Cicatrizes Invisíveis

696 Words
Bianca: ​— Senhora, boa tarde. Sou o médico Mendoza. Me acompanhe, por favor, até a minha sala. ​O médico surgiu do nada, me arrancando dos meus pensamentos. Olhei para a Keila; ela ainda dormia, pálida e suada, parecendo tão frágil naquela cama. Fui atrás dele com o estômago embrulhado. Entrei na pequena sala sentindo um medo que não sabia explicar. ​Ele se sentou atrás da mesa e me encarou de um jeito sério demais. ​— A senhorita é familiar da paciente? ​Minha espinha gelou. — Eu sou como irmã dela. ​— Entendo. Mas a família de sangue? ​— Ela não tem mais ninguém — respondi, hesitante. ​— Pode sentar, senhorita — ele disse, fazendo um sinal com a mão. Me sentei como um saco de batatas, o corpo pesado. — O que houve, doutor? Fala de uma vez. ​— A paciente tem filhos? ​Ergui a sobrancelha, sem entender onde ele queria chegar. — Sim, um. Por quê? ​— Onde ela deu à luz? ​Encarei o médico, perdendo a pouca paciência que me restava. — Não sei, doutor. Na época a gente tinha brigado, ficamos um tempo sem se falar. Mas o que isso tem a ver com agora? ​— Ela apresenta evidências de múltiplas fraturas antigas e um possível parto forçado. ​Aquilo gelou meu sangue. Eu sabia que a vida da Keila tinha sido difícil, mas fraturas? Parto forçado? ​— Como assim, doutor? Não entendo. O menino tá bem, tem dois anos e pouco... ​— Isso só afirma o que eu suspeito. Ela passou por um parto traumático, possivelmente clandestino, e nunca recebeu o cuidado devido. O corpo dela está cobrando a conta agora. Em outras palavras: ela teve esse filho em casa ou em algum lugar sem assistência, e as fraturas nas costelas e no quadril são velhas. Eu teria que informar as autoridades. ​— Não! Por favor, doutor! — Me desesperei. — Espera ela acordar, deixa ela resolver... eu não posso deixar a polícia se meter nisso agora. ​— Entendo. Mas eu só posso dar o prazo de até amanhã. ​Saí da sala flutuando. Que inferno estava acontecendo? A Keila sumiu, sim, por um tempo quando a mãe a expulsou de casa, mas o que aconteceu nesse intervalo? ​— Bianca? ​Uma voz grossa me chamou. Me virei e dei de cara com o Neco. ​— O que foi essa cara, Bi? — ele perguntou, se aproximando. ​— O que tu faz aqui de novo? ​— Trouxe a roupa que pediram... — Ele estava lá, de terno e gravata, todo posturado. Meu irmão advogado, o orgulho da família. O que ele tinha a ver com a Keila? ​— Neco, me fala a verdade: o que tu tem com ela? ​— Nada que seja da tua conta. E não quero que ela saiba que eu estive aqui. ​— Neco, o caso é grave! — explodi. Ele estreitou os olhos, me fixando. — Vão chamar a polícia. O médico descobriu as fraturas e o parto. Não tem registro de nada. ​Vi meu irmão passar a mão no rosto, travando a mandíbula. Ele começou a balançar a cabeça, os olhos escurecidos como eu nunca tinha visto antes. ​— Neco... não me assusta. Tu tá sabendo de algo? ​— Não. Eu que saberia? — Ele respondeu rápido demais. ​— Quem é o pai do Doruk, Neco? ​— E eu que sei? — Ele me encarou sério, olhou o relógio e cortou o assunto. — Tenho que ir. Escuta: não fala disso pra mais ninguém. ​— Por que, Neco? ​Eu chamei, mas foi em vão. Ele saiu apressado, quase correndo pelo corredor da UPA. ​— c*****o, Keila... — sussurrei para o nada. ​Entrei no quarto dela de novo. Vi ela ali, deitada, alheia a todo esse caos que estava estourando ao redor dela. "Tu vai ter que me falar umas verdades", pensei, me jogando na poltrona. Pensei que éramos como irmãs, mas o tamanho do segredo que ela carregava me fez sentir uma estranha.
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