- Hey, Suzie, que bom que você desceu. Hawk acabou de chegar.
Enquanto espalhava casualmente na mesa de centro de sua sala de estar as guloseimas que ele e Amy sempre comiam em suas noites de cinema, Steve sorriu para irmã, enquanto ela descia as escadas ao lado de sua melhor amiga. Ao perceber o que ele acabara de dizer, Suzie ergueu uma sobrancelha, visivelmente desconfiada.
- O quê? Por que? – ela questionou, confusa, rapidamente conferindo a hora no relógio acima da lareira – Ainda são seis horas. Ele só deveria chegar daqui há quarenta minutos. E, aliás, você parece muito arrumado para alguém que deveria estar chegando agora. – sua irmã o avaliou de cima a baixo, obviamente percebendo que algo estava estranho.
- Bem, o treino terminou um pouco mais cedo hoje. – ele deu um sorriso tranquilo. – E papai e mamãe ligaram há alguns minutos para avisar que vão passar a noite toda no hospital por conta dos turnos extras. Então, já que tecnicamente não temos hora para voltar para casa hoje à noite, eu achei que poderia fazer uma coisa legal para a minha irmãzinha e ajudá-la a começar uma noite divertida desde já. – ele se inclinou um pouco para tentar apertar a bochecha da irmã, coisa que ele sabia que Suzie odiava e por isso rapidamente se esquivou de sua mão, deixando o caminho livre para que ele visse Amy por completo, parada atrás dela. E foi quando ele percebeu o que ela estava vestindo.
- Você veio com seu suéter favorito. – ele refletiu laconicamente, olhando para a coisa verde e disforme que escondia o corpo dela por completo... A mesma peça de roupa que já protagonizara muitas de suas fantasias pervertidas, onde ele a transformava em uma pilha de tecido amassado no chão de seu quarto.
Aquela noite estava ficando cada vez melhor.
- Hã... Sim. – Amy respondeu, incerta, antes de se olhar longamente por um momento, como se estivesse se perguntando o que havia de errado, corando lindamente. – Algum problema?
- Não. – ele deu um sorriso carinhoso. Sabendo que ela deveria estar achando que havia algo de errado consigo mesma, ele ergueu a mão e delicadamente colocou uma mecha de seu cabelo atrás de orelha, ganhando um olhar surpreso dela, enquanto explicava – Você está linda, como sempre.
Satisfeito, ele se deleitou ao ver os lindos olhos cor de chocolate se arregalarem com profunda surpresa, timidez e... Encantamento? Saber que ela também se sentia atraída por ele parecia ter aberto seus olhos para os verdadeiros sentimentos que passavam por aquele rosto que ele amava. Amy sempre fora um livro aberto para ele, mas agora as coisas pareciam ainda mais claras. Por isso, quando ela mordeu o lábio com o força e desviou o olhar, visivelmente envergonhada e até um pouco inconformada, ele se reconheceu na expressão dela: a tentativa de se refrear; não ter pensamentos indevidos sobre o melhor amigo que você amava, mas que achava que jamais poderia ter como desejava. Quantas vezes ele não fizera aquilo ao longo dos anos, totalmente inconsciente de que ela estava tentando camuflar seus sentimentos tanto quanto ele?
Mas aquilo estava prestes a mudar. E mudaria naquela mesma noite.
Ele só precisava ficar sozinho com ela.
- Eu comprei seu sorvete favorito. – ele avisou Amy, despudoradamente acariciando sua bochecha com as pontas dos dedos. A liberdade de poder expressar seu amor por ela tocando-a era realmente uma sensação maravilhosa, apesar de que era perceptível como aquilo a estava deixando mortalmente confusa. Além de muito vermelha. Era hipnotizante a maneira como os olhos dela se desfocaram por um momento enquanto ela o olhava com os lábios entreabertos e o corpo levemente trêmulo. Ele amava pensar que aquelas reações significavam que ela estava tão encantada por ele quanto Steve sempre estivera por ela. Contudo, quando ele estava prestes a desistir de toda a noite romântica que planejara para ela e simplesmente se inclinar, ali no meio da sala e com sua irmã olhando-os, para finalmente descobrir qual o gosto daqueles lábios cheios, Amy repentinamente balançou a cabeça, com as bochechas em um tom escarlate cintilante enquanto lhe dizia um agradecimento vago e praticamente corria para a cozinha, como se estivesse fugindo, com os olhos castanhos e assustados firmemente colados no chão.
