Capítulo 23 - Um Fio de esperança

1895 Words
(POV DE CASSIAN BLACKWOLF) O céu de Costa da Lua parecia anunciar o próprio apocalipse. As nuvens de um cinza doentio engoliam a luz, como se a própria cidade estivesse absorvendo os horrores que Connor e eu tentávamos exterminar. Mais dois corpos apareceram durante esses dias. Uma jovem e um rapaz. Os mesmos rostos que eu vi gritando nas fitas, suplicando por piedade sob o peso das máscaras negras. O extermínio estava acontecendo lá fora, rápido e silencioso. E a única sobrevivente definhava na minha frente. Abri os olhos, o pescoço estalando de dor. Seis semanas. Eu dormia e acordava naquela mesma cadeira de plástico da UTI, com o cheiro de antisséptico e éter queimando as minhas narinas até o cérebro latejar. O bipe do monitor cardíaco era o meu único lembrete de que o inferno ainda não tinha vencido. A pesada porta do quarto rangeu. Minha mãe, Júlia, entrou em passos curtos. Ela segurava Levi e Luther pelas mãos. Meus filhos pareciam ter envelhecido anos em um único mês. Os rostos infantis estavam fundos, carregados de olheiras e de uma tristeza que nenhuma criança deveria conhecer. Eles se soltaram da avó e caminharam até a cama de metal. O toque hesitante nas mãos pálidas de Louise. As vozes embargadas contando sobre a escola, sobre o vazio da casa. — A mamãe não ia gostar de acordar com a unha grande, papai — Levi sussurrou, os olhos fixos nos dedos inertes dela. — Ela sempre fazia as unhas. O meu peito apertou, como se uma mão de ferro esmagasse os meus pulmões. No dia anterior, Luther trouxe flores amassadas nos punhos miúdos. — A mamãe gosta de lírios — ele tinha dito, a voz chorosa. — Às vezes ela comprava e colocava em cima da mesa da cozinha... Eles continuaram murmurando. Diziam sentir falta das panquecas doces. Lembravam que ela gostava de desenhar na sacada e que, quando achava que ninguém estava por perto, cantava baixinho. Cada palavra que saía da boca dos meus filhos era uma lâmina afiada rasgando o meu estômago. Eu ouvia tudo em um silêncio agonizante. A culpa era um veneno ácido correndo nas minhas veias. Meus filhos conheciam Louise. Eles a viam de verdade. Eu? Eu a tratei como um fantasma. Dormíamos em quartos separados e distantes. Passávamos dias sem trocar uma maldita palavra. Eu morei sob o mesmo teto que ela por cinco anos, e a mulher deitada naquela cama, lutando pela vida, era uma completa estranha para mim. Eu não sabia dos lírios. Eu não conhecia a voz dela cantando. Eu nunca reparei nas suas unhas ou no seu sorriso. O Alfa inabalável não passava de um cego arrogante. O toque suave da minha mãe no meu ombro me tirou da espiral de auto-ódio. O tempo da visita havia acabado. Os meninos se despediram com beijos na testa gélida da mãe, deixando o quarto com os ombros caídos. O ar ficou ainda mais pesado. Asfixiante. Vesti a minha jaqueta tática, o couro n***o rangendo no silêncio do quarto. Eu precisava voltar para a delegacia. Mas a porta se abriu antes que eu tocasse a maçaneta de metal. A Dra. Aris, a neurologista-chefe da equipe de Alexander, parou no umbral. O rosto dela estava da cor de cinzas. A prancheta de acrílico tremia levemente nas mãos enluvadas. O meu lobo recuou na minha mente, choramingando. O cheiro de desespero clínico que emanava dela fez o meu sangue congelar. — Alfa... — a voz dela era cautelosa, carregada de um peso profissional e fúnebre. — Preciso falar com você antes que saia. Meu maxilar travou. O pavor me atingiu como um soco direto no esterno. — Fale. Ela não desviou o olhar, mas engoliu em seco, como se as próximas palavras queimassem a língua. — Os exames neurológicos não