O Ponto de Ruptura

626 Words
Passei a noite inteira chorando. Na manhã seguinte, acordei tarde; não por querer, mas por pura exaustão física e mental. Parecia que o Doruk sabia, porque ficou quietinho do meu lado, me observando com aqueles olhos grandes. Meu bebê, de apenas dois aninhos, já tendo que aprender a ler o silêncio do meu sofrimento. Não era justo. ​Levantei às dez da manhã, sentindo o corpo pesado como se carregasse pedras. Fiz o leite dele e o meu café com o que sobrou de ontem. Quando bateram na porta, eu estava desarrumada, com a cara inchada de quem não via saída. Era a Ísis. ​— Meu Deus, pensei que tava morta! O que foi, c*****o? Me dá água, essas escadas matam a gente, sabia? ​— Me demitiram. Pega a água na geladeira — falei, encostada na pia, tomando o café amargo sem esboçar nenhuma reação. Eu estava anestesiada. O Doruk correu e abraçou a Ísis forte; ele sentia tudo. ​— Não acredito. Por ter faltado ontem? ​— Sim. E já tinha faltado outras vezes esse mês, lembra? ​— É, mas eles têm que entender, esses filhos da... — Ela tapou a própria boca, lembrando que o Doruk estava ali, rindo e brincando na cama. ​— Tô ferrada, Ísis. Ferrada. O que eu vou fazer? — Falei, olhando para um ponto cego na parede. — Ainda tenho que ir lá pegar a merreca do mês e assinar a demissão. ​— É merreca, mas é teu. Vai lá. Eu cuido dele aqui embaixo mesmo, não subo essas escadas de novo nem que me paguem... Deus é mais, amiga. Por isso tu é magra desse jeito. ​Quase sorri, mas a dor era maior. Entrei no banheiro, lavei o rosto e os dentes. Peguei um short curto surrado, uma blusa ciganinha e enfiei o celular na bolsa. Calcei as Havaianas e prendi o cabelo num r**o de cavalo. Eu estava derrotada e não tinha forças para fingir o contrário. Beijei o Doruk e desci as escadas. Elas pareciam mil vezes mais longas hoje. Eu mordia o lábio para não chorar no caminho. Encontrei a Bia no beco. ​— Que foi? ​— Me demitiram. ​— Não acredito, Keila! ​— Pois acredita. Tô indo lá assinar os papéis. ​— Calma, amiga. Vamos sair dessa... ​— Não sei como, mas vou — respondi, quase sem acreditar nas minhas próprias palavras. ​Caminhei rápido antes que as lágrimas vencessem de novo. Esperei o ônibus por quinze minutos, paguei a passagem e me sentei. O caminho nunca pareceu tão longo. Desci no ponto de sempre e entrei pelos fundos da loja. Fui direto ao escritório do gerente e bati na porta. ​— Entre. ​Abri a porta com a cara fria. Eu não daria a eles o prazer de me verem desmoronar. ​— Lamentamos, Keila... — ele começou, com aquela voz burocrática. ​— Me poupe. Onde eu assino? ​Ele me olhou surpreso. A Keila dócil e servil tinha sumido. Ele me estendeu o papel e a caneta. Assinei com a mão firme. Ele abriu a gaveta, tirou três notas de duzentos reais e me entregou. Seiscentos reais. O preço de sete meses da minha vida. ​Saí da sala quase correndo. O ar-condicionado da loja parecia me sufocar. Assim que pisei na calçada, o calor da rua me atingiu como um soco. Caminhei até um banco e sentei, levando a mão ao peito. O ar começou a faltar. Meu coração batia descompassado e a visão começou a ficar borrosa, as cores se misturando. ​— Você está bem? ​Escutei uma voz distante, mas já não conseguia focar em nada. O mundo girou e eu simplesmente apaguei.
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