar um soro com vitaminas — o médico respondeu, o som do vidro batendo no metal ecoando no quarto. — Amanhã ela vai estar melhor. Mas ela precisa de repouso absoluto. Ela não pode sofrer mais estresses. ​Escutar aquilo me deixou confusa. "Não sofrer mais estresse"? Como, se a minha vida era um campo de batalha desde que eu abria os olhos até a hora de fechar? Eu queria rir, queria protestar, queria perguntar pelo Doruk, mas o cansaço era um oceano n***o me puxando de volta para o fundo. ​Em poucos minutos, o calor do soro entrando nas minhas veias pareceu desligar os últimos fios de consciência que eu ainda segurava. Apaguei de vez, mergulhando num sono sem sonhos.
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