(POV DE CASSIAN BLACKWOLF)
As portas duplas da emergência bateram na minha cara. O baque metálico soou como o bater de um caixão.
Fiquei parado, o peito arfando, encarando o vidro fosco por onde levaram a minha mulher.
O cheiro de antisséptico e água sanitária entupiu minhas narinas, mas não conseguiu mascarar o odor ferroso e denso do sangue de Louise. O sangue que ensopava a minha camisa de linho, grudando o tecido na minha pele como uma segunda culpa.
Ergui as mãos. Elas tremiam incontrolavelmente.
O vermelho secava sob as minhas unhas e nas linhas das minhas palmas. Eu não conseguia parar de olhar para a prova física do meu fracasso como Alfa e como marido.
— Você não pode ficar aqui, Alfa. Por favor, aguarde na sala de espera.
A voz da enfermeira era um zumbido irritante. Um latido impessoal de quem lida com a morte todos os dias.
Eu não rosnei. Eu não a ameacei. O vazio dentro de mim era tão absoluto que eu apenas me arrastei pelo corredor estéril, guiado pelo brilho nauseante das lâmpadas fluorescentes brancas.
A sala de espera era um aquário gelado e sem vida. Caí em uma das cadeiras de plástico, afundando o rosto nas mãos ensanguentadas. O sangue dela de novo estava nas minhas mãos até quando ela aguentaria isso?
Por favor, Deusa. Por favor.
O sino do elevador principal soou. O caos invadiu o silêncio do andar.
Passos apressados, pesados e cheios de pânico ecoaram pelo corredor. Levantei a cabeça lentamente.
Levi e Luther entraram primeiro.
Minha mãe, Júlia, vinha atrás, guiando Levi e Luther.
Meus meninos corriam, os rostos banhados em lágrimas e o pânico estampado nos olhos azuis.
— Papai! — Eles gritaram em uníssono, as vozes infantis partindo o que restava do meu autocontrole.
Júlia parou diante de mim. Ela segurava uma bolsa de lona, as mãos tremendo levemente apesar da postura de Luna.
— Trouxe roupas limpas para você, filho — ela sussurrou, os olhos fixos na mancha de sangue seco que endurecia minha camisa.
— Qual a situação dela, Cassian? — Meu pai, Gabriel, perguntou. A voz do Comandante era baixa, mas carregada de uma urgência que ele raramente demonstrava.
— Nada boa, Pai — respondi, minha voz saindo como um rosnado ferido.
Levi agarrou a barra da minha calça, os dedos pequenos apertando o tecido com força.
— A mamãe vai morrer como a tia Amélie? — A pergunta dele foi uma estocada de faca no meu peito. O medo na voz dele era um ácido que me corroía por dentro.
Eu me ajoelhei no chão frio, ficando na altura dele. Segurei seus ombros, tentando passar uma segurança que eu mesmo não possuía.
— Não, meu filho. Sua mãe é forte. Muito forte. Ela não vai a lugar nenhum.
Olhei para Luther. Ele chorava em silêncio, o rosto pequeno transformado em uma máscara de angústia que nenhuma criança deveria carregar. Puxei os dois para um abraço apertado, sentindo o tremor dos corpos deles contra o meu.
O barulho de saltos batendo contra o piso anunciou a chegada dos Belmont e dos Valença.
Geneviève entrou na sala em frangalhos. Ela acabara de enterrar uma filha e agora via a única que lhe restava entre a vida e a morte. O desespero dela era algo físico, uma aura de dor que nem os sedativos conseguiam apagar.
Ela andava de um lado para o outro, as mãos pressionadas contra a boca, rezando em um sussurro frenético que todos podíamos ouvir.
— Deusa, por favor... não a leve. Não leve minha única filha. Você já arrancou um pedaço da minha alma... não a tire de mim agora.
As preces dela eram pontuadas por soluços que faziam o ar da sala parecer mais pesado.
Olhei ao redor. Os patriarcas estavam todos ali. Meu pai, meu avô, meu tio. Connor mantinha-se em um canto, tenso.
E havia Zoe.
Ela estava parada ao lado do meu irmão, em silêncio, observando a cena. Era uma piada c***l. Passamos anos desprezando Louise, tratando-a como uma intrusa indesejada em nossas vidas perfeitas.
E agora, estávamos todos ali, em uma vigília hipócrita, sufocados pelo medo de que a luz dela realmente se apagasse.
O silêncio da sala foi cortado pelo som metálico de uma porta se abrindo no fundo do corredor.
Alexander, meu tio e médico-chefe do hospital, surgiu.
Ele ainda vestia o avental cirúrgico, as mãos enluvadas escondidas atrás das costas e uma expressão que não revelava nada.
Todos se levantaram como se tivessem sido atingidos por uma descarga elétrica.
O ar parou nos meus pulmões. O tempo congelou enquanto Alexander caminhava em nossa direção, cada passo dele soando como o veredito final da minha vida.
— Qual a situação? — disparei, atropelando o espaço entre nós.
Alexander parou. O cheiro de antisséptico que ele exalava parecia lixa nos meus sentidos aguçados.
— Bom, não vim falar da sua esposa. Vim falar das gêmeas — Alexander disse, a voz desprovida de qualquer calor. — Rafael está em cirurgia com Louise. Mas pela situação em que ela chegou... Cassian, acho melhor vocês prepararem o velório.
