-Papai- escutei de longe a voz fina e infantil do Boruto, ele tinha completado três anos e era incrível, sério, não é só por eu ser um pai babão, mas o menino é um gênio- Papai.
Ele correu em minha direção, Hinata apareceu alguns passos depois sorrindo, o pequeno desviou com alguma dificuldade os móveis que estavam na sala e pulou em meu colo todo sorridente. Eu o apertei como sempre fazia, nem sei descrever o quanto eu amo esse garoto.
-Tudo bem meu pequeno?- ele riu como sempre fazia e Hinata chegou- Tudo bem meu amor?- perguntei, dessa vez falando com ela.
-Tudo sim meu bem- ela disse me dando um selinho- Ele quis vir te ver, espero não estar atrapalhando nada.
-Não está, como anda a criação?
-Eu estava tentando fazer alguma coisa hoje, mas esse mini Naruto não deixou.
Nós dois olhamos pra ele que ria sem parar.
-Vem, vamos dar uma volta.
Eu levantei e peguei ele no colo, Hinata veio ao meu lado. Já fazia um tempo que ela não vinha aqui e bem, algumas coisas já tinham mudado.
-Essa é a turma do Lee- eu abri a porta e nós entramos sorrateiramente, os alunos estavam todos concentrados no que o Lee dizia, até um deles me ver.
-Diretor- uma menina gritou e todos vieram me abraçar.
Era uma turma legal, tinham entre oito e dez anos. Boruto não perdeu tempo, me forçou a colocá-lo no chão para que pudesse fingir que estava lutando ao lado do Lee. Eu e a Hina ficamos encarando ele brincando de ser professor enquanto dava piruetas e rodava sem parar.
-Quando é a consulta dele? Eu quero ir com você.
Boruto não costumava brincar com os outros diretamente, assim como está fazendo agora, ele dizia poucas palavras, ele não nos olhava nos olhos e não aceitava muito bem o toque de outras pessoas. Suspeitávamos de uma coisa, mas não era certeza. Mas mesmo com tudo isso ele era incrível, os joguinhos educativos que tinham em casa ele conseguia resolver todos, até os quebras-cabeças, tudo bem, eles tinham entre quatro e seis peças, mas mesmo assim, ele era um gênio.
-Na semana que vem, na segunda- eu passei um baço em seu pescoço, a puxando para mais perto- Está com medo?
-Eu não, independente de qualquer coisa ele é o meu filho e eu o amo muito, talvez eu possa amá-lo mais ainda.
Hinata me abraçou forte.
-Eu te amo muito- ela disse- Fico feliz por ter você ao meu lado.
Eu sorri e dei um beijo em sua cabeça.
-Tudo bem Boruto, vamos.
E ele veio como sempre fazia, ele era um garoto obediente. Eu os levei de volta para a minha sala.
-O que querem almoçar? Está quase na hora do almoço.
-Italiana?
-Por mim tudo bem e pra você Boruto?
-Também.
-Então vamos.
Peguei minhas coisas e fomos no carro da Hinata. Foi tudo certo, pedimos a comida, mas em algum momento a Hinata pareceu ficar pálida.
-Está tudo bem Hina?
-Está sim- ela fechou o olho- Eu vou ao banheiro- e levantou correndo.
Nem pude ir atrás dela, num pulo ela já estava longe, resolvi esperar enquanto dava a comida para o Boruto, mas quando ela começou a demorar de mais eu comecei a ficar preocupado, liguei, mas ela tinha deixado tudo na mesa então chamei uma garçonete.
-Oi- eu disse a moça me olhou de uma forma estranha.
-Olá, precisa de alguma coisa?
-Sim eu…
-Qual quer coisa- disse sorrindo... Maliciosamente?
-Eu preciso que você vá até o banheiro ver se minha esposa está bem.
-Esposa?- o sorriso dela murchou.
-Sim, ela se chama Hinata- peguei meu celular onde a tela de bloqueio era uma foto de nós três- Essa aqui- e mostrei pra ela.
-Não precisa meu bem- escutei a voz dela atrás da moça.
-Tudo bem então- ela olhou com cara de desprezo para a Hina.
-Os anos passam e você continua chamando atenção.
-Eu falo o mesmo pra você- disse olhando para um homem na mesa ao lado que não tirava os olhos da MINHA MULHER.
Ela sorriu e se sentou.
-Mas está tudo bem? Você demorou de mais.
-Estou, deve ser só um m*l estar.
-Quer que te leve para casa?
-Seria ótimo, mas vamos esperar o Boruto terminar, não é todo dia que ele come com essa vontade, ela disse e eu olhei para nosso filho, ele estava com a cara toda suja de molho do seu nhoque, não aguentei e comecei a rir, e ele fez o mesmo.
