Bianca:
— Senhora, boa tarde. Sou o médico Mendoza. Me acompanhe, por favor, até a minha sala.
O médico surgiu do nada, me arrancando dos meus pensamentos. Olhei para a Keila; ela ainda dormia, pálida e suada, parecendo tão frágil naquela cama. Fui atrás dele com o estômago embrulhado. Entrei na pequena sala sentindo um medo que não sabia explicar.
Ele se sentou atrás da mesa e me encarou de um jeito sério demais.
— A senhorita é familiar da paciente?
Minha espinha gelou.
— Eu sou como irmã dela.
— Entendo. Mas a família de sangue?
— Ela não tem mais ninguém — respondi, hesitante.
— Pode sentar, senhorita — ele disse, fazendo um sinal com a mão. Me sentei como um saco de batatas, o corpo pesado. — O que houve, doutor? Fala de uma vez.
— A paciente tem filhos?
Ergui a sobrancelha, sem entender onde ele queria chegar.
— Sim, um. Por quê?
— Onde ela deu à luz?
Encarei o médico, perdendo a pouca paciência que me restava.
— Não sei, doutor. Na época a gente tinha brigado, ficamos um tempo sem se falar. Mas o que isso tem a ver com agora?
— Ela apresenta evidências de múltiplas fraturas antigas e um possível parto forçado.
Aquilo gelou meu sangue. Eu sabia que a vida da Keila tinha sido difícil, mas fraturas? Parto forçado?
— Como assim, doutor? Não entendo. O menino tá bem, tem dois anos e pouco...
— Isso só afirma o que eu suspeito. Ela passou por um parto traumático, possivelmente clandestino, e nunca recebeu o cuidado devido. O corpo dela está cobrando a conta agora. Em outras palavras: ela teve esse filho em casa ou em algum lugar sem assistência, e as fraturas nas costelas e no quadril são velhas. Eu teria que informar as autoridades.
— Não! Por favor, doutor! — Me desesperei. — Espera ela acordar, deixa ela resolver... eu não posso deixar a polícia se meter nisso agora.
— Entendo. Mas eu só posso dar o prazo de até amanhã.
Saí da sala flutuando. Que inferno estava acontecendo? A Keila sumiu, sim, por um tempo quando a mãe a expulsou de casa, mas o que aconteceu nesse intervalo?
— Bianca?
Uma voz grossa me chamou. Me virei e dei de cara com o Neco.
— O que foi essa cara, Bi? — ele perguntou, se aproximando.
— O que tu faz aqui de novo?
— Trouxe a roupa que pediram... — Ele estava lá, de terno e gravata, todo posturado. Meu irmão advogado, o orgulho da família. O que ele tinha a ver com a Keila?
— Neco, me fala a verdade: o que tu tem com ela?
— Nada que seja da tua conta. E não quero que ela saiba que eu estive aqui.
— Neco, o caso é grave! — explodi. Ele estreitou os olhos, me fixando. — Vão chamar a polícia. O médico descobriu as fraturas e o parto. Não tem registro de nada.
Vi meu irmão passar a mão no rosto, travando a mandíbula. Ele começou a balançar a cabeça, os olhos escurecidos como eu nunca tinha visto antes.
— Neco... não me assusta. Tu tá sabendo de algo?
— Não. Eu que saberia? — Ele respondeu rápido demais.
— Quem é o pai do Doruk, Neco?
— E eu que sei? — Ele me encarou sério, olhou o relógio e cortou o assunto. — Tenho que ir. Escuta: não fala disso pra mais ninguém.
— Por que, Neco?
Eu chamei, mas foi em vão. Ele saiu apressado, quase correndo pelo corredor da UPA.
— c*****o, Keila... — sussurrei para o nada.
Entrei no quarto dela de novo. Vi ela ali, deitada, alheia a todo esse caos que estava estourando ao redor dela. "Tu vai ter que me falar umas verdades", pensei, me jogando na poltrona. Pensei que éramos como irmãs, mas o tamanho do segredo que ela carregava me fez sentir uma estranha.