ARTHUR
- É uma alívio ver que se deram tão bem. - a assistente logo comentou sorridente.
Eu olhei para a criatura e ela estava agarrada a meu braço com aquela carinha de anjo que apronta muito.
- Pois é né... - eu balancei a cabeça preocupado com o meu futuro.
- Como sabe, Sr. Molina, a família materna de Antonella não tem condições financeiras que qualifiquem para a justiça dar a guarda. Já o senhor se qualificou perfeitamente nesse requisito, mas não é só isso que importa. Então nós faremos visitas semanais a esta casa nesses primeiros dias de adaptação para saber como está sendo as coisas. Você deve proporcionar um lar a esta criança e todos os cuidados que ela precisa.
Eu olhei para o César e o chamei do meu lado.
- Quem é Antonella? - sussurrei para ele.
Ele olhou pra mim como se estivesse desistindo de viver.
- Ele vai cuidar muito bem da Antonella. - assegurou a elas. - Vocês irão avisar sobre as visitas?
- Não. Sempre preferimos chegar de surpresa para conseguir avaliar de verdadeira situação.
Ainda tem isso...
Elas levantaram e eu também.
- Onde estão as malas? - César perguntou.
- As malas estão no carro. Nós vamos buscar. - uma delas respondeu indo em direção a porta.
- Eu te ajudo. - César foi junto com ela.
Eu quero meu vinho.
- Tio.
Eu olhei para baixo e ela estava segurando a minha mão e esticando o pescoço para cima.
Eu ainda não consigo acreditar que o meu irmão teve um filho com a Petra. Uma menina que se parece muito com ela.
Era tudo o que eu queria ter um dia com ela. Ela realizou meus sonhos através do meu irmão.
Isso me deixa bastante chateado. Parece que o passado voltou com tudo. Bem agora que tudo estava tão perfeito.
- Oi.
- Eu vou ter um quarto?
- Vai sim.
- Mas você vai dormir lá também?
- Não.
Ela se entristeceu. - Que pena...
- Você já é bem grandinha. Já pode dormir sozinha.
- Mas eu tenho medo. Eu tenho medo de fantasmas.
- Os únicos fantasmas que poderiam aparecer seria o seu pai e a sua mãe, mas eles não vão aparecer porque eu proibi de eles entrarem na minha casa.
Ela fez uma cara engraçada. Não sabia se estava aliviada ou preocupada.
- Mas você fica até eu dormir?
Isso tá parecendo novela de criança mimada.
- Vamos negociar isso. Depois que esse povo for embora.
Ela abriu um sorriso. - O meu pai também negociava comigo.
- Verdade?
Deve ter sido negociando que ele levou a minha namorada.
- Aham. Ele me dava doces.
- É... a nossa negociação será um pouco diferente.
- Pronto. - César entrou com as malas dentro de casa. 3 malas enorme.
- O que uma menina de 5 anos carrega nessas malas enormes? Os corpos dos seus pais?! - fiquei abismado.
- Arthur! - César me repreendeu.
É estranho.
- Nós já estamos indo. - uma das assistentes avisou e a criatura soltou a minha mão e foi lá se despedir delas.
Ela as abraçou e suspirou. - Vou sentir saudades de vocês.
"Então vai com elas..."
- Nós também. - elas responderam abobalhadas. - Mas voltaremos pra te visitar. Continue obediente.
Ela é obediente?
Que alívio. Já estava bem preocupado com esse detalhe.
- Eu vou obedecer a todo mundo. Principalmente ao meu tio lindo.
Se continuar me bajulando pode ser que eu até goste dela.
- Eu também estou indo. - César comentou. - Arthur, lembre o que conversamos. Cuide bem dela.
"Pra que eu tenho funcionários?"
- Você. Não seus funcionários.
Tem horas que parece que ele lê a minha mente.
Eu lhe dei um aperto de mãos. - Pode ficar tranquilo. Eu tenho 35 anos nas costas.
- E cara de 30, juízo de 13. - ele falou baixinho. - Cuida bem dela.
- Arg. Pé no saco você. - falei baixinho e fui dar um aperto de mãos nas assistentes.
- Boa sorte na nova jornada.
- Obrigado.
Já dá boa sorte porque sabe que sucesso eu não terei.
Nós os acompanhamos até a porta e quando foram embora eu fechei tudo.
- É muito triste quando todo mundo vai embora, não é? - Antonella suspirou deixando os ombros caídos.
- Você já pensa nesse tipo de coisa?
- Todos os dias. - ela saiu pela sala andando de um jeito engraçado.
Meu Deus... eu vou me segurar pra não rir.
- Vamos. Me ajude a levar suas malas para o quarto. - eu puxei duas delas.
- Mas a minha mala é maior que eu, tio!
Arg...
- Então me acompanhe até seu quarto. Jorge, me ajuda aqui. - chamei meu cozinheiro.
- Quem é Jorge?
- É o cozinheiro.
- Você tem um cozinheiro? - ela colocou as mãos na cintura.
- Claro.
- Então você é rico!
- Sou. Obrigado por reparar. - puxei suas malas e o Jorge apareceu. - Jorge, arraste essa outra mala.
- Oi, Jorge! Eu sou a Antonella. - ela acenou para ele com um grande sorriso. - Mas pode me chamar de Tontom.