Assim que chegamos em casa Boruto correu (ou tentou) para o seu quarto, e nós fomos atrás, lá ela se sentou na poltrona e fechou os olhos e eu fui dar um banho no meu príncipe.
Quando voltamos para o quarto ela estava dormindo, numa posição não muito confortável. Eu em silêncio coloquei Boruto na cama para um cochilo e quando ele também fechou os olhinhos eu fui até a Hina, a peguei no colo e fui até o nosso quarto, coloquei na cama e me deitei ao seu lado.
Como é possível alguém ser tão linda assim? Os cabelos dela continuam grandes e lindos, ela sempre cheira a flores tem a pele mais macia do mundo. Hinata costuma fazer bolinhos todo domingo de manhã, ela coloca o Boruto para dormir com uma musiquinha que ela mesma fez, ela me coloca para dormir depois de várias sessões de beijos. Ela é simplesmente perfeita.
***
Hinata
-Hina, você tem que ir ao médico- Kushina que estava aqui em casa e repetiu pela milésima vez hoje- Eu estou aqui.
-Sabe que o Boruto não fica bem quando eu ou o Naruto não estamos por perto.
-Ele vai ficar bem, não se preocupe.
-Ok, então eu vou.
Eu suspirei vencida, ainda era umas 9h da manhã, o Naruto tinha saído a pouco tempo e eu não me sinto bem desde quando acordei. Liguei para Ino que logo me atendeu, expliquei que precisava passar lá agora se ela teria um tempinho pra mim, felizmente ela tinha, então eu peguei o carro e fui.
***
-Hinata- Ino dizia com um sorriso no rosto, um enfermeiro tinha acabado de entregar os meus exames pra ela, que olhava para os papéis.
-O que?- eu estava nervosa.
-Você…
Naruto
Eu inexplicavelmente, talvez não tanto, passei o dia querendo voltar pra casa logo, fiz de tudo para fechar a academia cedo, como a última aula de hoje terminava às 16 eu deixei tudo pronto, assim que o último aluno saiu eu tranquei tudo e fui pra casa. Não sei explicar, eu estava nervoso e nem sei porque. Assim que abri a porta tudo estava vazio.
-Hinata?- deixei tudo na sala e fui em direção a cozinha.
Na geladeira estava escrito “Praia” então eu fui até lá.
Hinata estava sentada numa cadeira e Boruto brincava com a areia, ela estava com alguma coisa na mão, não consegui ver direito, acho que preciso de óculos. Fui caminhando até lá, ela se assustou quando me viu, Boruto correu para me dar um abraço e logo voltou a brincar. Me sentei na ponta da espreguiçadeira.
-Está tudo bem?- ela confirmou com a cabeça.
Mesmo com o chapéu, a brisa fazia os fios do cabelo dela balançar, nossa eu sou muito apaixonado por ela.
-Você é linda- eu disse, levei minha mão até sua bochecha, ela recebeu o carinho de olhos fechados e um sorriso enorme nos lábios.
-Obrigada, Naruto.
-Oi.
-Eu tenho uma notícia, não sei se boa ou r**m com tudo o que está acontecendo e com o provável diagnóstico do Boruto.
-Aconteceu alguma coisa?
-Comigo não… Quer dizer sim.
-Calma Hina, pode falar.
Ela não falou, ficou me olhando e lentamente me entregou o que estava segurando, era um papel, ele estava enrolado numa fitinha rosa. Eu, claro, não entendi. Mas assim que abri a fui lendo percebi, já tinha lido um papel daquele, quando ela me falou da gravidez do Boruto. Olhei pra ela e olhei para o exame e de novo pra ela, as lágrimas começaram a deixar a minha visão embaçada.
-Vamos ter outro filho?- disse com a voz embargada no choro e ela só concordou com a cabeça e então eu desabei.
-Está feliz?- ela perguntou me abraçando forte.
-Muito.
Nos soltamos do abraço e eu olhei pra ela sorrindo, desci meu rosto até sua barriga e falei baixinho.
-Oi bebê, é o seu papai. Eu estou muito feliz de ter feito você e por mais que tenha acabado de descobrir eu já te amo muito, estou ansioso para ter você em meus braços.
Hinata riu e eu a abracei mais uma vez.
***
-Bom- quem nos atendeu foi a Tsunade, a avó do Naruto. O Boruto já tinha passado por um pediatra, uma psicóloga, uma neuro e um fono, hoje chegou o resultado de todos os exames- O diagnóstico do Boruto já era esperado eu acredito.
-Sim- Hinata disse baixinho, por mais que fosse esperado não era fácil de ouvir.