- O que há com você, Steve? – Suzie avançou até ficar em frente a ele, uma sobrancelha elevada de maneira duvidosa, mas também com um leve brilho esperançoso nos olhos verdes.
- Minha irmãzinha querida... – ele lhe deu um enorme sorriso sincero. Aquele era o melhor dia de sua vida e a alegria o estava preenchendo de maneira tão intensa que ele sentia que, naquele momento, poderia ser agradável até mesmo com Elliot Cross... Bem, sem exageros – Eu apenas acho que você e Hawk vão ter uma noite ótima juntos. Por que não vai logo? Ele está te esperando. Quanto mais cedo a diversão começar, melhor, especialmente quando não tem hora para acabar.
– E desde quando você é assim tão a favor de eu volte para casa tarde? – ela o avaliou com os olhos estreitos e desconfiados – O que está planejando, Steve?
Rindo, ele simplesmente deu de ombros – Eu e Amy vamos ter uma noite ótima, então acho que você merece ter uma também. – ele tentou falar aquilo com casualidade, mas certamente seu olhar deve ter revelado suas intenções, já que os olhos de Suzie se arregalaram instantaneamente.
- Quer dizer então que finalmente você resolveu tomar uma atitude? – Suzie sorriu brilhantemente – Finalmente! Já estava na hora de vocês dois cabeças duras se resolverem! – ela bateu palmas alegremente – Mas, o que aconteceu de especial hoje para você...? – ele praticamente pôde ouvir as engrenagens se mexendo no cérebro de sua irmã quando ela percebeu o que exatamente havia acontecido de diferente naquele dia – Espero um segundo... – ela olhou ansiosamente por cima do ombro dele, aparentemente tentando ver se Amy ainda estava na cozinha, longe da conversa dos dois – O quão cedo exatamente você chegou hoje? – ela colocou as mãos na cintura, visivelmente irritada.
- Cedo o suficiente. – ele riu alegremente, sabendo que não havia razões para negar o que Suzie claramente já percebera.
- Eu sabia que tinha ouvido alguma coisa no corredor naquela hora! Você ouviu nossa conversa, seu grande bastardo! – Suzie rugiu revoltada em voz baixa, batendo o pé – Era uma conversa de garotas!
- Desculpe, maninha. – ele riu da maneira como ela ficou ainda mais irritada pelo fato do tom dele não ter um pingo de arrependimento – Pense assim: agora Amy vai ser oficialmente sua irmã. – Steve deu um tapinha bem-humorado no ombro de Suzie, que pareceu se acalmar um pouco, apesar das bochechas continuarem infladas com irritação.
- Você está um pouco convencido, não acha? – ela o provocou com um sorriso zombeteiro – Como pode ter tanta certeza de que Amy vai terminar essa noite sendo sua namorada?
- Eu planejei a minha vida toda como confessaria que sou apaixonado por ela. Acredite, eu sei o que fazer hoje à noite. – ele sorriu maliciosamente.
- Se você deixar minha melhor amiga grávida e ela deixar de cursar a faculdade comigo para se casar, vou contar tudo para o papai e a mamãe e eles vão te mandar morar na garagem. – ela bufou – E eu vou ficar com seu quarto.
- E se você aparecer nessa casa antes da meia-noite, eu vou contar a eles que você usou aquele dinheiro que pediu semana passada para comprar sapatos e não livros para o seu curso de italiano. – ele rebateu, maldosamente satisfeito ao ver os olhos dela se arregalarem em choque, o que o fez dar um sorrisinho maligno – Por que a surpresa? Eu sou o melhor amigo: Amy me conta tudo. – ele tentou bagunçar o cabelo da irmã, mas ela se desvencilhou rapidamente, furiosa – E não se engane. Mesmo quando eu for promovido à namorado, noivo, marido e alma gêmea, ainda serei aquele com o título de melhor amigo. – ele riu quando ela mostrou a língua para ele, despeitada.
- Eu só digo uma coisa, Steve Anthony Bennet... – ela colocou o dedo em riste, com um tom ameaçador na voz sempre musical – É melhor que minha melhor amiga seja a namorada mais feliz e paparicada do mundo quando eu voltar aqui. – ela cruzou os braços e um momento se passou antes que ela falasse de novo – Ela merece todo o amor do mundo e você sabe disso.