O mundo parou.
O silêncio que se seguiu não foi humano; foi o vácuo de uma explosão.
Minha mãe cambaleou, a mão voando para o peito como se tivesse levado um tiro. Geneviève soltou um som agudo, um ganido de animal ferido, antes de desabar nos braços de Eduardo, que a segurou com uma falsa preocupação que me deu náuseas.
Até Zoe recuou, os olhos amarelos arregalados, a máscara de perfeição trincando diante da brutalidade daquelas palavras.
Senti dois pesos pequenos se chocarem contra as minhas pernas. Levi e Luther se encolheram, enterrando os rostos no tecido da minha calça suja de sangue.
— Não... papai, você falou que a mamãe era forte... — Luther soluçou, o som abafado pelo meu corpo.
Alexander pigarreou, as feições endurecendo em um arrependimento tardio. Ele olhou para as crianças e depois para o meu rosto, que eu sentia estar se transformando na máscara do lobo n***o.
— Desculpem a honestidade, mas Louise chegou com danos internos massivos e uma parada respiratória prolongada — ele tentou amenizar, a voz agora mais baixa. — Tenho certeza de que Rafael vai fazer tudo o que pode para salvar a Luna.
Meu pai deu um passo à frente, a presença de Alfa Comandante exigindo ordem no caos.
— E as minhas filhas? — Gabriel perguntou. Havia um tremor quase imperceptível no tom dele.
Alexander se virou para ele, parecendo aliviado por mudar de assunto.
— Estão estáveis. Como elas têm lobas fortes, já estão se regenerando. Os ossos quebrados estão colando. Não é tão grave quanto o estado da Louise.
Ele respirou fundo, ajustando a máscara cirúrgica no pescoço.
— Vou buscar informações atualizadas da Luna e já volto.
Eu não ouvi o resto. "Velório". A palavra ecoava na minha mente como um sino fúnebre.
Olhei para as minhas mãos. O sangue de Louise estava começando a descascar, seco e escuro.
Se ela morresse, aquele sangue seria a única coisa que me restaria dela. E a Deusa sabe que eu não suportaria viver no escuro que eu mesmo ajudei a criar.
As horas não passavam; elas se arrastavam como um verme sobre as feridas abertas da minha consciência.
O cheiro de café queimado da máquina, misturado ao metálico do sangue seco e ao antisséptico estéril, fazia meu estômago dar voltas.
Ninguém ousava quebrar o silêncio pesado.
Levi e Luther pareciam estátuas de gelo, grudados nas minhas pernas, as expressões fantasmagóricas e retorcidas pelo medo de perderem o mundo que conheciam.
O baque seco das portas do elevador fez todos se virarem como se esperassem um novo ataque.
Ryler e Nick Kincaid entraram no corredor.
Eu dei um pulo da cadeira, meus músculos reagindo antes da minha mente.
— O que caralhos você está fazendo aqui? — rosnei, o som vindo do fundo do meu tórax.
Nick não recuou. Ele nunca se intimidava. Pelo contrário, parecia saborear a minha irritação, sustentando meu olhar com uma frieza que beirava o deboche.
— Viemos dar notícias sobre o homem que entrou na casa... — Ryler, meu Beta, apressou-se em dizer.
Ele se colocou entre mim e Nick, enquanto Connor se postava ao meu lado, a mão no meu ombro pronta para me conter se eu saltasse no pescoço do policial.
Reuni cada grama de força para não desmoronar e foquei nas palavras de Ryler.
— E então? — exigi.
Ryler fez uma careta. O cheiro do fracasso emanava dele antes mesmo de ele abrir a boca.
— Nossos homens o perderam na floresta. Ele sumiu no breu.
A fúria explodiu dentro de mim como uma granada.
— Vocês são uns malditos inúteis! — gritei, a voz ecoando pelas paredes brancas.
Virei-me de costas, sentindo o lobo n***o arranhar minhas entranhas, uivando por uma caça que lhe foi negada.
Soco.
Meu punho atingiu a parede com força total. Senti o reboco estalar e a dor aguda subir pelo meu braço, mas era o único jeito de não gritar.
— Que merda está acontecendo nessa cidade? — a voz de Connor soou, tensa e analítica. — Dois possíveis suicídios e agora tentam matar uma Luna?
— E tem mais... — A voz de Nick cortou o ar, aumentando minha sede de sangue.
Virei-me para ele, os olhos injetados. Nick me encarou sem enrolação, os braços cruzados sobre o peito.
— Apareceu uma mala de viagem agora à noite. Estilo militar, preta, enorme. Deixaram na delegacia com o seu nome, Alfa.
Ele enfatizou a palavra "Alfa" com aquele tom habitual de desprezo, um desafio silencioso que pairou entre nós.
— Não vamos abrir sem a sua autorização. Mas algo me diz que você vai querer ver o que tem dentro antes que o sol nasça.
O bipe constante dos monitores cardíacos lá dentro pareceu acelerar.
— Eu vou... — me viro para minha mãe. — mãe por favor não saia daqui se tiver notícias me avise imediatamente!
Eu entro no elevador sentindo cada músculo tenso do meu corpo.
O cerco estava fechando. E as peças desse quebra-cabeça estavam começando a se revelar.