-Ok, Boruto foi diagnosticado com TEA*, eu acredito que vocês já tenham pesquisado muito sobre o assunto, mas eu preciso falar, o TEA (Transtorno do Espectro Autista) não é uma doença, por isso não tem cura, é só uma condição. Vocês vão ter que colocá-lo em alguns tratamentos para que ele possa desenvolver melhor o comportamento e a fala que é o mais preocupante no momento, ele está entre o leve e moderado, mas isso não é r**m. Eu aconselho vocês a colocá-lo numa creche já que ano que vem ele já vai para a escola, não precisa ser o período todo, eu sei como vocês são apegados a ele, mas é o melhor a se fazer agora.
-Nós já esperávamos por isso vovó, bom- eu estava meio desnorteado- Eu vou preparar as coisas para que ele possa dar início as coisas o mais rápido possível.
-Qualquer coisa estou a disposição de vocês.
-Obrigada- Hinata disse se levantando.
Na volta o silêncio dentro do carro me incomodou, Boruto ficou em casa com a mamãe e a Naomi. Mas assim que estacionei o carro escutamos o choro dele. Hinata num pulo saiu do carro e entrou em casa, eu cheguei a tempo de ver a cabeleira loira pular no colo da mãe e a abraçar com força, aos poucos o choro foi passando, agora eram só fungadas, as mãozinhas dele ainda apertavam forte a blusa da Hina.
-Ele estava bem, mas perguntou de você e começou a chorar.
-Tudo bem mãe, sabemos que não é culpa sua- ela concordou com a cabeça- Naomi? Como vai a minha sobrinha preferida?- ela sorriu.
-Bem tio- ela já tinha 7 anos e estava imensa, vai puxar a mãe.
-Bem, eu vou dar um banho nele e tentar fazer ele dormir. Quer ir pedindo alguma coisa para o almoço Naru?
-Pode ser.
Ela subiu e eu olhei para a minha mãe, ela tinha os olhos vidrados em mim.
-É exatamente o que pensávamos- ela suspirou- Mas vai dar tudo certo, a vovó aconselhou a matriculá-lo numa creche.
-Bom, então vamos ver uma que possa atendê-lo bem- ela sorriu- Ele é um menino especial meu filho, quando eu olho pra ele vejo o amor com perninhas gordas- eu sorri, porque penso o mesmo- Vem, vamos pedir alguma coisa.
***
-Naruto- era madrugada- Naruto- a Hinata me acordou com pequenas batidas- Acorda- sua mão apertou em meu braço muito mais forte e eu me sentei, seu rosto estava contorcido em dor- Acho que está na hora
-Na hora de que?
-A Hima- outra vez- Ela está vindo.
Eu arregalei os olhos. Hinata estava de 9 meses, na verdade o nascimento da minha pequena atrasou dois dias, ou três se contarmos de já passou da meia noite. Mas acho que agora ela quer conhecer a família.
-MEU DEUS- Eu pulei da cama- Vamos Hina- cheguei ao outro lado dando o braço pra ela conseguir levantar- EU VOU PEGAR A BOLSA.
-Eu vou tomar um banho.
-Que banho o que? NOSSA FILHA ESTÁ NASCENDO- disse já saindo do quarto e indo até o quarto dela onde estava tudo preparado para sua chegada. Fui até o quarto do Boruto, minha mente está a milhão, como será que ela vai ser? Tomara que seja parecida com a Hina, vão ser duas princesas na minha vida.
No dia em que descobrimos que ia ser uma menina eu chorei feito uma criança, eu queria muito uma menininha para que eu possa brincar, ela vai pintar minhas unhas e fazer maquiagem em mim? Ou ela vai querer brincar de heróis? Ou jardinagem? Professora? Ela vai ficar lá falando e eu vou ser o aluno, nós vamos tomar chá e sair de patins por aí, ela pode dançar balé ou andar de skate, imagina? Ela vai arrasar em qualquer coisa que escolha fazer.
Peguei o Boruto no colo, ele ainda é bem leve, por conta do TEA ele é bem seletivo com a comida, mas estamos trabalhando isso, coloquei ele na cadeirinha, o coitado ainda dormia, coloquei a bolsa da Hima ao lado dele e fui até o banco do motorista. Abri a garagem e saí, eu precisava ir rápido, a Hinata está com muitas contrações.
-Está tudo bem amor?- Perguntei olhando para estrada, passava todos os sinais vermelhos sem me importar- Amor?
Olhei rapidamente para o banco do carona e a Hina não estava nele.
-Meu Deus, eu esqueci minha mulher.
Peguei o primeiro retorno e voltei mais rápido ainda, ela estava sentada num banquinho na garagem quando cheguei. Sem dizer uma palavra e com um sorriso enorme no rosto ela entrou, foi só eu acelerar que ela começou a gargalhar.
