Foram quase trinta minutos de viagem até o local que fora informado aos policiais. Jeremiah observava a estrada com as folhas caindo no chão, enquanto ouvia atentamente as informações sobre o sequestro que Samantha lhe listava.
Em resumo, eles sabiam pouco e desconfiavam muito.
A família Levitan era dona de diversas empresas de marketing e propaganda em Missouri, inclusive a mais famosa: Cerquilha, Cordin e FaryTa1e. Eles deveriam estar em uma reunião de negócios importante em Kansas City há dois dias, porém desapareceram antes de chegar a seu destino. Seus parentes e amigos próximos estavam fazendo campanhas para acharem alguma pista, tendo conseguido apenas restos de celulares jogados na estrada em direção à KC; celulares que a polícia não tinha ainda certeza de que pertenciam a família, já que não sobrara quase nada dos aparelhos para identificá-los. Eles acreditavam que por não ter nenhuma notícia do sequestrador, ou seria alguma piada de mau gosto da família ou todos estavam mortos; contudo, obviamente, nem seus parentes, nem a mídia sabia das suas crenças em relação ao súbito sumiço.
Os Levitans eram formados por Chad Levitan, pai e presidente da empresa, Gemma Levitan, mãe e vice-presidente da empresa, Anthony Levitan, filho mais velho e prodígio da família, o prometido futuro presidente da empresa, e Marie Levitan, filha mais nova da família. Toda a história estava cheia de furos e exigia várias perguntas. O detetive não pode evitar que sua mente vagasse pelas possibilidades que submetiam aquele caso.
Assim que estacionaram perto das outras viaturas e desceram do carro, o estômago de Jeremiah revirou de ansiedade. Scott, atual parceiro da oficial Roth, batia o pé nervosamente e parecia aliviado ao ver o detetive indo em sua direção. Ficar sozinho, junto com diversos colegas de trabalho apontando suas armas em completa tensão, era agonizante para ele, o qual detestava aquele tipo de abordagem.
— Tem certeza sobre a casa? — indagou Jeremiah, virando-se para fitar a trilha grande o bastante para um carro passar dentro da mata.
— Encontramos o carro em que eles estavam, está a 10 metros da casa. — disse o jovem com seus olhos azuis temerosos. — Está com os documentos de todos eles, inclusive suas bolsas e carteiras, totalmente intactas. Tudo perto daquela casa.
— Leve-nos até lá. — ordenou o detetive fazendo um aceno às dezenas de policiais que chegaram ao local junto com ele para segui-lo.
Jeremiah pisava nas folhas e galhos caídos no chão adentrando no bosque. O frio repentinamente atacou seu corpo e ele abotoou seu sobretudo. Em menos de dois minutos, eles avistaram a casa cercada por oficiais apontando suas respectivas armas, esperando por qualquer movimento.
Ela era grande, estilo vitoriana, provavelmente com um andar em cima, maior do que as árvores, e poderia ser vista da estrada. Porém o seu estado deplorável fazia com que as pessoas passassem despercebidas pelo imóvel. Seu abandono era evidente. A madeira velha estava corroída por cupins e ferrugens dominavam as grades de ferro. As paredes, antes pintadas de rosa, estavam descascadas e sujas de forma que fez Jeremiah fazer uma careta ao observá-la.
— Está abandonada há mais de vinte anos e não se sabe quem são os donos. — disse o parceiro da oficial Roth a ninguém em particular.
— Há alguém aí dentro? — perguntou Samantha, tão enojada quanto o detetive. — Quero dizer, vocês entraram nessa casa?
— Não tivemos permissão do capitão. — respondeu a Samantha. — Ele disse para esperarmos Gargia chegar e dar as ordens.
Jeremiah suspirou olhando ao seu redor. Dificilmente seria um trote da família se eles livraram-se dos seus documentos. Dois dias de sumiço e nenhum sinal dos sequestradores. A chance de achar alguém vivo diminuía a cada minuto que se passava. A casa abandonada não parecia ser evidência, além de ser um lugar inadequado para moradia. Se eles procuravam corpos, ele apostava que estavam jogados em algum lugar entre as árvores.
