Segredos de Sangue

537 Words
Bianca: ​O visor do celular brilhou. Era o Tonho: "Bia, vai na UPA. A Keila tá lá". ​Meu coração deu um pulo que quase saiu pela boca. Saí de casa m*l trancando a porta, já chamando um Uber enquanto corria ladeira abaixo. No banco de trás do carro, minha mente era um turbilhão. O Tonho é o sub do morro, mas a gente mantém um perfil baixo; não gostamos de chamar atenção. Graças ao "corre" dele, nossa família lá fora vive bem, mas eu escolhi ficar com ele porque sempre fomos grudados. ​As pessoas acham que somos só nós dois, mas temos outro irmão: o Neco. Chamo ele assim desde pequena. Ele virou advogado, o orgulho da nossa mãe, renomado no meio criminal. Ele defende o Chefe do morro e todos os crias; quando alguém cai, é ele quem aparece. ​Ao chegar na UPA, paguei a corrida no Pix e entrei desesperada. ​— Aqui deu entrada uma moça chamada Keila Sousa? — perguntei na recepção, sem fôlego. ​A mulher digitou sem nem me olhar. — É familiar? ​— Sou como irmã dela — respondi, impaciente. ​— Quarto número 4. Só pode entrar um por vez. ​Achei estranho. Se só podia um por vez, quem estava lá dentro? O Tonho? Não, o Tonho estava na boca hoje. Mas como ele soube dela? Apertei o passo pelo corredor. Tinha algo que não batia. Quando abri a porta, o choque me paralisou por alguns segundos. ​A Keila estava deitada, pálida sob o lençol. E, para minha total surpresa, o Neco estava lá, com a mão em cima da dela. ​— O que aconteceu? — sussurrei. ​Ele me explicou tudo, o tom de voz controlado, mas os olhos... os olhos diziam outra coisa. Me senti tão culpada. Uma lágrima caiu ao ver a Keila daquele jeito. Ela é tão forte, tão lutadora, mas ali parecia de vidro. O médico entrou e mandou a gente sair. ​Assim que pisamos no corredor, eu explodi. Olhei firme para ele. ​— Neco, que c*****o tu tem a ver com isso? — cuspi as palavras. ​Ele segurou meu braço com força, o rosto endurecido. — Você não vai falar nada para ela. Curto e grosso, Bia. Nada. ​Pisquei, sem entender. — Mas... ​— Mas nada! ​— Tu achou ela? ​— Sim, Bia. Eu trouxe. Mas não quero me envolver — ele disse, mas os olhos frios dele carregavam uma dor que eu nunca tinha visto. O Neco sempre foi o menos sociável de nós, o mais frio, mas eu sabia que ele tinha coração. ​— Eu vou ficar aqui — avisei. ​— E o filho dela? — Ele soltou a pergunta antes de perceber que estava entregando que sabia demais para "alguém que não queria se envolver". ​Estreitei os olhos. Ele sabia do Doruk? ​— Tá com a Ísis. Vou avisar. Lembra dela, né? ​— Ah, sim. A meia maluca? — Ele deu um esboço de sorriso. ​— Essa mesma. ​— Tá. Tô indo. Me avisa se precisar de algo. ​— Tá bom, irmão. Manda beijos para a mamãe.
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