- Isso é tudo o que eu mais quero dar a ela. – ele sorriu docemente, virando a cabeça para ver a silhueta dela através da parede de vidro que dividia a sala de estar da cozinha – Agora se apresse e vá logo embora! Já perdi quinze minutos nessa nossa conversa.
- Calma aí, garanhão. Deixe pelo menos eu subir e pegar minha bolsa. – ela revirou os olhos, enquanto se virava para subir as escadas – E procure não começar seu plano infalível de sedução antes de eu ter saído pela aquela porta. Não quero descobrir o que diabos está se passando na sua cabeça para você estar com esse sorrisinho. – ela resmungou enquanto subia as escadas, ao mesmo tempo em que ele se virou para ver Amy se aproximando timidamente dele, com um saco de pipocas em uma das mãos e o pote de sorvete favorito na outra.
- Suzie realmente já vai? – ela perguntou em voz baixa, mas ele não deixou de perceber o toque nervosismo que ela não conseguira disfarçar.
- Considerando que hoje nenhum de nós tem hora para estar em casa, eu também estaria ansioso para começar a aproveitar a noite o mais rápido possível. – ele sorriu, pegando o que ela trazia nas mãos e colocando na mesinha de centro antes de rapidamente se aproximar, quase que colando seus corpos, enquanto observava Amy engolir em seco diante de sua proximidade. Ele já a tinha visto ter aquele tipo de reação antes, também quando ele estava perto demais. Contudo, antes de saber o que sabia, ele considerava aquilo um sinal de desconforto e se afastava rapidamente, arrependido por ter invadido o espaço pessoal de Amy e tê-la enojado. Agora, porém, ele sabia a verdade. E jamais daria um único passo para longe dela novamente. A partir daquela noite, eles só se tornariam cada vez mais próximos – E eu também estou ansioso. – ele completou por fim, em um sussurro baixo e profundo que soou ávido e sensual até mesmo para seus ouvidos.
E também para os de Amy, já que ela repentinamente soltou um pequeno e sôfrego gemido que era uma mistura de necessidade e angústia, corando ferozmente logo que o som saiu de seus lábios. Fingindo tossir, ela desviou o olhar do dele e se remexeu desconfortavelmente, dando um passo para trás enquanto sua linda boca se abria em um sorriso nervoso.
- Eu duvido que seus pais vão gostar de voltar para casa amanhã de manhã e ver que Suzie ainda não chegou. – ela gaguejou fortemente, enquanto se esforçava para parecer brincalhona, ainda sem ousar olhá-lo – Então eu não diria que ela não tem horário para voltar, se fosse você. – ela deu uma risadinha sem graça e passou por ele rapidamente, avançando para longe quase como um coelhinho fugindo de um predador, até a mochila que estava em cima do sofá e começou a mexer no interior dela nervosamente – Você... – ele a ouviu tentar disfarçar um ofego – Quero dizer, é sua vez de escolher o filme. J-já decidiu o que vamos ver? Talvez alguma coisa de terror? – ela continuou a gaguejar, mexendo na mochila que trouxera sem parecer realmente estar procurando alguma coisa, ainda sem olhá-lo.
Após observar carinhosamente seu adorável nervosismo por um momento, ele se aproximou dela por trás e se inclinou para segurar suas mãos inquietas, evitando colar muito seus corpos, para não assustá-la. Ainda assim, ao sentir o toque dele, Amy literalmente pulou entre seus braços, virando-se para encará-lo com uma expressão que não poderia ser descrita como nada além de pasma, o que o fez rir um pouco.
- Você trouxe sua mochila... – ele observou, erguendo os olhos para encará-la – Disse ao Robert que ia dormir aqui hoje?
Parecendo quase que a beira de um colapso, Amy apenas afundou os dentes no lábio inferior e balançou a cabeça afirmativamente uma única vez, o que fez um meio sorriso maliciosamente satisfeito se formar em seu rosto. Com o coração cheio de alegria e paixão, ele viu a respiração de Amy engatar e seus lindos olhos castanhos se travarem nos deles quase como se ela estivesse hipnotizada. Delicadamente, ele tirou novamente uma mecha de seu longo cabelo castanho de perto dos olhos e guardando-a atrás de sua orelha, acariciando sua bochecha com as costas dos dedos no processo.
