POV DE LOUISE PARADIS BELMONT
O Comandante se aproximou da cama, os olhos cravados no filho Alfa como se estivesse diante de uma desonra intolerável.
— Ela acabou de perder a irmã e foi estraçalhada por Rogues. Você é o traidor aqui e está intimidando uma ferida na cama de hospital? Qual é a p***a do seu problema?
Cassian empalideceu sob o julgamento do pai. Naquele momento, ele não era o Alfa poderoso.
Era apenas um i*****l egoísta acuado pela própria ganância.
— Como eu não me transformei na maldição se a loba dela está morta? — ele perguntou ao vazio da sala, a voz carregada de uma confusão desesperada.
O pai dele o encarou com um desprezo profundo, a testa franzida em um vinco de desgosto.
— A maldição não depende da existência de uma loba, Cassian. Depende de quem carrega a Marca.
O Comandante olhou para o meu pescoço, onde a cicatriz da Marca de União brilhava como uma ferida vermelha que nunca fechava.
— Você a marcou. Ela pode ser apenas uma humana agora. Não importa. Você permanecerá intacto enquanto ela respirar, ela só não pode te rejeitar Cassian.
A mente de Cassian parecia explodir com as novas informações.
Pude ver a engrenagem girando em seus olhos azuis: eu ainda era útil. Eu ainda era o seu seguro de vida contra a loucura.
Nenhum pensamento dele, nem um único, foi dedicado à dor lancinante que eu senti.
À loba que sacrifiquei no altar das traições contínuas dele.
Eu era apenas o recipiente de carne que mantinha o coração dele batendo sem perigo.
E ele me odiava ainda mais por essa dependência indesejada.
As engrenagens da mente de Cassian pararam por um segundo, o silêncio na enfermaria tornando-se tão denso que eu podia ouvir o tic-tac metálico e irritante do relógio na parede.
Então, ele chegou à conclusão definitiva. A solução que ele buscou desesperadamente por cinco anos de um casamento forçado e odiado.
— Se a sua loba está morta... eu estou livre. Eu finalmente posso ficar com a Zoe.
O ar sumiu dos meus pulmões feridos.
O monitor cardíaco soltou um bipe longo e agudo, denunciando o colapso emocional do meu peito Belmont.
Eu não podia acreditar no que estava ouvindo.
A conclusão que ele chegou, diante do meu leito de dor, era que ele finalmente podia se livrar de mim, anulando o vínculo.
Ele continuou, a voz ganhando um entusiasmo doentio e sádico que me dava mais náuseas do que a bile ácida que eu vomitara na mansão.
— Quer dizer, a loba dela morreu. Eu não preciso mais ficar preso a ela.
Ele gesticulava, os olhos azuis elétricos faiscando com uma esperança c***l e renovada.
— Uma mulher sem lobo não é uma Luna adequada para a linhagem Blackwolf. Eu posso anular o casamento agora. Posso finalmente ficar com a mulher que eu amo de verdade.
Ele sorria. Um sorriso vitorioso, de esperança sobre a minha ruína.
Era como se ele estivesse fazendo uma festa sobre o meu caixão, antes mesmo de eu ser declarada morta.
— Meu Deus, Cassian... você poderia ter esperado pelo menos um pouco para fazer isso, não? — Júlia falou da porta, a voz trêmula de incredulidade diante da crueldade do filho.
Eu fechei os olhos com força, sentindo as lágrimas quentes se misturarem ao sangue seco no meu rosto pálido.
Eu fiz tudo por ele.
Durante cinco anos, eu fui a sombra submissa. A esposa perfeita. A mãe impecável.
Eu me anulei. Suportei o ódio da alcateia e os demônios que me perseguiam, acreditando tolamente que o meu amor e sacrifício seriam o escudo dele.
Cometi erros imperdoáveis. Manchei minhas mãos Belmont de sangue para protegê-lo de si mesmo e da maldição.
E tudo o que eu ganhei foi o desprezo eterno de um homem que esperava a minha morte para ser feliz ao lado de outra fêmea.
Ouvi o som rápido de passos no linóleo da enfermaria.
Cassian foi até Zoe.
Vi, pelo canto do olho, ele pegando as mãos dela com uma urgência que nunca teve comigo. O toque era carregado de uma promessa de futuro que nunca foi minha.
— Escutou isso, amor? Eu posso ficar com você agora.
A voz dele era um sussurro de êxtase puro, ignorando completamente a minha presença ferida na cama.
— Eu estou livre. Vou pedir a anulação do casamento e vou te reivindicar como minha Luna legítima.
Zoe não disse nada, mas o silêncio dela diante da minha humilhação era uma sentença de morte para a nossa antiga amizade e para a minha dignidade.
Aquilo me matou de um jeito que os dentes do Rogue no funeral nunca conseguiriam.
