O Porto seguro

1042 Words
A chuva começava a fustigar o asfalto quando Eli chegou à porta do pequeno apartamento de Manu. Ele não tinha para onde ir, mas sabia que ali não precisaria de máscaras. Antes mesmo que pudesse tocar a campainha, a porta se abriu. Manu já o esperava. Ela conhecia cada sinal de desgaste na calma de Eli cada silêncio prolongado nas mensagens de texto. Ao vê-lo ali, com a mochila molhada e o olhar perdido, ela não fez perguntas. ○Entra, Eli disse ela, puxando-o puxando-o para dentro Assim que a porta se fechou, of mundo lá fora pareceu silenciar. Manu o envolveu em um abraço apertado, aquele tipo de abraço que diz tudo o que as palavras não conseguem dar conta. ○Acabou, Eli. Eu estou aqui. Fique o tempo que precisar sussurrou ela, afagando os cabelos dele. Foi o gatilho. A armadura de "calmaria em pessoa que Eli sustentou por anos diante dos insultos de Alberto e das armações de Felipe finalmente rachou. Ele enterrou o rosto no ombro de Manu e chorou. Não era um choro de fraqueza, mas de exaustão. Era o chorp de quem tentou ser o pilar de uma casa que insistia em desabar sobre ele. Minutos depois, um pouco mais calmo, mas ainda com a voz embargada, ele se afastou o suficiente para olhar para a amiga ☆Obrigado, Manu... Eu só não aguentava mais ser o vilão de uma história onde eu sou o único que tenta salvar as aparências. Ele limpou o rosto com as costas da mão, revelando a tatuagem de uma fênix no pulso. ☆Só espero que um dia eles veiam quem realmente é o Felipe. Manu apertou a mão dele, o olhar sério. ○Eles vão ver, Eli. Mentiras sãoq como castelos de areia; a maré sempre sobe. E quando subir, você não vai estar lá para se afogar com eles. ............A tinta da liberdade ...... As semanas que se seguiram na casa de Manu foram o oposto de tudo o que Eli conhecia. Não havia silêncios carregados de julgamento, nem o som dos passos de Alberto cobrando perfeição. Havia música, café compartilhado e, acima de tudo, risadas. Aos poucos, o brilho voltou ao olhar de Eli. Ele já não acordava esperando o próximo ataque de Felipe. Com o apoio incondicional de Manu, ele começou a tirar seus desenhos das pastas escondidas e a espalhá-los pela mesa da sala. ○Eli, olha isso disse Manu, apontando para um esboço detalhado de uma paisagem surrealista que ele desenhara. ○ Você é um artista, não um "erro". O mundo precisa ver o que você faz com uma agulha e tinta Eli sorriu, um sorriso verdadeiro que raramente aparecia na casa dos pais. ☆Eu sempre quis ter neu proprio espaço, Manu. Mas meu pai dizia que isso era "coisa de quem não quer nada com a vida" ○Pois vamos provar que ele está errado ela afirmou, com determinação. ○Eu entendo de gestão, você entende de arte. Vamos abrir o nosso próprio negócio. E assim, o que era apenas um sonho de madrugada começou a tomar forma. Eles encontraram um loft antigo em um bairro vibrante, discreto o suficiente para manter a paz, mas com alma o bastante para atrair quem buscava arte autêntica Eles decidiram abrir o "Studio Phoenix". Manu cuidava da parte burocrática e do marketing, enquanto Eli transformava o espaço em um santuário de criatividade. Pela primeira vez na vida, Eli não estava apenas sobrevivendo; ele estava construindo algo que levava o seu nome, sem a sombra do sobrenome Silva para sufocá-lo. ..........O Castelo de Cartas... Na mansão dos Silva, a atmosfera era de um velório interminável. Simone m*l saía do quarto; os "bom dias" trocados com Alberto eram monossilábicos e carregados de um ressentimento que o café mais caro do mundo não conseguia adoçar. Ela passaya horas olhando para o quarto vazio de Eli, percebendo, com uma dor tardia, que o filho que ela permitiu que fosse humilhado era, na verdade, a viga que sustentava o teto daquela casa. E a casa sentia a falta dele. Literalmente. Onde antes havia jo perfume de limpeza e a ordem discreta que Eli impunha sem pedir crédito, agora reinava o caos. Tênis de grife de quinhentos dólares estavam largados no mero do corredor, as solas sujas de lama. As quecas usadas de Felipe apareciam nos lugares mais improváveis atras do sofá de couro, no canto do banheiro social, sob a mesa de jantar de carvalho. Felipe continuava com seu papel de "cordeirinho" durante o dia, lamentando a "rebeldia" do irmão com suspiros teatrais para o pai. Mas, assim que a lua subia e o silêncio da noite caía, o anjo se transformava. Ele saía escondido,usando o carro que Alberto achava que estava na garagem para gastar dinheiro em festas clandestinas e rachas de rua. Voltava de madrugada, embriagado de uma arrogância perigosa, jogando as roupas sujas no chão e esperando que, por um milagre, elas desaparecessem pela manhã cómo acontecia quando Eli ainda estava lá para evitar que os pais vissem a sujeira do filho perfeito Uma manhã, Alberto tropeçou em um dos sapatos de Felipe logo cedo. *Simone! Por que essa casa está assim? Cadê a governanta? Cadê., Ele parou a frase no meio, a percepção batendo como um soco. A governanta estava de folga, mas a casa nunca ficava assim. •A governanta faz o grosso, Alberto respondeu Simone, aparecendo no topo da escada com olheiras profundas. •Quem catava a lixo do seu "orgulho" era o Eli. Quem organizava essa sala e não deixava você ver a bagunça que o Felipe faz era o filho que você chamou de marginal. Alberto olhou para o tênis jogado e, pela primeira vez, sentiu uma pontada de dúvida. O silêncio que se seguiu foi interrompido apenas pelo som de Felipe roncando no quarto ao lado, enquanto o rastro de suas roupas sujas formava um caminho de evidências que ninguém mais estava disposto a esconder. Enquanto o mofo da negligência crescia na mansão, o Studio Phoenix florescia sob a luz do sol e da Amizade verdadeira. O ambiente era regado a música boa, cheiro de café fresco e o som suave das máquinas de tatuagem um ritmo que, para Eli, soavava como liberdade.
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