foram bons hoje. A atividade cerebral da sua esposa sofreu uma queda brusca e silenciosa nas últimas horas. O chão de linóleo pareceu ceder sob as minhas botas. — O que isso significa? — rosnei, a voz falhando, revelando todo o meu desespero. A médica abaixou a prancheta. Os olhos dela não tinham pena, apenas a frieza brutal da ciência. — Significa que a mente dela desistiu de lutar, Alfa — Aris sussurrou, o som cortando o ar como uma lâmina fria. — Se as ondas cerebrais continuarem caindo nesse mesmo ritmo... temo que não teremos como reverter o processo. O coma se tornará irreversível. Ela nunca mais vai acordar. O eco da palavra "irreversível" ricocheteava dentro do meu crânio. A Dra. Aris não disse mais nada. Ela não precisava. A médica fez uma reverência rígida e fechou a porta atrás de si, deixando-me sozinho com a sentença de morte da minha esposa. Fiquei um longo tempo parado no mesmo lugar, paralisado. Processando o abismo. O meu cérebro de predador, treinado para táticas de guerra e sobrevivência letal, simplesmente não conseguia codificar aquela informação. Louise estava desistindo. Caminhei a passos arrastados até a beirada da cama de metal. Meus olhos percorreram o corpo frágil e inerte sob os lençóis brancos do hospital. Ela era tão jovem. Tão absurdamente jovem. Nós tínhamos a mesma idade. Vinte e três anos. A diferença entre nós era uma questão de meses patéticos. Eu fazia aniversário nos primeiros dias do ano, e ela, no final. Éramos apenas dois jovens adultos, mas a vida havia nos triturado de maneiras diferentes. Eu fui moldado para ser um rei intocável; ela foi moldada para ser um alvo silencioso. Observei o rosto dela com uma atenção devoradora que eu me neguei por cinco anos. Os machucados físicos mais brutais, os cortes faciais e os hematomas roxos no corpo, já estavam cicatrizando. A regeneração lupina, mesmo fraca e reprimida, estava fazendo o seu trabalho de varrer as marcas externas. As feridas estavam quase desaparecendo. Mas, mesmo naquele estado deplorável, cercada por tubos, fitas adesivas e agulhas, ela era belíssima. Era uma beleza crua, melancólica e arrebatadora. E o que mais me rasgava o peito era saber que ela não fazia a menor ideia do quanto era bonita. Louise sempre se escondeu. Sempre andou de cabeça baixa, vestindo roupas que cobriam a pele, tentando ser invisível. Essa mesma beleza intocada foi o que sempre dificultou o meu maldito rancor por ela. Eu a odiava por ter sido imposta a mim, mas o meu lobo sempre soube a deusa que tínhamos como companheira. E eu me punia por desejá-la. Sentei na beirada do colchão, o estrado de aço rangendo sob o meu peso. Não hesitei dessa vez. Não deixei o orgulho ditar a distância. Estiquei a mão e peguei a dela. O choque térmico me fez prender a respiração. A pele de Louise estava gelada. Um frio doentio e cadavérico, como se a vida já tivesse sido drenada e soprada para fora daquele corpo frágil. Enrolei as minhas duas mãos grandes e quentes ao redor da mão pequena dela. Esfreguei meus polegares sobre os nós dos dedos dela. Tentei injetar o calor do meu sangue de Alfa diretamente nas veias dela, tentando doar a minha vitalidade, a minha força, qualquer coisa que a puxasse de volta. E então, o impossível aconteceu. A resposta não veio dos monitores, nem da respiração dela, mas da nossa própria essência. Um calor familiar e antigo formigou na base do meu antebraço. Abaixei os olhos. O ar entre nós pareceu ondular. O vínculo que nos conectava, aquele que o trauma havia silenciado e enterrado sob camadas de dor, materializou-se no mundo físico. Um fio de luz translúcida, circular e etérea, desenhou-se