(POV DE CASSIAN BLACKWOLF)
O céu de Costa da Lua parecia anunciar o próprio apocalipse.
As nuvens de um cinza doentio engoliam a luz, como se a própria cidade estivesse absorvendo os horrores que Connor e eu tentávamos exterminar.
Mais dois corpos apareceram durante esses dias.
Uma jovem e um rapaz. Os mesmos rostos que eu vi gritando nas fitas, suplicando por piedade sob o peso das máscaras negras. O extermínio estava acontecendo lá fora, rápido e silencioso.
E a única sobrevivente definhava na minha frente.
Abri os olhos, o pescoço estalando de dor.
Seis semanas.
Eu dormia e acordava naquela mesma cadeira de plástico da UTI, com o cheiro de antisséptico e éter queimando as minhas narinas até o cérebro latejar. O bipe do monitor cardíaco era o meu único lembrete de que o inferno ainda não tinha vencido.
A pesada porta do quarto rangeu.
Minha mãe, Júlia, entrou em passos curtos. Ela segurava Levi e Luther pelas mãos.
Meus filhos pareciam ter envelhecido anos em um único mês. Os rostos infantis estavam fundos, carregados de olheiras e de uma tristeza que nenhuma criança deveria conhecer.
Eles se soltaram da avó e caminharam até a cama de metal.
O toque hesitante nas mãos pálidas de Louise. As vozes embargadas contando sobre a escola, sobre o vazio da casa.
— A mamãe não ia gostar de acordar com a unha grande, papai — Levi sussurrou, os olhos fixos nos dedos inertes dela. — Ela sempre fazia as unhas.
O meu peito apertou, como se uma mão de ferro esmagasse os meus pulmões.
No dia anterior, Luther trouxe flores amassadas nos punhos miúdos.
— A mamãe gosta de lírios — ele tinha dito, a voz chorosa. — Às vezes ela comprava e colocava em cima da mesa da cozinha...
Eles continuaram murmurando.
Diziam sentir falta das panquecas doces. Lembravam que ela gostava de desenhar na sacada e que, quando achava que ninguém estava por perto, cantava baixinho.
Cada palavra que saía da boca dos meus filhos era uma lâmina afiada rasgando o meu estômago.
Eu ouvia tudo em um silêncio agonizante. A culpa era um veneno ácido correndo nas minhas veias.
Meus filhos conheciam Louise. Eles a viam de verdade.
Eu? Eu a tratei como um fantasma.
Dormíamos em quartos separados e distantes.
Passávamos dias sem trocar uma maldita palavra. Eu morei sob o mesmo teto que ela por cinco anos, e a mulher deitada naquela cama, lutando pela vida, era uma completa estranha para mim.
Eu não sabia dos lírios. Eu não conhecia a voz dela cantando. Eu nunca reparei nas suas unhas ou no seu sorriso.
O Alfa inabalável não passava de um cego arrogante.
O toque suave da minha mãe no meu ombro me tirou da espiral de auto-ódio. O tempo da visita havia acabado. Os meninos se despediram com beijos na testa gélida da mãe, deixando o quarto com os ombros caídos.
O ar ficou ainda mais pesado. Asfixiante.
Vesti a minha jaqueta tática, o couro n***o rangendo no silêncio do quarto. Eu precisava voltar para a delegacia.
Mas a porta se abriu antes que eu tocasse a maçaneta de metal.
A Dra. Aris, a neurologista-chefe da equipe de Alexander, parou no umbral. O rosto dela estava da cor de cinzas. A prancheta de acrílico tremia levemente nas mãos enluvadas.
O meu lobo recuou na minha mente, choramingando.
O cheiro de desespero clínico que emanava dela fez o meu sangue congelar.
— Alfa... — a voz dela era cautelosa, carregada de um peso profissional e fúnebre. — Preciso falar com você antes que saia.
Meu maxilar travou. O pavor me atingiu como um soco direto no esterno.
— Fale.
Ela não desviou o olhar, mas engoliu em seco, como se as próximas palavras queimassem a língua.
