A noite caiu trazendo um misto de esperança. O silêncio do meu celular durante o dia todo era, para mim, uma vitória. Eu pensava: "Se não recebi mensagem da loja até agora, é porque entenderam o que aconteceu. Não fui demitida". Subi as escadas com o coração um pouco mais leve, ainda sentindo o perfume que passei para ir à praça.
Mas foi só colocar os pés dentro de casa que o meu mundo desmoronou.
A luz da tela do celular brilhou no escuro do quarto, iluminando uma mensagem simples, fria e direta: "Keila, lamentamos informar que, devido às ausências, prescindimos dos seus serviços. Favor comparecer para a baixa na carteira."
Eu não aguentei. As pernas falharam e eu me sentei no chão, encostada na pia. Chorei. Não era um choro contido, era um pranto desesperado, daqueles que rasgam o peito. Sete meses. Sete meses dando a minha vida por aquele emprego, aguentando desaforo de cliente rica, pisando em calos latejantes, sorrindo quando queria gritar. E tudo foi destruído em um dia só, por algo que eu não tive culpa.
O Doruk, sem entender nada, largou o carrinho vermelho e veio até mim. Ele rodeou meu pescoço com os bracinhos pequenos, o rosto encostado no meu ombro molhado de lágrimas.
— Calma, mamãe... calma — ele repetia, com aquela vozinha doce que costumava me salvar de tudo.
Mas, daquela vez, eu não conseguia me controlar. O desespero de não saber como pagaria os próximos quatrocentos reais de aluguel, ou como compraria o próximo pacote de fraldas, era maior do que qualquer consolo. Eu estava sozinha, sem emprego e com um filho no colo no meio de uma favela sitiada.
O vestido vermelho, que horas antes me fazia sentir poderosa, agora parecia um deboche. A realidade tinha voltado para cobrar o preço, e ela era c***l demais.