"Tontom..."
- Muito prazer. - Jorge logo se derreteu por ela e arrastou a outra mala.
- Você é o cozinheiro do meu tio rico? - ela segurou a mão livre dele e fomos à procura do quarto dela.
- Sou sim.
Será que ela vai ficar me chamando assim?
- O meu pai também sabia cozinhar. Ele sabia fazer ovos e tudo o que tinha com ovos. E ele soltava peidos fedorentos.
- Ok. Vamos guardar esses detalhes. - pedi fazendo careta.
Ela é muito tagarela. E eu nem sabia que crianças com 5 anos de idade já pensavam e falavam tanto.
Nós chegamos ao quarto que era ao lado do meu e entramos. Jorge já tinha limpado e deixado pronto para ela.
- Esse é o meu quarto? - ela entrou de braços abertos.
- Esse é o seu quarto.
- Que lindo! - ela tentou subir na cama. - Mas tio, a cama é muito alta. Eu não consigo subir.
- Já tem alguma coisa pra fazer aqui: aprender a subir na cama.
Jorge ficou rindo. - Tem uma escadinha no almoxarifado. Vou trazer pra cá.
- Obrigada, Jorge. Você é muito legal.
Ela compra as pessoas com a lábia. Puxou o pai.
Jorge saiu rindo e eu fiquei no quarto olhando as malas.
- O que você carrega nessas malas? - perguntei com medo.
- São as minhas roupas, meus sapatos, meus cremes e acessórios de cabelo e meus brinquedos.
- Acessórios?
- De cabelo, né!
Nem tem tamanho...
- Vamos ver em qual delas tem roupa de dormir. Você toma banho? - eu deitei uma das malas para abrir.
- É claro, tio! Eu vou andar fedendo igual gambá?
- Vai saber... - levantei um dos lados da mala. Estava cheia de roupas. Ao menos acertei na mala. Tinha uma bolsinha pesada, quando abri vi perfumes, cremes e sabonetes. Deixei de fora.
Não acredito que tô fazendo isso. Só posso estar pagando pelos meus pecados.
- Mas você tomou banho a pouco, não foi?
- Não. Faz muito tempo. Quando eu tava comendo feijão com arroz.
- Meio-dia. - concluí. - E você sabe tomar banho sozinha?
- Não. Eu não alcanço o botão.
- Ok. - eu levantei e fui ligar a banheira. Deixei em água quente.
- Tio, aqui tem wi-fi?
- Wi-fi? Pra que você quer wi-fi?
- Sim. Pra eu postar meus tik Tok.
- Você só tem 5 anos! - eu voltei pro quarto horrorizado com as crianças de hoje.
- A minha mãe disse que eu vou ser modelo um dia.
- A sua mãe não pode decidir o que você vai ser. Quem decide é você.
- Então eu vou ser tiktoker.
Piorou.
- Acho melhor seguir os meus conselhos. Nem você nem a sua mãe sabem decidir as coisas. E não tem wi-fi pra você.
Ela se entristeceu.
Mas eu encontrei a roupa de dormir e a toalha.
- Vamos pro banheiro. Tire a roupa pra entrar na banheira.
- Uma banheira? Você tem uma banheira?! - ela se animou.
- Tenho 3.
- 3?! Tio, você é muito rico!
- Sim.
- A sua casa é muito linda. - ela contava maravilhada e tirava as roupas no banheiro.
Eu me encostei na parede. - É... modéstia parte fui eu quem escolheu a decoração e o designer. Mas não era sempre assim não. Era uma casa antiga. Eu mandei reformar tudo. Gastei 200 mil somando com algumas melhorias no silo e em outras partes da fazenda.
- 200 mil é muito, tio? - ela olhou pra mim sem roupa e eu a peguei pelos sovacos e a coloquei dentro da banheira.
- Sim. É muito. Deve ser o preço que pagariam por você no mercado n***o.
- O que é mercado n***o, tio?
- Deixa quieto. - eu joguei sabonete dentro da banheira.
- Na minha casa não tinha banheira.
- Sério? Estranho. O seu pai adorava uma banheira.
- Olha a espuma, tio. - ela soprou.
Eu tô arrumado com essa menina...
Depois que ela tomou banho, eu ajudei a vestir a roupa e fomos jantar. Então ela ficou no meu pé o tempo inteiro. Eu tive que dar o celular para ela me deixar em paz e poder tomar banho. Ela pergunta sobre tudo. É muito tagarela!
A parte boa foi que eu tinha esquecido da mulher da mata.
Ela fala tanto que não deu tempo de eu pensar em outras coisas.
Depois que saí do banheiro fui lá na sala e a encontrei dormindo no sofá com o celular em cima dela.
Guardei o celular e tive que a levar para a cama nos braços.
Eu não sirvo pra isso de pai.
Ela passou uma noite aqui e eu estou mais exausto do que passando um dia todo com quatro dúzias de peões.
Eu sei que é uma situação irreversível, mas espero que a família dela venha logo buscá-la. Eu não tenho condições psicológicas para cuidar de uma criança.
Voltei para o meu quarto e peguei um casaco. Eu vou até a casa da floresta. Ainda não acredito que aquela mulher não é uma miragem. Preciso saber o que ela está fazendo aqui.