O detetive vestiu um colete à prova de balas por precaução e decidiu que entrariam para fazer uma vistoria no imóvel. Segurando firme a pistola em sua mão, Gargia tomou à frente de dezenas de policiais devidamente armados. Assim que chegou à grade que trancava a casa, franziu o cenho ao ver o cadeado novo. O instinto de Jeremiah o alertou que algo sobre o caso estava deliberadamente errado. Aproximou a arma no cadeado e soltou o gatilho, estraçalhando o objeto. Assim que abriu as grades e a porta de madeira, a escuridão da casa fez seus pensamentos se tornarem turbulentos. No entanto, Jeremiah decidiu concentrar-se na adrenalina que começara a lhe dominar. Indicou silenciosamente para que Scott ligasse a lanterna e, no vislumbre, pode perceber o temor do oficial. Segurou-se para não revirar os olhos diante daquela atitude de alguém que vivia o tempo todo em perigo. Se queria calmaria e segurança, o oficial Scott havia escolhido o emprego errado.
Como havia organizado, cinco policiais adentraram nos cômodos de baixo enquanto o detetive subia para o primeiro andar com mais cinco homens em seu encalço. A escada rangia a cada passo e a poeira subia simultaneamente, causando uma sensação de tenebrosidade.
Sentindo o nariz incomodando com o árido odor de mofo, Gargia chegou ao primeiro andar. Era composto por um corredor longo e cheio de quartos, e uma pequena janela jazia no final iluminando um pouco aquela total escuridão. Ele contou seis portas fechadas e conforme abria a maçaneta para abri-las, só pode constatar o óbvio: nada.
Nada além de poeira e o terrível fedor de algum bicho morto. Chegando à última porta de madeira, esperando ver as mesmas coisas que as anteriores, não conseguiu abri-la. Levantou a mão como sinal para que os seus colegas parassem de procurar o que não tinha dentro dos quartos abertos e prestar atenção no que ele fazia. Jeremiah forçou a maçaneta sentindo o mormaço dificultar a respiração. Aquela casa era extremamente abafada, apesar do frio ferir-lhe os ossos. O detetive encaixou a perna e o ombro e empurrou com força, mas a porta não fez menção de se mexer. Irritado, sentindo seu corpo sujo como aquelas paredes, deu um chute violento fazendo parte da madeira podre, corroída de cupins, em pedaços.
O rosto do detetive e dos outros policiais estavam sobressaltados. Ele pode ver um pequeno salto de Scott, mas logo se recompôs tirando sua perna do buraco que fez na porta. Colocou o braço na a******a e, tateando às cegas, segurou a maçaneta do lado de dentro destrancando a porta.
O cheiro de cinzas o atingiu violentamente quando entrou no cômodo. Era tão claustrofóbico quantos outros, com a diferença de ter uma janela de vidro fechada totalmente embaçada.
Scott arrumou a lanterna atrás de Jeremiah e iluminou o quarto, fazendo o detetive parar de andar subitamente. Assim que olhou para o chão, no meio daquele cômodo, descobriu de onde vinha o cheiro de cinza. Roupas queimadas estavam jogadas ao chão, recentemente destruídas.
— Senhor? — Uma voz no rádio que estava em seu colete foi ouvida. — Senhor? Está aí?
— Sim. Estou escutando. — respondeu Jeremiah ainda fitando os restos de roupas que havia em sua frente.
— Olhamos todos os cômodos, não tem nada aqui. Nem mesmo móveis. — disse o policial do outro lado.
— Me esperem aí embaixo. — Avisou Gargia desligando o rádio logo em seguida.
Perguntas foram adentrando em sua mente, buscando sentido em tudo aquilo. Aquelas roupas eram de alguém da família que eles procuravam? O que elas tinham em relação ao desaparecimento dos Levitan's?
— Detetive? — Scott o chamou, o acordando para o presente. — Acabamos por aqui?
Ele estava louco para sair daquela casa e Jeremiah sabia disso. Não o culpava, lembrava-se bem de seu primeiro caso em campo e todo o medo que sentira junto com a vontade de sair correndo do local do crime. Queria poder desejar o que o oficial ansiava, mas o som de barulhos no teto o fez desconsiderar a ideia.
