Bianca:
O visor do celular brilhou. Era o Tonho: "Bia, vai na UPA. A Keila tá lá".
Meu coração deu um pulo que quase saiu pela boca. Saí de casa m*l trancando a porta, já chamando um Uber enquanto corria ladeira abaixo. No banco de trás do carro, minha mente era um turbilhão. O Tonho é o sub do morro, mas a gente mantém um perfil baixo; não gostamos de chamar atenção. Graças ao "corre" dele, nossa família lá fora vive bem, mas eu escolhi ficar com ele porque sempre fomos grudados.
As pessoas acham que somos só nós dois, mas temos outro irmão: o Neco. Chamo ele assim desde pequena. Ele virou advogado, o orgulho da nossa mãe, renomado no meio criminal. Ele defende o Chefe do morro e todos os crias; quando alguém cai, é ele quem aparece.
Ao chegar na UPA, paguei a corrida no Pix e entrei desesperada.
— Aqui deu entrada uma moça chamada Keila Sousa? — perguntei na recepção, sem fôlego.
A mulher digitou sem nem me olhar.
— É familiar?
— Sou como irmã dela — respondi, impaciente.
— Quarto número 4. Só pode entrar um por vez.
Achei estranho. Se só podia um por vez, quem estava lá dentro? O Tonho? Não, o Tonho estava na boca hoje. Mas como ele soube dela? Apertei o passo pelo corredor. Tinha algo que não batia. Quando abri a porta, o choque me paralisou por alguns segundos.
A Keila estava deitada, pálida sob o lençol. E, para minha total surpresa, o Neco estava lá, com a mão em cima da dela.
— O que aconteceu? — sussurrei.
Ele me explicou tudo, o tom de voz controlado, mas os olhos... os olhos diziam outra coisa. Me senti tão culpada. Uma lágrima caiu ao ver a Keila daquele jeito. Ela é tão forte, tão lutadora, mas ali parecia de vidro. O médico entrou e mandou a gente sair.
Assim que pisamos no corredor, eu explodi. Olhei firme para ele.
— Neco, que c*****o tu tem a ver com isso? — cuspi as palavras.
Ele segurou meu braço com força, o rosto endurecido.
— Você não vai falar nada para ela. Curto e grosso, Bia. Nada.
Pisquei, sem entender.
— Mas...
— Mas nada!
— Tu achou ela?
— Sim, Bia. Eu trouxe. Mas não quero me envolver — ele disse, mas os olhos frios dele carregavam uma dor que eu nunca tinha visto. O Neco sempre foi o menos sociável de nós, o mais frio, mas eu sabia que ele tinha coração.
— Eu vou ficar aqui — avisei.
— E o filho dela? — Ele soltou a pergunta antes de perceber que estava entregando que sabia demais para "alguém que não queria se envolver".
Estreitei os olhos. Ele sabia do Doruk?
— Tá com a Ísis. Vou avisar. Lembra dela, né?
— Ah, sim. A meia maluca? — Ele deu um esboço de sorriso.
— Essa mesma.
— Tá. Tô indo. Me avisa se precisar de algo.
— Tá bom, irmão. Manda beijos para a mamãe.