Sentimentos novos

1287 Words
O estúdio já estava com as luzes principais apagadas, restando apenas o brilho azulado dos neons decorativos e a luz suave da luminária da recepção. Manu já tinha ido embora com as crianças, e Felipe saíra mais cedo para jantar com a mãe. Agnes estava comcentrada, com o rosto iluminado pela tela do computador, tentando decorar os comandos que Manu havia passado. Ela estava tão focada que nem percebeu quando Eli saiu de sua sala, com a mochila no ombro, mas parou ao vê-la ali. ☆Ainda aqui, Agnes? Já passou da hora do seu expediente disse ele, aproximando-se com a voz mansa para não assustá-la. _Ah, senhor Eli! Eu só queria deixar esses agendamentos de amanhã certinhos. Não quero dar prejuízo nem trabalho para a Dona Manu. ela respondeu, ajeitando uma mecha do cabelo que insistia em cair sobre os olhos azuis. A Aula Particular Eli sorriu, sentindo uma admiração genuína pela dedicação da moça. Ele colocou a mochila sobre o balcão e deu a volta, ficando ao lado dela. ☆Deixa eu te ajudar. Esse sistema é meio chato no começo mesmo. Ele se inclinou para alcançar o mouse, ficando bem próximo a ela. O perfume de Agnes era simples, algo que lembrava flores do campo e sabonete limpo, muito diferente dos perfumes caros que Eli estava acostumado a sentir em Londres. ☆"Aqui, você clica duas vezes no nome do cliente... vê? A mão dele acabou tocando a dela sobre o mouse. Foi um toque breve, mas que pareceu disparar uma corrente elétrica pelo ar. Agnes prendeu a respiração por um segundo e olhou para cima, encontrando os olhos de Eli a poucos centímetros dos seus. O Clima Esquece o Mundo Lá Fora O silêncio do estúdio vazio deixou o momento ainda mais intenso. Dava para ouvir o som da chuva fina que começava a cair lá fora e o ritmo da respiração dos dois. Eli notou como Agnes era ainda mais bonita de perto, sem as luzes fortes do dia. Havia uma pureza nela que desarmava qualquer barreira que ele tivesse construído ao longo dos anos. ☆Você tem olhos muito bonitos, Agnes A Bella tem razão, eles parecem o mar. Agnes sentiu o rosto queimar, mas não desviou o olhar. Pelo contrário, ela pareceu se perder naquele olhar castanho e protetor do patrão. _O senhor é um homem muito bom, senhor Eli. Eu nunca conheci alguém que cuidasse tanto da família e das pessoas como o senhor faz. O clima esquentou. Eli diminuiu a distância, a mão que antes estava no mouse agora subindo levemente para o braço dela. Ele sentiu Agnes estremecer, não de medo, mas de uma expectativa que fazia o coração de ambos bater na mesma frequência. Por um instante, o mundo de "patrão e funcionária" desapareceu. Eram apenas duas pessoas que, apesar de mundos tão diferentes, sentiam uma conexão impossível de ignorar. Ele não conseguia mais desviar o olhar daqueles olhos azuis que o encaravam com uma mistura de timidez e entrega. Agnes, com a respiração curta, sentiu que o mundo ao seu redor havia desaparecido; não existia mais interior, não existia mais receio, apenas a presença magnética do homem à sua frente. Eli levou a mão ao rosto dela, tocando sua pele com a ponta dos dedos, com uma delicadeza quase sagrada. Agnes fechou os olhos por um breve segundo, inclinando o rosto contra a palma da mão dele, aceitando o carinho ☆Agnes... Sem pressa, Eli diminuiu o espaço final. Quando seus lábios finalmente tocaram os dela, foi como se todas as peças da vida de Eli se encaixassem. O beijo começou calmo, doce, carregado daquela simplicidade que Agnes exalava, mas logo ganhou a intensidade de dois anos de solidão e busca que Eli tinha vivido em Londres. Agnes envolveu o pescoço de Eli com as mãos, deixando