Avós

841 Words
Cinco minutos depois, eu estava descendo as escadas receosa, me perguntando por quanto tempo eu aguentaria aquilo. Todos já estavam em volta da mesa redonda quando apareci na sala de jantar, o que me fez parecer ainda mais sem graça do que pensava. Me sentei à mesa, num assento que havia sido reservado para mim. Havia um prato de porcelana posto a frente da cadeira, ao lado de talheres milenares e um guardanapo florido. Havia uma teve parecida com uma caixa marrom no balcão atrás de mim, ligada no noticiário das oito, de onde a voz chata e quase eletrônica da jornalista era a única a soar no silêncio perfurado apenas pelo tilintar dos talheres batendo na porcelana. _Sirva-se, _vovó Stela ordenou, afagando o enorme gato cinzento que me encarava com os olhos bem abertos e rosnados ferozes. O ignorei. Não havia almoçado e meu estômago estava doendo de fome. Observei a refeição, sentindo meu estômago se revirar. Uma coisa gosmenta e molhada se mexia na única panela posta na mesa, como se estivesse me olhando. Canja de galinha com molho de tomate. Franzi o nariz. Nos dias em que fiquei mo hospital depois do acidente, aquilo havia sido tudo que eu havia comido, e minhas esperanças de comer comida de verdade esvaeceram ao contemplar aquela coisa pulsante. De repente, eu já não estava mais fome, mesmo que meu estômago ameaçasse me devorar viva de dentro para fora. Levantei os olhos, encontrando o olhar inquisitivo de vovó Stela, que dizia algo como “Como é, vai comer essa droga ou não?”. Servi-me com um pouco de sopa e um pão de queijo, torcendo para não vomitar ali mesmo, principalmente ao me lembrar que as pessoas que mais me odiavam no mundo estavam ao meu redor saboreando da mesma nojenta refeição. Engoli a primeira colherada com dificuldade, ouvindo o barulho chato que meus avós faziam ao engolir. _Ótimo... _Stela disse de repente, entre uma colherada e outra, enquanto seu gato resolvera me ignorar também, se lambendo todo em seu colo. _Vamos deixar isso de maneira bem clara. Temos regras, e se você quiser ficar aqui, eu a aconselho que as siga. Pousei minha colher no prato, suspirando com força, sentindo meus p****s comprimidos pelos botões de minha camiseta branca de moletom e mangas compridas. Uma hora ou outra iríamos ter mesmo que encarar a calamidade de frente. Ter a conversa que eu temia desde o momento em que entrara por aquela porta. _Desde já, você precisa saber que temos horários para tudo. _sua voz era tão detestável quanto seu rosto enrugado _Para acordar, almoçar, e sobre tudo dormir. Somos idosos e necessitamos de nosso descanso acima de tudo. O toque de recolher nessa casa é às nove horas. Em ponto. Nem um minuto a mais, nem um minuto a menos. Se você não estiver em casa até esse horário, precisa saber que vai ficar para fora _ela apontou para a porta de saída, mexendo-se espalhafatosamente, e o gato patético reclamou em seu colo. _Oh, Mordida, tudo bem, mamãe entendeu... _ela afagou o gato, que chiou para ela Franzi o cenho. Será que todas as pessoas ficavam assim ao envelhecer? Eu ficaria assim? Ou havia um motivo em especial para as pessoas me odiarem? Talvez houvesse algo exorbitantemente tenebroso em ser excluída do grupo dos excluídos... Ou peculiar... não havia como saber. _Não quero ser incomodada em nenhum minuto do dia ou da noite, _ela continuou _Se tiver algum problema, resolva você mesma. Eu já criei todos os meus filhos. Nada de música alta, TV em programas absurdos, amigos de arromba na porta e nem mesmo namorados por aqui... ou namoradas... _ela levantou uma sobrancelha. _Sabe, eu espero tudo de você, Perséphone. Talvez você tenha herdado um lado bom que talvez tenha vindo da sua mãe... porque sobre seu pai... Baixei minha cabeça, arfando e sentindo meus olhos arderem. Não de mágoa, mas raiva. Ódio puro, que muitas vezes eu não conseguia controlar nem mesmo se quisesse. _Todos sabem o que aquele i*****l depravado era. Não consigo entender o que a fez deixar do primeiro marido para se casar com Halle. Não me admira que sua filha tenda a puxar pelo seu lado da família. Ele apenas degradou o nome da família ao se casar com Guhay, aquela pobre boba. Se seu pai, aquele cachorro, não tivesse morrido, eu mesma o teria matado... Por baixo dos cílios, voltei meus olhos para ela, sentindo meu rosto esquentando cada vez mais. Meu pai era tudo de bom que eu tinha. Como ela ousava falar dele daquela maneira? Cerrei os punhos por baixo da mesa, sentindo aquela energia estranha correndo por minhas veias e vazando por meus poros enquanto Stela tagarelava coisas absurdas enquanto engolia sua sopa nojenta. A mesma energia que havia me tomado em tantas outras vezes... Minha marca de nascença abaixo da orelha doeu. Por que você não se afoga com um osso perdido no meio dessa sua sopa maldita e me deixa em paz? E foi exatamente isso que aconteceu.
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