— Os exames neurológicos não foram bons hoje. A atividade cerebral da sua esposa sofreu uma queda brusca e silenciosa nas últimas horas.
O chão de linóleo pareceu ceder sob as minhas botas.
— O que isso significa? — rosnei, a voz falhando, revelando todo o meu desespero.
A médica abaixou a prancheta. Os olhos dela não tinham pena, apenas a frieza brutal da ciência.
— Significa que a mente dela desistiu de lutar, Alfa — Aris sussurrou, o som cortando o ar como uma lâmina fria. — Se as ondas cerebrais continuarem caindo nesse mesmo ritmo... temo que não teremos como reverter o processo. O coma se tornará irreversível. Ela nunca mais vai acordar.
O eco da palavra "irreversível" ricocheteava dentro do meu crânio.
A Dra. Aris não disse mais nada. Ela não precisava. A médica fez uma reverência rígida e fechou a porta atrás de si, deixando-me sozinho com a sentença de morte da minha esposa.
Fiquei um longo tempo parado no mesmo lugar, paralisado.
Processando o abismo.
O meu cérebro de predador, treinado para táticas de guerra e sobrevivência letal, simplesmente não conseguia codificar aquela informação.
Louise estava desistindo.
Caminhei a passos arrastados até a beirada da cama de metal.
Meus olhos percorreram o corpo frágil e inerte sob os lençóis brancos do hospital.
Ela era tão jovem. Tão absurdamente jovem.
Nós tínhamos a mesma idade. Vinte e três anos.
A diferença entre nós era uma questão de meses patéticos. Eu fazia aniversário nos primeiros dias do ano, e ela, no final. Éramos apenas dois jovens adultos, mas a vida havia nos triturado de maneiras diferentes.
Eu fui moldado para ser um rei intocável; ela foi moldada para ser um alvo silencioso.
Observei o rosto dela com uma atenção devoradora que eu me neguei por cinco anos.
Os machucados físicos mais brutais, os cortes faciais e os hematomas roxos no corpo, já estavam cicatrizando.
A regeneração lupina, mesmo fraca e reprimida, estava fazendo o seu trabalho de varrer as marcas externas.
As feridas estavam quase desaparecendo.
Mas, mesmo naquele estado deplorável, cercada por tubos, fitas adesivas e agulhas, ela era belíssima.
Era uma beleza crua, melancólica e arrebatadora. E o que mais me rasgava o peito era saber que ela não fazia a menor ideia do quanto era bonita.
Louise sempre se escondeu. Sempre andou de cabeça baixa, vestindo roupas que cobriam a pele, tentando ser invisível.
Essa mesma beleza intocada foi o que sempre dificultou o meu maldito rancor por ela. Eu a odiava por ter sido imposta a mim, mas o meu lobo sempre soube a deusa que tínhamos como companheira. E eu me punia por desejá-la.
Sentei na beirada do colchão, o estrado de aço rangendo sob o meu peso.
Não hesitei dessa vez. Não deixei o orgulho ditar a distância.
Estiquei a mão e peguei a dela.
O choque térmico me fez prender a respiração. A pele de Louise estava gelada. Um frio doentio e cadavérico, como se a vida já tivesse sido drenada e soprada para fora daquele corpo frágil.
Enrolei as minhas duas mãos grandes e quentes ao redor da mão pequena dela.
Esfreguei meus polegares sobre os nós dos dedos dela.
Tentei injetar o calor do meu sangue de Alfa diretamente nas veias dela, tentando doar a minha vitalidade, a minha força, qualquer coisa que a puxasse de volta.
E então, o impossível aconteceu.
A resposta não veio dos monitores, nem da respiração dela, mas da nossa própria essência.
Um calor familiar e antigo formigou na base do meu antebraço.
Abaixei os olhos. O ar entre nós pareceu ondular.
O vínculo que nos conectava, aquele que o trauma havia silenciado e enterrado sob camadas de dor, materializou-se no mundo físico.
