Episódio 1

1920 Words
Isabella Davis ──❀•❀── O barulho constante dos carros lá fora sempre me acordava antes do alarme tocar. Morar neste pequeno apartamento em Nova York foi um desafio, mas eu o via como o meu refúgio, longe do caos lá fora. A minha mãe sempre disse que eu deveria buscar algo melhor, mas para mim o lugar era bom. Era modesto, pequeno, mas era o suficiente. O banheiro era meu refúgio matinal, um lugar onde eu poderia ficar alguns minutos sozinha antes de enfrentar o dia. Enquanto a água quente caía sobre mim, repetia a mesma coisa que fazia todas as manhãs: Hoje será um bom dia, hoje talvez ele decida ter um relacionamento saudável comigo. Hoje talvez ele me dê o meu lugar. Saí do chuveiro e o ar frio do corredor me atingiu. Enrolei-me na toalha, enquanto o espelho embaçado m*al deixava ver o meu reflexo. A minha mãe, Marta Davis, sempre acordava antes de mim, pronta para o seu turno no hospital. Ela era incansável, apesar das suas longas horas como enfermeira. Eu a ouvi andando pela cozinha, provavelmente fazendo café. Eu sabia que ela estava me esperando, como todos os dias, com aquele olhar preocupado. — Isa, já é tarde. Ela me chamou da porta do banheiro. — Em um segundo, mãe. Eu respondi. Não consegui dormir ontem à noite e ela percebeu isso. Ele sabia muito bem o que isso representava, mas não estava com disposição para outra discussão. Hoje não. Fui para o meu quarto, fechando a porta atrás de mim. O aroma do café começava a passar por baixo da porta, mas os meus pensamentos estavam em outro lugar. Nele. Jackson Russell. Não consegui evitar que um sorriso se formasse nos meus lábios. A noite anterior tinha sido perfeita. Cada momento com ele era como uma montanha-russa: emocionante, intenso e sempre me deixando querendo mais. Abri o armário e peguei as minhas roupas, tentando não pensar no que viria a seguir. A minha mãe não aprovava o nosso relacionamento e, embora tentasse mantê-lo em segredo, era óbvio que ela sabia disso há meses. As perguntas nunca terminavam e, embora eu fosse um adulto independente, ainda me sentia um adolescente sob o seu olhar crítico. Coloquei a calça e estava abotoando a blusa quando de repente a porta do meu quarto se abriu. O meu coração pulou. — Você dormiu com aquele homem de novo? A minha mãe me perguntou, entrando sem esperar permissão. Dei um passo para trás, surpreso com a sua brusquidão. Eu sabia que ela não iria desistir tão facilmente, mas a intensidade na sua voz me deixou sem palavras por um momento. — Mãe... Comecei, procurando uma forma de me defender. — Não me dê desculpas, Isabella. Você ficou com ele de novo, certo? Os seus olhos examinaram-me com aquela mistura de frustração e desespero que eu já tinha visto tantas vezes. — Esse homem não combina com você. — Sou adulta, mãe. Tenho vinte anos. Respondi, levantando um pouco a voz, tentando permanecer firme. Já havíamos tido essa conversa muitas vezes antes. Eu sabia que ela não entenderia, que ela nunca entenderia. — E você está se deixando manipular por um homem dez anos mais velho que você, que não é da sua classe social e que claramente só está se divertindo com a jovem ingênua e virginal. Ela afirma. — Não sou virgem, mãe. Lembro, tentando abotoar a minha blusa. Mas então, os seus olhos se fixaram no meu pescoço e, antes que eu pudesse reagir, ele agarrou o meu braço e levantou-o para expor a pele exposta. O hematoma ainda estava lá, uma sombra escura sob a minha clavícula, quase invisível sob a blusa. — Olha como aquele homem te deixa! Ela disse, quase cuspindo as palavras, sua voz tremendo de raiva. Toda coberta de hematomas. O que foi desta vez? Ele te levou para um hotel e depois te mandou de volta de táxi? Me conte, Isabela. Até quando você vai continuar sendo a... a... pu*ta daquele homem que não te ama? O seu insulto me atingiu como um tapa, mesmo que ela não quisesse dizer isso de forma m*aliciosa. Eu sabia que estava falando por medo, por preocupação maternal, mas não consegui evitar que a raiva tomasse conta de mim. — Você não sabe do que está falando! Respondi, soltando o meu braço do seu aperto. Senti o calor subir às minhas bochechas. — Eu amo ele, mãe! Jackson me ama... à sua maneira, mas ele ama. Não é o que você pensa. — Amor? Ela riu amargamente. — Isso não é amor, Isabella. Esse homem só usa você. Ele te deixa cheio de marcas, e você... você não vê. Você está cega. — Não é o que você pensa. Repeti, mas minha voz havia perdido força. Porque, no fundo, eu sabia que parte do que ela dizia era verdade. Jackson não era perfeito, mas na minha opinião, era justificável. Cada vez que ele me deixava com essas marcas, ele me prometia que era apenas uma forma de expressar a sua paixão, seu controle, seu desejo por mim. — Isa. a minha mãe olhou para mim, com os olhos cheios de lágrimas que ela se recusava a deixar cair. — Você está se destruindo. Esse homem não é bom para você. Não aguento ver você assim, não aguento... A voz dela falhou, e senti um nó na garganta. — Mãe... Comecei, mas não sabia mais o que dizer. Tudo que eu queria era que ela entendesse. Que ela entendesse que o que sentia por Jackson não era algo que eu pudesse apagar como uma chama. Eu o amava, mesmo que ele não fosse perfeito. Embora às vezes isso me machuque. Ela suspirou, balançando