Os oficiais lançaram um olhar significativo para o detetive. Antes que dissesse alguma coisa, já sabiam o que ele pensava; afinal, todos pensavam a mesma coisa. Jeremiah apressou o passo à procura de uma porta no teto para o sótão e com ajuda da lanterna de Scott, encontrou rapidamente. Guardou sua arma na cintura e arregaçou as mangas. Balançou o alçapão e a viu trancada e enferrujada. Empurrou mais uma vez e só recebeu em resposta ferrugem caindo em cima dele.
— Deve ter sido apenas um rato, detetive. — disse um dos oficiais.
Não, não é apenas um rato, a mente de Jeremiah acusou. Havia algo lá e seu instinto lhe dizia para não desistir. Empurrou o alçapão mais uma vez e ouviu risadas de escárnio dos oficiais.
— Era só um rato. — comentou Scott rindo. — Não precisa disso, Gargia.
Ele empurrou mais uma e outra vez. Os risos ficavam mais descontraídos conforme os policiais zombavam da insistência do jovem detetive. Jeremiah estava incessante e deu um salto ficando pendurado no alçapão, segurando-o com força. Depois de alguns segundos, um barulho de engrenagem se ouviu e logo uma escada de ferro apareceu descendo até o chão.
Os risos dos policiais pararam subitamente e Jeremiah os lançou um olhar de displicência. O detetive pegou sua arma mais uma vez e tomou a lanterna de Scott. Colocou os primeiros pés na escada sem muita firmeza e fez uma pequena prece para que aquilo não fosse coisa de sua cabeça e que houvesse algo ali. Parte por querer resolver aquele caso e parte por não desejar parecer um i****a na frente de seus colegas de trabalho e subordinados.
Subiu os degraus sentindo o mormaço diminuir. Apontou a lanterna e viu lençóis aparentemente limpos e garrafas de água vazias. Algo estranho, contando que não havia sinal de nenhuma habitação humana naquela casa nos últimos anos. Segurou a lanterna passando por cada canto cuidadosamente. Copos, pacotes de salgadinho... Cada vez mais ele se surpreendia com o que achava e com a grandeza daquele sótão.
De repente, viu uma cabeça de uma mulher fora do corpo completamente suja de sangue e ele arregalou os olhos. Mexeu mais uma vez a lanterna e pode ver o resto do corpo dela ao seu lado. Passou mais para o lado e viu mais duas cabeças e dois corpos, porém dessa vez de homens. Todos eles inteiramente sujos de sangue e ele apertou a arma com força — talvez o assassino ainda estivesse lá.
Mas, conforme ele passava a lanterna, não conseguia ver ninguém além do vazio. Ele tinha quase certeza que aqueles eram os Levitans, só precisava saber onde estava o corpo de mais uma deles. Ele passou a lanterna devagar, observando até mesmo as teias de aranha, e parou subitamente ao ver um par de olhos escuros totalmente perdidos fitá-lo. Seu coração se pôs a bater com mais rapidez.
Ela estava sentada em uma cadeira e o encarava à beira da inconsciência. Sua pele n***a estava molhada de suor e seus cabelos grudavam no pescoço. Jeremiah pode ver as amarras em seus pés e suas mãos; podia imaginar o quanto estavam apertadas diante do sangue que tingia as cordas. Os olhos estavam sem vida e vermelhos, como de quem chorara por muito tempo. Seus lábios estavam secos e ela tremia compulsivamente.
Jeremiah sentiu seu corpo responder a seus movimentos vivaz e correu em sua direção. Ele desatou seus pés e suas mãos que estavam inchadas e assim que a libertou, a mulher caiu em seus braços como se fosse uma boneca. Estava em estado traumático, deduziu o detetive. Mas quem não ficaria? Toda sua família morta de forma tão c***l, com seus corpos decapitados em sua frente, quem agiria com sanidade?
— Chamem uma ambulância! — Gritou Gargia e algumas cabeças de policiais apareceram na escada, correndo logo após de fitarem a mulher caída em seus braços. — Chamem uma ambulância, agora! — rugiu e apressadamente eles desceram a escada.
A garota em seus braços, no entanto, pareceu voltar a consciência e segurou o colarinho de Jeremiah com as mãos ainda tremendo. Lágrimas corriam em sua face livremente e ela falou com voz quebrada, esforçando-se o máximo para que o som saísse. Voz que denunciava que seu estado de lucidez estava longe do saudável.
— Eles estão todos mortos.