Nicolas passou horas em frente ao computador, imerso em uma espiral de informações que só serviam para aumentar sua angústia. As palavras “inseminação com esperma de camisinha” estavam digitadas na barra de busca, e a cada artigo, fórum ou publicação científica que lia, sua incredulidade era substituída por desespero.
Embora as chances fossem mínimas, a maioria dos especialistas concordava: não era impossível. Tudo dependeria das circunstâncias — como o tempo de exposição ao ar, as condições em que o esperma foi armazenado, e claro, a fertilidade da mulher. A ideia de que Marisa poderia, de fato, ter engravidado daquela forma absurda começou a se tornar mais plausível em sua mente, e isso o enchia de raiva e impotência.
Nicolas se recostou na cadeira de couro, encarando a tela iluminada em um escritório agora mergulhado na penumbra. Ele sentia o estômago revirar. Pai? Ele? Não conseguia sequer conceber a ideia. Nicolas nunca quisera ser pai. Não era algo que estava em seus planos — na verdade, não era algo que ele sequer cogitava.
Ele girou lentamente na cadeira, encarando as sombras que dançavam nas paredes, enquanto sua mente voltava aos pensamentos que evitara durante anos. Nicolas Baker não era um homem com traumas amorosos. Ele não tinha passado por grandes desilusões nem carregava mágoas de relacionamentos passados. Na verdade, ele nunca se permitira chegar a esse ponto.
Mulheres para ele sempre foram instrumentos de prazer, e ele nunca tentou esconder isso. Ele era honesto, direto: oferecia momentos intensos, mas nunca um futuro. Casamento? Não. Dividir a vida com alguém? Muito menos. Na visão de Nicolas, sentimentos eram uma porta aberta para sofrimento e problemas. "Relacionamentos eram sinônimo de fraqueza," ele dissera certa vez a Douglas em um de seus frequentes debates sobre o tema. Douglas, por outro lado, ainda acreditava no amor — ou pelo menos fingia acreditar, enquanto continuava colecionando encontros casuais com mulheres ao redor do mundo.
Ele se levantou, pegando um copo de uísque na mesa, e o levou à boca. O líquido desceu queimando, mas isso não ajudou a aliviar a tensão. Sua mente girava, tentando visualizar o que seria a vida de uma criança com ele como pai e Marisa como mãe. Nicolas não tinha dúvidas de que Marisa era uma mulher perigosa, movida por ambição e dinheiro. Ela não tinha escrúpulos, e sua gravidez, planejada de maneira tão suja e manipuladora, era a prova viva disso.
"Que chance essa criança teria?" ele murmurou para si mesmo, a voz baixa e carregada de amargura. Seus pensamentos aceleraram, e a raiva cresceu dentro dele como um incêndio incontrolável.
Com um movimento brusco, ele arremessou o copo contra a parede. O som do vidro se despedaçando ecoou pelo ambiente, e ele respirou fundo, tentando retomar o controle. Essa situação estava desmoronando sua compostura habitual.
Ele esfregou o rosto com as mãos, os dedos pressionando as têmporas como se isso pudesse afastar os pensamentos tumultuados. Estava exausto, mas sabia que não conseguiria dormir. Sentou-se novamente e começou a deslizar pelos sites de notícias, tentando ocupar sua mente com qualquer coisa que não fosse o desastre pessoal que se desenrolava diante dele.
Foi então que um título chamou sua atenção:
"Dina Foster está de volta a Hollywood!"
Nicolas ergueu uma sobrancelha, um sorriso cínico surgindo em seus lábios. Dina Foster. A atriz premiada e dona de uma beleza estonteante havia desaparecido dos holofotes havia quase um ano, envolta em rumores de escândalos pessoais. E agora, lá estava ela, de volta, pronta para reivindicar seu lugar no mundo do entretenimento.
"Interessante..." Nicolas murmurou, o sorriso se tornando mais evidente. Ele sabia o que a presença de Dina significava, ou melhor, para quem significava um problema: Douglas Maldovato.
Douglas, dono de uma das redes de clubes e bares mais famosas do mundo, tinha um histórico com Dina. Um passado que Nicolas conhecia bem demais. Os dois tinham se envolvido de maneira intensa e destrutiva, uma combinação de paixão e conflitos que terminara em uma separação escandalosa. Dina tinha jurado nunca mais se aproximar de Douglas, mas Nicolas sabia que as juras de Dina eram tão confiáveis quanto uma moeda lançada ao ar.
"Bem, pelo menos eu não sou o único lidando com problemas esta semana," Nicolas pensou, inclinando-se para trás na cadeira e soltando uma risada seca. A simples ideia de Douglas tendo que lidar com Dina de novo era uma distração bem-vinda para ele. Douglas, apesar de seu charme e sagacidade, era completamente vulnerável quando se tratava de Dina. Era como ver um leão poderoso ser reduzido a um gato assustado.