o mouse de lado, entregando-se àquela sensação nova e avassaladora. Naquele momento, no meio das tintas e das máquinas de tatuagem, sob a luz azul do neon, o "patrão famoso" e a "moça simples" deixaram de existir. Eram apenas dois corações se encontrando. O Despertar do Transe Quando se afastaram, ainda com as testas coladas e as respirações misturadas, Eli deu um sorriso de canto, aquele sorriso que costumava deixar as clientes sem ar, mas que para Agnes era apenas um gesto de puro afeto. ☆Eu acho que a Bella vai dizer que eu finalmente deixei de ser lerdo brincou ele, a voz rouca, tentando aliviar a tensão do momento. Agnes riu, um pouco encabulada, escondendo o rosto no peito de Eli. _O senhor... você não tem ideia do que acabou de fazer com o meu coração, Eli. _Eu tenho uma ideia, sim ele respondeu, beijando o topo da cabeça dela. Porque o meu está fazendo exatamente a mesma coisa. O Dia Seguinte Eles sabiam que, a partir daquele beijo, nada seria igual no estúdio. Mas como manter o profissionalismo com a Manu por perto e a "Dona Issa" agindo como uma detetive profissional? No dia seguinte, o estúdio abriu como se nada tivesse acontecido. Ou pelo menos, era o que eles tentavam fingir. Agnes estava no balcão, mais concentrada do que nunca, mas suas bochechas ganhavam um tom rosado toda vez que a porta da sala de Eli se abria. Eli, por sua vez, tentava manter o foco nas agulhas, mas errou o traço de um desenho básico três vezes só de ouvir a risada de Agnes na recepção. Felipe, que não tinha nada de bobo e conhecia o irmão como ninguém, entrou na sala de Eli sem bater. Ele se encostou na parede e ficou observando o irmão tatuar uma folha de papel por dez minutos em silêncio. •Tá com a mão trêmula hoje, irmão? provocou Felipe, com um sorriso de canto. •Ou é só o efeito da "aula de informática" de ontem à noite? Eli nem levantou a cabeça ☆Não sei do que você está falando, Felipe. Vai cuidar dos seus traços geométricos. •Ah, tá bom! Felipe riu, aproximando-se •Então o fato de você estar com um sorriso bobo desde que chegou e da Agnes estar brilhando mais que o neon da fachada é coincidência? Eli, eu te conheço. Aquele clima de ontem deixou rastro. Enquanto os irmãos se bicavam na sala, Manu chegou com o pequeno Joaquim no colo e uma pilha de papéis. Ela passou pela recepção e parou, olhando fixamente para Agnes. *Agnes, querida... você trocou de hidratante? Sua pele está... diferente. Tá com um brilho, sei lá Agnes sentiu as mãos gelarem. _Não, Dona Manu! Deve ser o ar-condicionado novo que o senhor Eli mandou instalar. Felipe percebe que o estúdio está ficando pequeno demais para tantos segredos e olhares disfarçados. Ele vê o irmão suando frio e decide que é hora de dar um empurrãozinho de verdade. Antes de sair, Felipe caminha até Eli, mas não faz piada desta vez. Ele tira do bolso uma chave antiga, com um chaveiro de metal gasto, e a coloca discretamente na mão do irmão, fechando os dedos de Eli sobre o metal frio. ☆O que é isso, Felipe? sussurrou Eli, confuso. •Escuta... Felipe falou baixo, num tom sério que Eli raramente ouvia. •Tem um apartamento no Catete. Ninguém sabe que existe, nem a mãe, nem o velho. Eu usava aquele lugar quando eu era tudo errado, era meu esconderijo. Hoje, ele está limpo. Vai pra lá com ela. Amanhã você pode me dar o sermão que quiser sobre eu ter escondido propriedades, mas hoje... aproveita. Vocês precisam de paz. Eli olhou para a chave e depois para o irmão. Viu nos olhos de Felipe uma gratidão silenciosa. Era o jeito dele de devolver um pouco da liberdade que o Eli lhe dera.
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