Isis:
O celular vibrou em cima da cama e eu atendi no primeiro toque. Era a Bianca.
— Oie!
— Oi, Ísis — a voz dela era um sussurro do outro lado.
— Bia, por que tá sussurrando, mulher?
— A Keila tá dormindo, ela tem que descansar.
— Ah, entendi. E o Doruk, coitadinho, só chaminga e aponta para a porta. Coração de mãe não se engana, né?
— Ah, mimoso... Ísis, faz o seguinte: monta uma mala com uns trapos da Keila. Ela vai ter que ficar pelo menos uns três dias aqui internada.
— Sério? Bah... O Doruk vai sentir.
— É. Dá a mala para o Tonho e vai lá na tua casa. Não fica na dela não. Na tua, pelo menos, você vê gente.
— Tá certo.
Desliguei e olhei para o Doruk, tão pequeno e já passando por tanto. Suspirei e abri o guarda-roupa da Keila. Meu Deus, que bagunça sem fim! Comecei a separar umas três blusas, short de moletom e... as calcinhas.
— Vamos ver... essa safada! Só fio dental, olha isso! — Peguei uma com a ponta dos dedos e ri sozinha. — E depois ela fala que não "dá o r**o", sei... — Ri de mim mesma, pensando que a única que ia acabar solteirona e cheia de gatos era eu.
Abri o gaveteiro do Doruk, coloquei mais roupas e fraldas. Fui no banheiro, peguei os produtos de higiene e joguei tudo numa sacola. Estava pronta.
— Mamãe! — o Doruk gritou, começando a chorar.
— Ô, meu bebê... — Fui pegar ele no colo. — Calma, tá? A mamãe vem logo.
Ele começou a se debater e jogou a chupeta longe, direto para debaixo da cama.
— Menino, modos, hein, meu lindo? Vamos sair, a dinda vai comprar presente!
Me abaixei para buscar a chupeta. Tateei o chão escuro e senti algo sólido. Puxei para fora e dei de cara com uma caixa de madeira. A curiosidade foi maior que a pressa. Me sentei no chão, coloquei a caixa nas pernas e abri devagar.
Meu coração congelou.
Uma arma. E munições. Minhas mãos começaram a tremer na hora. Eu sabia que a Keila tinha sido "vida louca" no passado, mas achei que ela tivesse deixado tudo isso para trás quando o Doruk nasceu. O que uma mãe solo, vendedora de loja de luxo, estava fazendo com aquilo guardado?
Fechei a caixa rápido, enfiei de volta no lugar e peguei as bolsas.
— Vamos, meu bebê lindo.
Desci as escadas tremendo, tentando manter a pose de quem não tinha visto nada. No fim da escadaria, o Tonho já me esperava de braços cruzados. Aquele olhar de cafajeste sem moral que me deixa de perna bamba e me faz esquecer até de respirar.
— Tá bem? Tá pálida... — ele comentou, me analisando.
— Tô... toma, isto aqui é dela — entreguei as bolsas, tentando não encarar muito aqueles olhos.
Ele pegou a bagagem e me estendeu um envelope pardo.
— O que é isto?
— Pro gasto do Doruk — o Tonho disse, curto e grosso.
— Ah... tá bom. — Fiquei meio sem jeito. Ele me olhou intensamente por uns segundos, aquele tipo de olhar que atravessa a gente.
— Tô indo então...
— Te cuida, gata. — Ele subiu na moto e arrancou, acelerando pelo beco.
— Ai, Doruk... esse homem ainda tem que ser meu — suspirei, sentindo o rastro do perfume dele no ar.
— Quero sorvete! — o pequeno exigiu, me puxando pela mão.
— Tudo o que tu quiser, meu bonitão! Vamos lá, mas primeiro vamos deixar tua bolsa em casa que tá pesada.