na minha pele. Ele nasceu no meu pulso, brilhando em um azul prateado, e esticou-se pelo espaço vazio até se enroscar no pulso pálido dela. Era visível. Era mágico. E, contrariando o coma e a morte iminente, era incrivelmente forte. A marca não estava morta. Ela estava apenas soterrada sob o desespero. Apertei a mão dela com mais força, sentindo o pulso de magia vibrar contra a minha pele. — Louise... você tem que lutar — a minha voz saiu rouca, um sussurro desesperado que quebrou o silêncio da UTI. Aproximei o meu rosto da mão dela, encostando a testa nos dedos gelados que eu segurava. — Está me ouvindo? Não desista. Não ouse desistir agora. O fio de luz piscou, como se a alma dela estivesse lutando contra uma correnteza escura. — Não deixe aqueles demônios vencerem, Louise. Você sobreviveu a coisas piores. Você é uma sobrevivente. Você precisa lutar pelo Levi e pelo Luther... — O nome dos nossos filhos fez o meu lábio inferior tremer. — Eles ainda estão aqui. Eles precisam da mãe deles. Eles precisam de você. Apertei os olhos com força. O oxigênio queimou os meus pulmões. — Eu tô aqui... — A confissão rasgou a minha garganta, despida de qualquer título, de qualquer hierarquia ou ego. — Eu preciso... Minha garganta fechou. Uma morsa de chumbo apertou as minhas cordas vocais. A emoção me estrangulou. Droga. Eu não ia chorar. O Alfa Comandante não chorava. O carrasco não tinha o direito de derramar lágrimas pela vítima. Mas os meus olhos queimaram. Uma umidade quente e não convidada embaçou a minha visão. — Louise, eu preciso de você... — implorei, a voz finalmente quebrando em um soluço seco e abafado que ecoou pelas minhas próprias mãos. — Lute pela vida. Por favor... não desista de nós. Não desista de mim. O fio de luz brilhou com intensidade por um segundo, antes de enfraquecer e voltar a ser apenas uma linha fina e quase invisível de magia estagnada. Fiquei ali. Encurvado sobre a cama do hospital. O homem mais perigoso de Costa da Lua reduzido a um menino implorando no escuro, pedindo para que a sua companheira voltasse para o mundo dos vivos. Eu não queria sair daquele quarto. Eu não queria soltar a mão dela. O instinto primitivo mandava eu deitar ao lado dela, envolver o corpo gelado no meu peito e rosnar para qualquer sombra que tentasse levá-la. Mas o mundo lá fora não parava para eu sangrar. O ruído mecânico e insistente rasgou o momento. Meu celular começou a vibrar freneticamente no bolso da jaqueta tática. O zumbido vibrava contra a minha coxa, uma exigência brutal da realidade. Eu sabia quem era. Era o toque de emergência da delegacia. Connor. Ryler. A força-tarefa. Eles precisavam do Comandante. Eles precisavam do monstro que ia caçar os engravatados mascarados que destruíram a mente da minha esposa. O meu lobo rosnou de ódio, dividindo-se entre a fêmea ferida na cama e a caçada por sangue do lado de fora. Soltei a mão de Louise devagar. O frio da pele dela grudou na minha palma. O fio de conexão bruxuleou e sumiu da visão, voltando para o plano espiritual. Encarei o rosto pálido e sereno dela uma última vez, o maxilar travado com tanta força que os meus dentes doeram. Eu ia sair daquele quarto e ia sujar as minhas mãos. Eu ia exterminar cada maldito nome que aparecesse naqueles vídeos. Mas enquanto eu destruísse os monstros dela lá fora, ela teria que travar a pior batalha da vida dela aqui dentro. Sozinha. Virei as costas e caminhei em direção à porta de vidro, com o gosto de cinzas na boca e a alma em frangalhos. A esperança era a última arma que me restava. E, agora, apenas um maldito milagre a acordaria.
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