O Que as Gavetas Escondem

644 Words
Isis: ​O celular vibrou em cima da cama e eu atendi no primeiro toque. Era a Bianca. ​— Oie! ​— Oi, Ísis — a voz dela era um sussurro do outro lado. ​— Bia, por que tá sussurrando, mulher? ​— A Keila tá dormindo, ela tem que descansar. ​— Ah, entendi. E o Doruk, coitadinho, só chaminga e aponta para a porta. Coração de mãe não se engana, né? ​— Ah, mimoso... Ísis, faz o seguinte: monta uma mala com uns trapos da Keila. Ela vai ter que ficar pelo menos uns três dias aqui internada. ​— Sério? Bah... O Doruk vai sentir. ​— É. Dá a mala para o Tonho e vai lá na tua casa. Não fica na dela não. Na tua, pelo menos, você vê gente. ​— Tá certo. ​Desliguei e olhei para o Doruk, tão pequeno e já passando por tanto. Suspirei e abri o guarda-roupa da Keila. Meu Deus, que bagunça sem fim! Comecei a separar umas três blusas, short de moletom e... as calcinhas. ​— Vamos ver... essa safada! Só fio dental, olha isso! — Peguei uma com a ponta dos dedos e ri sozinha. — E depois ela fala que não "dá o r**o", sei... — Ri de mim mesma, pensando que a única que ia acabar solteirona e cheia de gatos era eu. ​Abri o gaveteiro do Doruk, coloquei mais roupas e fraldas. Fui no banheiro, peguei os produtos de higiene e joguei tudo numa sacola. Estava pronta. ​— Mamãe! — o Doruk gritou, começando a chorar. ​— Ô, meu bebê... — Fui pegar ele no colo. — Calma, tá? A mamãe vem logo. ​Ele começou a se debater e jogou a chupeta longe, direto para debaixo da cama. ​— Menino, modos, hein, meu lindo? Vamos sair, a dinda vai comprar presente! ​Me abaixei para buscar a chupeta. Tateei o chão escuro e senti algo sólido. Puxei para fora e dei de cara com uma caixa de madeira. A curiosidade foi maior que a pressa. Me sentei no chão, coloquei a caixa nas pernas e abri devagar. ​Meu coração congelou. ​Uma arma. E munições. Minhas mãos começaram a tremer na hora. Eu sabia que a Keila tinha sido "vida louca" no passado, mas achei que ela tivesse deixado tudo isso para trás quando o Doruk nasceu. O que uma mãe solo, vendedora de loja de luxo, estava fazendo com aquilo guardado? ​Fechei a caixa rápido, enfiei de volta no lugar e peguei as bolsas. ​— Vamos, meu bebê lindo. ​Desci as escadas tremendo, tentando manter a pose de quem não tinha visto nada. No fim da escadaria, o Tonho já me esperava de braços cruzados. Aquele olhar de cafajeste sem moral que me deixa de perna bamba e me faz esquecer até de respirar. ​— Tá bem? Tá pálida... — ele comentou, me analisando. ​— Tô... toma, isto aqui é dela — entreguei as bolsas, tentando não encarar muito aqueles olhos. ​Ele pegou a bagagem e me estendeu um envelope pardo. ​— O que é isto? ​— Pro gasto do Doruk — o Tonho disse, curto e grosso. ​— Ah... tá bom. — Fiquei meio sem jeito. Ele me olhou intensamente por uns segundos, aquele tipo de olhar que atravessa a gente. ​— Tô indo então... ​— Te cuida, gata. — Ele subiu na moto e arrancou, acelerando pelo beco. ​— Ai, Doruk... esse homem ainda tem que ser meu — suspirei, sentindo o rastro do perfume dele no ar. ​— Quero sorvete! — o pequeno exigiu, me puxando pela mão. ​— Tudo o que tu quiser, meu bonitão! Vamos lá, mas primeiro vamos deixar tua bolsa em casa que tá pesada.
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