A dor física no meu tórax era uma carícia suave perto do que ele acabara de fazer com a minha alma.
Eu preferia que ele tivesse enfiado uma adaga de prata no meu coração no meio daquela batalha.
Teria sido mais rápido. Teria sido infinitamente mais humano do que me descartar dessa forma.
A visão de Cassian abraçando Zoe e Connor, o trio perfeito, a alcateia unida da qual eu nunca integrei, fez o resto da minha sanidade estalar e se transformar em pó.
Uma fúria visceral, antiga e Belmont acordou dentro de mim. Uma fúria que eu não sabia que existia sob anos de submissão.
Levantei-me de um salto da cama de hospital, ignorando o grito de protesto dos meus músculos e ossos quebrados.
O mundo girou violentamente. As luzes da enfermaria dançaram um balé doentio diante dos meus olhos, a tontura quase me derrubando de volta, mas a fúria me manteve de pé, rígida.
Virei-me para Rafael, ignorando a pontada de agonia pura que subiu pelo meu tórax.
— Se estou na enfermaria, eu estou de alta? — Minha voz não era mais um fiapo Belmont. Era aço temperado no fogo do inferno.
O médico me encarou, os olhos arregalados, meio assustado com a subitaneidade e a violência do meu movimento.
— Sim... você pode ir. Mas precisa voltar depois para tirar os pontos do tórax e do braço.
— Ótimo.
Pulei da cama, a dor física sendo completamente abafada pela adrenalina do ódio.
Caminhei com passos instáveis, mas determinados, até a mesa no canto da parede.
Minha bolsa estava ali, um objeto mundano em meio ao caos sobrenatural que acabara de me destruir.
Peguei-a com o único braço bom que me restava obediente; o outro, enfaixado, rígido e dolorido, pendia ao lado do corpo como um peso morto Belmont.
Com os dedos trêmulos de raiva, desbloqueei o celular e peço um Uber.
Eu não queria o toque de um Blackwolf em mim. Eu não queria o cheiro de um carro da alcateia que me odiava.
O ar daquela enfermaria me sufocava, entrando nos meus pulmões como veneno puro.
— Aonde você pensa que vai? — O rosnado possessivo de Cassian ecoou atrás de mim, quebrando o abraço com Zoe.
Eu me virei. Devagar. Com toda a dignidade que me restava e acabara de reunir em um fôlego só.
Encarei-o com um olhar que o fez recuar um passo imperceptível.
Ele pareceu assustado com o que viu nos meus olhos vazios. Não havia mais submissão ali. Não havia mais a esposa Belmont que implorava por migalhas de atenção e amor.
— Você pode ficar com a Zoe. Com a Sienna. Com a p***a da sua liberdade — disparei, cada palavra saindo da minha boca Belmont Paradis como uma bala de prata. — Eu te darei o divórcio com todo prazer do mundo.
A máscara de Alfa arrogante dele rachou instantaneamente. O choque transpareceu em cada linha do seu rosto idêntico ao de Gabriel.
Eu nunca tinha falado assim com ele antes. Eu nunca tinha rugido de volta. Eu nunca tinha me imposto como uma Loba.
— Agora vou ir buscar meus filhos. E quanto a você... — Dei um passo à frente, ignorando o sangue Belmont que voltava a manchar a gaze no meu tórax ferido. — Desejo profundamente que você vá direto para o quinto dos infernos.
Me viro e saio da enfermaria sem esperar por nenhuma resposta.
O frio da madrugada de Costa da Lua atingiu meu rosto pálido Belmont como um tapa gelado, mas foi o primeiro fôlego real de liberdade que tive em anos de prisão Blackwolf.
Ao longe, os faróis de um carro comum cortaram a escuridão da estrada. O Uber parou exatamente em frente à entrada do hospital Eclipse.
— Louise! Espera! — Ouvi vozes femininas Blackwolf me chamando pelas costas.
Não olhei para trás. Eu não queria carona de Blackwolf. Eu não queria o conforto falso daquela família Blackwolf que me odeia.
Um dia, desejei desesperadamente fazer parte deles, ser aceita, ser amada pela alcateia Blackwolf.
Agora, tudo o que eu, uma Paradis Belmont, queria era que a poeira daquela estrada Blackwolf me escondesse para sempre da vista dos Blackwolfs.
Entrei no Uber e bati a porta, selando o meu destino longe daquele clã.
O motorista arrancou rápido, e pelo retrovisor do carro comum, vi a silhueta solitária de Cassian Blackwolf sob a luz fria e estéril da entrada do hospital Blackwolf.
Ele parecia pequeno. Patético sob o peso da coroa que ele não sabia carregar.
E eu, uma Paradis Belmont, ferida, sem loba, pela primeira vez na minha vida, me senti gigante.