-EU NÃO ESTOU ACREDITANDO NISSO.
-Hina, não ri. Ela já está saindo?
-Ela está bem, vai mais devagar. Quer matar a gente?
Ela olhou para trás, conferindo o Boruto que ainda dormia, como uma pedra.
***
-Ela é linda- eu disse olhando para a pequena cabeleira preta nos braços da Hina, mamando com força.
-Sim.
-Veio igual você, ainda bem.
-Porque?
-Não ia aguentar mais um de mim naquela casa.
-Hinata riu.
Assim que a pequena terminou o Boruto acordou. Escutei os resmungos dele que avisam quando ele está prestes a chorar, corri e o peguei no colo antes que isso acontecesse.
-Oi príncipe, papai está aqui.
-Mamãe- ele disse resmungando.
-Ela está deitada olha- apontei para onde ela estava- Quer conhecer sua irmã?
Ele confirmou com a cabeça e eu o levei até lá. Assim que Boruto viu o pequeno pacotinho amarelo seu olho brilhou, o coloquei sentado na cama ao lado da Hina, ele olhava com fascinação para o bebê, e começou a fazer carinho delicadamente.
-Ela é linda- ficou um tempo em silêncio- Ela vai ficar desse tamanho pra sempre?
-Não meu amor- Hinata respondeu sorrindo.
-Você também já foi desse tamanho- eu disse puxando a cadeira para mais perto da cama.
Ele arregalou os olhos.
-Já?
-Sim, era igual, só que tinha o cabelo loiro.
-Igual ao seu papai- ele disse apontando pra minha cabeça.
-É, igual ao meu- eu sorri.
***
Quando os anos passam e a gente chega em uma determinada idade é fácil parar para olhar para todo o seu passado, e agora, olhando o meu eu me sinto totalmente realizado, já passei por altos e baixos, eu chorei e sorri, entrei em luto e me apaixonei. Olhando daqui, onde eu tenho uma esposa maravilhosa, dois filhos lindos, uma nora incrível e uma genro (não tão incrível) penso que tudo foi necessário, tudo o que eu passei foi uma lição de vida que eu tive o privilégio de aprender.
Eu nunca fui tão grato, grato pela minha vida e por cada coisa que eu tenho, não as coisas materiais, porque isso é o que menos importa. O que eu quero dizer é, toda a paz de espírito que eu tenho agora que um dia eu não tive, quando eu olho para o Naruto de anos atrás, angustiado, sem saber o que fazer parece que estou olhando para outra pessoa.
-Tudo bem?- a voz doce da minha Hime se fez presente, olhei para o lado onde ela estava sentada em sua espreguiçadeira.
Agora com os cabelos curtos e com mais idade a Hina consegue ser ainda mais bonita, ela não perdeu o brilho dos seus olhos e eu sou grato por isso porque enquanto os olhos dela estiverem brilhando os meus também vão estar.
-Tudo ótimo.
-Ta pensativo.
-Lembrando de tudo, sabe?
-Sei- ela se virou para frente, olhando o mar a nossa frente- Eu te amo.
-Eu te amo mais.
Nós sorrimos e eu me inclinei para poder dar um beijo nela.
-Os anos passam e nada muda.
Olhei para trás e vi Boruto com a Sarada, que era filha do Sasuke com a Sakura, eles se conheceram na escola. Já o pateta que estava do lado dele era Inojin, filho da Ino com o Sai, o bendito conseguiu levar minha filha de mim.
-Meu amor pela sua mãe só cresce.
O Boruto melhorou muito com todos os tratamentos, claro, ele ainda não olha por muito tempo nos olhos, nem gosta muito do toque e quando está concentrado ninguém consegue ter a sua atenção, mas de qualquer forma ele é um excelente arquiteto, a pequena Hima (ela continua pequena, igual a mãe) é uma das minhas melhores professoras na academia, não deixe esse rostinho lindo te enganar, ela luta muito bem.
-Vamos? Já terminamos o almoço- o Inojin disse sorrindo.
Os quatro foram os responsáveis pelo almoço de hoje. Eu realmente nunca estive tão feliz na minha vida.
Sorri me levantando, os dois já tinham virado as costas voltando para casa, dei a mão para a Hina que sorriu e se aconchegou em mim.
Ta vendo? É exatamente por momentos assim que eu sou grato.
-Eu te amo- disse no ouvido dela.
-Você já falou isso- ela disse sorrindo.
-Eu nunca vou me cansar de dizer.
-Eu também te amo.
Demos um selinho e voltamos a caminhar.
Eu tenho muitas cicatrizes, no coração e na pela. Fui marcado pela vida, pela guerra, mas hoje tenho os melhores remédios para que elas possam ser curadas.