a cabeça. — Não vou mais ver você cair. Não posso mais te ver assim, Isa. Eu vou fazer alguma coisa! E, sem mais delongas, ela saiu do quarto, me deixando sozinha, com os meus pensamentos oscilando entre a culpa e o amor. Sentei-me na cama, abraçando os joelhos. A voz da minha mãe ecoou na minha cabeça, misturada com lembranças da noite anterior. Jackson era tudo que eu sempre quis, mas às vezes me perguntava se o que eu significava para ele era o mesmo. Apertei os olhos, afastando esses pensamentos. Eu tinha que me concentrar. Eu tinha que ir trabalhar. Soltei um longo suspiro, calcei os sapatos e me levantei. Era hora de enfrentar outro dia, embora por dentro eu soubesse que estava andando na corda bamba. (...) O trem chegou na hora certa, como todas as manhãs, e eu estava lá, esperando. Normalmente o meu trabalho começava às oito, mas como secretária presidencial podia chegar às nove. O meu celular vibrou na bolsa e apenas uma pessoa, além da minha mãe, me escreveu naquele momento. Com um leve tremor nas mãos, tirei o meu celular da bolsa e verifiquei automaticamente as mensagens. E aí estava. A tela piscou com uma nova mensagem, seu nome em letras maiúsculas, um lembrete constante da sua presença dominante na minha vida. Jackson: Onde diab*os você está? Senti uma pontada no peito. Eu sabia. Ele já estava bravo, como sempre quando não me tinha sob controle, como se não suportasse o fato de haver um único minuto do dia em que eu não estivesse à sua disposição. Os meus dedos moveram-se rapidamente pela tela, enviando uma resposta que eu esperava que o acalmasse. Eu: Estou entrando no trem. Eram oito da manhã. Hora de pico. Pessoas aglomeraram-se ao meu redor, cada uma no seu mundo, e eu tentando não fazer o meu desabar. Olhei para meu reflexo na janela do trem. Eu parecia cansada, ou talvez mais do que cansada, como alguém que estava perdendo a batalha diária entre o que queria e o que realmente merecia. O meu telefone vibrou novamente e, com um suspiro, abri-o para ler o seguinte: Jackson: Eu lhe disse que era melhor você aceitar o apartamento perto da minha torre. Me incomoda acordar e não fazer amor com você. Senti uma mistura de emoções passar por mim. Parte disso era aquela sensação que ele sempre me transmitia, uma mistura de desejo e necessidade de agradá-lo. Mas também havia medo. Eu sabia que aquela mensagem não era apenas uma reclamação. Foi uma ameaça velada. Se eu não me aproximasse dele, se não me submetesse ao que ele queria, ele conseguiria tornar o meu dia um infer*no. E ele já tinha feito isso antes. Ele sabia muito bem como. Suspirei, trêmula, tentando não deixar ninguém ao meu redor perceber o meu nervosismo. Senti o meu coração disparar e, com dedos um pouco desajeitados, respondi: Eu: Você sabe que moro com a minha mãe. Eu não poderia deixá-la. Foi a mesma resposta de sempre, mas, na verdade, eu sabia que ele não se importava. Jackson via a minha mãe como um obstáculo, uma razão pela qual eu não estava completamente sob o seu controle. Sempre que surgia a conversa sobre aquele apartamento que ele me ofereceu, eu me sentia presa entre dois mundos: o amor ingênuo que sentia por ele e a realidade esmagadora de quem ele realmente era. O trem continuou a sua marcha e eu me apoiei na barra. O telefone vibrou novamente. Jackson: Estou esperando por você. Eu sabia o que isso significava. Eu o conhecia bem o suficiente para saber que a sua paciência era curta e que naquele momento ele provavelmente estava no seu escritório, com a mandíbula cerrada e os olhos frios, furioso por não me ter ali à sua disposição. Respirei lentamente, tentando me acalmar. Eu não poderia me permitir chegar com os nervos à flor da pele. Eu sabia que se fizesse isso, ele notaria. E Jackson não tolerava fraquezas. Ele queria que eu fosse perfeita, que estivesse lá para ele, e somente para ele. Eu: estou indo. A mensagem veio rapidamente do meu telefone e coloquei o aparelho na bolsa antes que as minhas mãos começassem a tremer mais. Fechei os olhos por um momento, lembrando-me da maneira como ele havia falado comigo na noite anterior. Ele tinha sido doce, às vezes, sussurrando promessas que pareciam sinceras. Às vezes ele me dizia que gostava de como eu cuidava de tudo, que apreciava a minha lealdade. E eu, como uma amante tol*a que era, acreditei que poderia quebrar aquela casca de gelo que ele tinha, que um dia ele realmente me amaria como eu merecia. As portas do trem abriram-se com um estrondo e o ar frio da estação me envolveu quando saí. Acelerei o passo, tentando não pensar muito. Sempre havia uma tensão no ar quando ele estava de mau-humor. Os seus funcionários sabiam disso, eu sabia disso. Todos pisavam em ovos, esperando que a tempestade passasse sem destruir tudo. Apesar de tudo, a minha mente continuava procurando desculpas, justificativas. — É a maneira dele de mostrar que se preocupa comigo. Foi o que ele me disse. Mas, no fundo, eu acreditava? Eu não tinha tanta certeza. Ao caminhar em direção à sua torre, vi o reflexo do meu próprio rosto nos vidros dos edifícios. Eu parecia perdida e, de certa forma, estava. Eu estava agarrada a um sonho que talvez nunca se tornasse realidade. ‍​‌‌​ ‌‌‌​​‌​‌‌​‌​ ​‌ ‌‌‌​‌‌​​​‌‌​​‌‌​‌ ‌​​​‌ ‌‌‍
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