- Sim, eu já decidi o que vamos assistir. – ele finalmente a respondeu, principalmente por ter ficado preocupado que ela aparentemente não estava respirando enquanto continuava a encará-lo, quase que deslumbrada. O som de sua voz, porém, pareceu quebrar o feitiço e ele observou, fascinado, um arrepio percorrê-la, fazendo seus pequenos ombros tremerem um pouco, enquanto ela engolia em seco.
- E... E q-qual filme vai ser? – ela gaguejou, remexendo-se desconfortavelmente, especialmente porque continuava cercada por seus braços, embora ele não a estivesse abraçando de verdade.
- Romeu e Julieta. O clássico. Seu favorito. – ele revelou, sorrindo amorosamente ao vê-la arregalar os olhos, mas dessa vez com óbvio deleite. Contudo, logo suas sobrancelhas se franziram em confusão.
- Por que? – ela questionou-o em voz baixa.
- E por que não? – ele perguntou de volta, inclinando-se um pouco para deixar os rostos dos dois no mesmo nível, o que fez aquele adorável rubor envergonhado voltar para o rosto de Amy – Semana passada nós só assistimos filmes de terror. Vai ser bom ver algo diferente. Afinal, o romance é o alimento da alma, certo? – ele piscou para ela, brincalhão, e Amy soltou uma respiração sôfrega, antes de perguntar, soando quase desesperada.
- Você... Está tudo bem com você hoje, Steve? – sua voz ansiosa estava não apenas trêmula, mas também levemente assustada. – Você parece... Tão estranho.
- Estranho como? – ele se fingiu de desentendido, limitando-se apenas a abraça-la pelos ombros e leva-la junto com ele até a estante ao lado da televisão, para pegar o DVD do filme. Era o filme favorito de sua Amy, então é claro que ele também tinha uma cópia em sua própria casa, para estar à disposição dela sempre que quisesse. Era engraçado como ele sempre tivera ciúmes por ela ter uma certa queda por Romeu, mas agora aquilo não importava mais.
Não era ele que Steve a escutara dizer que amava.
- Estranho como... Hã... – sua pobre Amy gaguejou incoerentemente, obviamente sem saber como reagir diante de seu comportamento sedutor; na verdade, ele até mesmo se questionava se ela tinha sequer percebido que ele estava tentando seduzi-la. – Estranho no sentido de... Bem... Suzie! – ela praticamente gritou ao avistar sua irmã descendo a escada, quase que desesperada, como um sequestrado implorando para ser libertado.
Steve viu sua irmã parar para olhá-los, já no final da escada. Inexpressiva, seus olhos percorreram demoradamente a cena de Steve com o braço firmemente ao redor de Amy, praticamente encurralando-a contra a estante e com a mão abaixo do ombro dela descansando perigosamente perto de seus s***s. Após um segundo de silêncio, ela apenas lhes deu um sorriso malicioso e satisfeito, enquanto arrumava a alça de sua bolsa em seu ombro e ignorava solenemente o olhar assustado de Amy enquanto se dirigia para a porta.
- Boa noite, crianças. – ela acenou displicentemente antes de sair pela porta – Lembrem-se: eu ainda sou muito jovem para ser tia.
- Suzie! – Amy exclamou, escandalizada, mas a única resposta de sua irmã gêmea foi bater a porta atrás de si com uma risada alta e finalmente deixá-los sozinhos – O... O que ela quis dizer com isso? – Amy gaguejou, profundamente corada.
- Você sabe como a Suzie é. – ele sorriu para acalmá-la.
- Exagerada, certo? – ela sorriu nervosamente.
- Não. – a risada profunda que saiu de seu peito fez a pele dela arrepiar e ele se deliciou ao ver cada uma das reações que agora percebia que ela tinha a ele – Ela às vezes prevê o futuro.
- Hã!? – ela arfou, ofegante, mas Steve se limitou a dar-lhe um beijo casto na testa – um tipo de carinho que não era raro entre eles enquanto amigos e que ele sabia que serviria para deixa-la mais à vontade – e se afastou o suficiente dela apenas para pegar o filme e colocá-lo no aparelho de DVD, enquanto Amy permanecia petrificada no lugar, apenas olhando-o com os olhos lindamente arregalados e com um brilho que ele gostava de pensar que era sonhador. Sorrindo, ansioso pelo que estava prestes a acontecer, ele apagou as luzes da sala, para deixar o ambiente mais aconchegante, e tomou a mão macia dela na dele, guiando-a gentilmente até o sofá.
- Vamos lá. Temos um filme para assistir.