Um fio de luz translúcida, circular e etérea, desenhou-se na minha pele. Ele nasceu no meu pulso, brilhando em um azul prateado, e esticou-se pelo espaço vazio até se enroscar no pulso pálido dela.
Era visível. Era mágico. E, contrariando o coma e a morte iminente, era incrivelmente forte.
A marca não estava morta. Ela estava apenas soterrada sob o desespero.
Apertei a mão dela com mais força, sentindo o pulso de magia vibrar contra a minha pele.
— Louise... você tem que lutar — a minha voz saiu rouca, um sussurro desesperado que quebrou o silêncio da UTI.
Aproximei o meu rosto da mão dela, encostando a testa nos dedos gelados que eu segurava.
— Está me ouvindo? Não desista. Não ouse desistir agora.
O fio de luz piscou, como se a alma dela estivesse lutando contra uma correnteza escura.
— Não deixe aqueles demônios vencerem, Louise. Você sobreviveu a coisas piores. Você é uma sobrevivente. Você precisa lutar pelo Levi e pelo Luther... — O nome dos nossos filhos fez o meu lábio inferior tremer. — Eles ainda estão aqui. Eles precisam da mãe deles. Eles precisam de você.
Apertei os olhos com força. O oxigênio queimou os meus pulmões.
— Eu tô aqui... — A confissão rasgou a minha garganta, despida de qualquer título, de qualquer hierarquia ou ego. — Eu preciso...
Minha garganta fechou.
Uma morsa de chumbo apertou as minhas cordas vocais. A emoção me estrangulou.
Droga. Eu não ia chorar. O Alfa Comandante não chorava. O carrasco não tinha o direito de derramar lágrimas pela vítima.
Mas os meus olhos queimaram. Uma umidade quente e não convidada embaçou a minha visão.
— Louise, eu preciso de você... — implorei, a voz finalmente quebrando em um soluço seco e abafado que ecoou pelas minhas próprias mãos. — Lute pela vida. Por favor... não desista de nós. Não desista de mim.
O fio de luz brilhou com intensidade por um segundo, antes de enfraquecer e voltar a ser apenas uma linha fina e quase invisível de magia estagnada.
Fiquei ali.
Encurvado sobre a cama do hospital. O homem mais perigoso de Costa da Lua reduzido a um menino implorando no escuro, pedindo para que a sua companheira voltasse para o mundo dos vivos.
Eu não queria sair daquele quarto.
Eu não queria soltar a mão dela. O instinto primitivo mandava eu deitar ao lado dela, envolver o corpo gelado no meu peito e rosnar para qualquer sombra que tentasse levá-la.
Mas o mundo lá fora não parava para eu sangrar.
O ruído mecânico e insistente rasgou o momento.
Meu celular começou a vibrar freneticamente no bolso da jaqueta tática. O zumbido vibrava contra a minha coxa, uma exigência brutal da realidade.
Eu sabia quem era. Era o toque de emergência da delegacia. Connor. Ryler. A força-tarefa.
Eles precisavam do Comandante. Eles precisavam do monstro que ia caçar os engravatados mascarados que destruíram a mente da minha esposa.
O meu lobo rosnou de ódio, dividindo-se entre a fêmea ferida na cama e a caçada por sangue do lado de fora.
Soltei a mão de Louise devagar. O frio da pele dela grudou na minha palma.
O fio de conexão bruxuleou e sumiu da visão, voltando para o plano espiritual.
Encarei o rosto pálido e sereno dela uma última vez, o maxilar travado com tanta força que os meus dentes doeram.
Eu ia sair daquele quarto e ia sujar as minhas mãos. Eu ia exterminar cada maldito nome que aparecesse naqueles vídeos.
Mas enquanto eu destruísse os monstros dela lá fora, ela teria que travar a pior batalha da vida dela aqui dentro. Sozinha.
Virei as costas e caminhei em direção à porta de vidro, com o gosto de cinzas na boca e a alma em frangalhos.
A esperança era a última arma que me restava. E, agora, apenas um maldito milagre a acordaria.