Depois de vencer a subida e encarar três lances de escadarias que pareciam não ter fim, finalmente ouvi o som da chave girando na fechadura. Meu palácio media poucos metros quadrados e custava quatrocentos reais por mês. Tinha um banheiro apertado e uma pia pequena embutida logo ao lado da nossa cama — a cama que eu compartilhava com o Doruk. Não existia luxo ali, mas existia uma paz que a loja de elite nunca me daria. Ali, a gente era feliz do nosso jeito.
Entrei e fui direto me livrando daquela armadura de vendedora. Enquanto o Doruk corria para bagunçar sua caixa de brinquedos, eu me desfazia da roupa apertada e do sutiã que incomodava. Coloquei um short confortável e uma blusa tomara que caia. Ajustei minha touca de cetim no cabelo e, naquele instante, a funcionária de sorriso falso morreu. Ali nascia a Keila: mãe, pai, faxineira e cozinheira.
Abri o congelador e encarei a realidade: um pouco de guisado velho. Meus olhos já calculavam a mágica necessária para fazer aquilo render mais três dias. Coloquei o feijão preto no fogo, o som da pressão começando a ditar o ritmo da noite.
Enquanto a água esquentava, minha cabeça já estava no próximo passo: a roupa que deixei estendida na laje da Bianca. Aqui embaixo, perto de casa, o sol não chegava. O valão sujo que passava ao lado trazia uma umidade que tomava conta de tudo e não deixava nada secar, mas era o que o meu dinheiro podia pagar.
De repente, o som de um funk vindo do vizinho invadiu o quartinho. O Doruk, alheio a qualquer preocupação com aluguel ou comida contada, começou a sacudir o corpo.
— Mamãe, dança! — ele pediu, se mexendo igual uma lombriguinha no asfalto, com toda a energia do mundo.
O cansaço que pesava nos meus ombros pareceu evaporar por um segundo. Olhei para ele, para aquele sorriso banguela e genuíno, e comecei a dançar junto. No fim do dia, entre o cheiro do feijão e o barulho do morro, era por ele que eu resistia. Era ele que me mantinha inteira.