O sorriso cínico de Nicolas permaneceu enquanto ele pegava o celular e considerava mandar uma mensagem para Douglas, algo provocativo, algo para lembrá-lo de que Dina estava de volta. Mas decidiu esperar. Deixaria Douglas descobrir por conta própria; o impacto seria muito mais interessante assim.
Por fim, Nicolas fechou o laptop e se levantou. Olhou para o relógio: passava das três da manhã. O silêncio do apartamento era pesado, quase opressor, e ele se sentia estranhamente vulnerável. Tudo estava fora de controle — e isso o irritava profundamente.
Antes de ir para o quarto, ele olhou para os estilhaços de vidro no chão, decidindo que lidaria com a bagunça pela manhã. Sua mente estava dividida, uma parte ainda pensando na possibilidade de ser pai, e a outra intrigada com os desdobramentos do retorno de Dina. Era irônico como o caos parecia estar espalhado em várias direções, mas ele sabia que, de alguma forma, encontraria uma forma de manter o controle.
Porque era isso que Nicolas Baker fazia. Sempre.
Nicolas se jogou na cama, ainda vestido, encarando o teto do quarto iluminado apenas pela luz fraca que vinha da rua. Seus pensamentos continuavam a girar, incapazes de encontrar repouso. Ele tentou se concentrar em algo, qualquer coisa que não fosse Marisa, a criança que poderia ou não ser sua, ou o absurdo que sua vida havia se tornado em questão de horas.
Mas o silêncio da noite trouxe memórias que ele não esperava. Ele se lembrou da sua infância, de uma época em que tudo parecia mais simples, mais seguro. Seu pai, um homem forte e justo, tinha sido um modelo de integridade. Sua mãe, carinhosa e dedicada, sempre tinha um sorriso acolhedor e palavras de encorajamento para ele.
Eles eram bons pais, o tipo de pessoas que fariam qualquer coisa para garantir que ele tivesse uma vida melhor do que a deles. Eles o ensinaram valores como trabalho duro, honestidade e responsabilidade. Eram exemplos vivos de amor incondicional, e Nicolas sabia que, apesar de todas as falhas que sentia em si mesmo, era graças a eles que ele tinha se tornado um homem de sucesso.
Mas o sucesso veio com um preço. Nicolas fechou os olhos, sentindo um aperto familiar no peito enquanto as memórias dolorosas invadiam sua mente. Ele se lembrou de como seus pais haviam morrido de forma brutal, vítimas de um assalto feito por um imigrante ilegal. O choque, o luto e a raiva ainda estavam tão vivos dentro dele quanto naquele dia fatídico.
Ele se virou na cama, os lençóis amassando-se sob seu peso. Não conseguia evitar o pensamento de que, se não fossem os imigrantes ilegais, seus pais ainda estariam vivos.
"Eles nunca deveriam ter estado aqui", murmurou para si mesmo, a raiva queimando em suas palavras. Era uma crença que ele carregava desde então, uma justificativa para o preconceito que ele sabia ser irracional, mas que nunca conseguiu abandonar completamente.
Mas, ao mesmo tempo, outro pensamento o atingiu, algo que o deixou ainda mais desconfortável. Seus pais tinham amado crianças. Sua mãe especialmente sempre falava de como adoraria ter netos um dia, de como queria uma casa cheia de risadas e alegria novamente, mesmo que viesse de uma nova geração.
Nicolas gemeu, pressionando os olhos com a palma das mãos como se pudesse apagar aquela lembrança. Ele não queria filhos. Não queria a responsabilidade, o comprometimento, ou o risco de falhar miseravelmente como pai. Ele m*l conseguia cuidar de si mesmo, que dirá de uma criança. E ainda assim, ele se perguntava o que seus pais pensariam de sua situação. Será que estariam decepcionados? Será que ficariam felizes com a possibilidade de um neto, mesmo que viesse de circunstâncias tão questionáveis?
"Por que diabos eu estou pensando nisso agora?" Ele se revirou novamente, tentando afastar os pensamentos intrusivos. Ele não tinha tempo para sentimentalismos. Tinha que resolver as coisas pela manhã, e, como sempre, faria o que fosse necessário para sair dessa situação com o controle intacto.
"Eu dou um jeito nisso amanhã", murmurou, sua voz rouca no quarto vazio. "Sempre dou."
Com essa última tentativa de autoconfiança, Nicolas fechou os olhos e tentou se forçar a dormir, mesmo que soubesse que seria uma tarefa quase impossível.