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2120 Words
Ema Nada como outro dia para levantar o humor, principalmente se for sábado e tudo que eu quero pra hoje é pegar minhas coisas e passar o dia com minha mãe. Faria isso se ela permitisse, ela está ocupada de mais com suas biritas para dedicar um pouco do seu tempo a filha. Abro a porta assim que escuto a campainha, Mel e Cristina surgem com a cara mais deslavada do mundo. As duas malucas são minhas amigas e moram em Mosqueiro, uma ilha próximo a cidade. — Bom dia, delícia! — Mel fala ao me abraçar. — Gostosa! — Cristina exclama ao dar um beliscão no meu traseiro. — Bom dia gatonas! — Desejo assim que as duas passam pela porta. — Estava arrumando as coisas para passar o dia com vocês na praia, nem sabia que estavam na cidade. — falo assim que elas se jogam no sofá. Vou falar um pouco sobre minhas amigas/irmãs/malucas. Elas são demais e lindas . Mel é n***a, alta, cabelos afro, cor de mel, esbelta e de popô avantajado. Já Cristina é baixa de cabelo curto loiro, olhos verdes e corpo de violão. Crescemos juntas. Desde o Jardim I até o ensino médio. Mel estuda na UFPA, faz serviço social e Cristina, bem, ela é um pouco mais ousada, é stripper. Eu sou ruiva, branca e tenho duas tatuagens, uma em cada braço. Mel vai até a geladeira, pega uma jarra com água e uma bandeja de comida congelada. — Passamos a noite na farra e como você avisou com antecedência que iria pra casa pois queria curtir um dia na praia, viemos para te dá uma carona. — Cristina explica. Mel coloca a bandeja no microondas. — Estavam no Vadião? — pergunto, as duas começam a rir. — Está tão óbvio assim? — Cristina pergunta. — Sim e pelo jeito que a Mel está com fome e não para de beber água, tomaram um porre daqueles. — falo. Mel mostra a língua e entrega um copo com água para Cristina. — E você? Pela maneira que está a sala, passou a noite comendo e vendo The Walking Dead. Por que está deprimida? — Cristina pergunta séria ou quase, minha amiga gosta de viver La vida loca. — Não estou deprimida. Comer e fazer maratona de The Walking Dead é meu hobby preferido. — me defendo, evitando olhar para as embalagens espalhadas ao redor do sofá. Mel e Cristina dão aquele olhar de cumplicidade. — É seu hobby favorito quando está deprimida, senão teria passado a noite de sexta em um asilo fazendo companhia para idosos abandonados pela família. — odeio quando Mel é irônica. — As pessoas do asilo são muito gentis. — retruco. Cristina se ajoelha no sofá e começa a fazer careta e a abrir e fechar as mãos me imitando: — Blá blá blá … as pessoas do asilo são tão gentis e velhas, blá blá blá. Muda esse disco. — desdenha do trabalho voluntário que faço na estrela guia. — Você é sempre tão positiva, vê o lado bom e vantagem em tudo, mais nunca vejo você se divertir de fato Ema. — Mel completa o discurso sem graça da Cris. — Me divirto quando estou com vocês, — falo em minha defesa. — quando não estão sendo maldosas. — Ou quando não está sendo capacho do casal D. — Cris acrescenta. — Cris! — a repreendo. Odeio quando ela debocha do meu chefe e da sua esposa. — Quando foi a última vez que transou? — Cristina pergunta ignorando o que acabei de falar. Sinto meu rosto corar. — Não sei por que pergunta.Você sabe muito bem que a Ema é virgem. — Mel tira sarro. As duas começam a rir ao perceberem que estou igual a um tomate. — Não esquenta amiga, sabe que estamos brincando. — Mel fala de boa. Me sento ao lado de Cristina no sofá. — Tudo bem, já estou acostumada com suas piadas e brincadeiras sem graça. — falo sem rancor. — Estamos tentando levantar seu humor. — Mel se justifica. — Nossa! Conseguiram! — ironizo. O microondas apita e Mel tira a comida. — Nossa, isso tem cheiro de vômito, mas estou com fome vai isso mesmo, servidas? — Mel oferece. — Eu quero. — Cris dá um pulo do sofá e ataca a bandeja. — Enquanto comem, vou me arrumar. — Aviso. — Não demora. — Ambas falam com a boca cheia. São duas cabeças ocas mais são minhas amigas apesar das asneiras que falam. Coloco meu biquíni, visto um short Jeans surrado e uma camiseta azul de tom claro. Pego meus óculos escuros e minha bolsa de crochê azul. Faço um r**o de cavalo e passo um batom rosa claro e estou pronta. Calço uma sandália rasteira, volto pra sala e as duas songa-mongas estão arrumando a bagunça que fizeram na minha minúscula cozinha. — Estou pronta. — aviso. Cristina coloca as jarras que acabou de encher na geladeira, Mel passa pano no balcão. — Vou ligar para o Bruno pra ele vim pra cá. — Cris fala ao pegar o celular. Não demorou para o tal Bruno atender, pois ela logo falou. — Já estamos prontas. Vamos esperar você em frente ao prédio. Sim, o tupinambá. Beijos, saudades. — logo desliga e com um sorriso safado ela fala. — Meu crush já está a caminho, vamos descer. Ela pega a bolsa e corre pra porta, Mel e eu vamos logo atrás. — Quem é Bruno? Pensei que estava com o Jorge? — Pergunto ao fechar a porta do meu AP. *** A praia! Finalmente a praia! No momento que sinto a areia sob meus pés saio correndo até tocar a água gelada. — EI, CRIANÇA? NÃO ESQUECE O PROTETOR SOLAR! — Mel grita um pouco distante. Não ligo, minha bolsa fica pelo caminho e então entro na água. Passei o dia dentro da água boiando, mergulhando, mas tudo onde meus pés pudessem alcançar, por que eu não sei nadar. Só saí da água para comer um lanche que Mel me chamou para comer. Voltei pra água e só saí de lá quando a maré baixou por completo. Ao fim do dia sentei na areia para sentir a brisa do praia, nem posso dizer do mar pois as praias da ilha de Mosqueiro são banhadas pelo rio Pará. Fechei os olhos com o intuito de escutar o vento, o farfalhar das árvores, os pássaros cantando e a bagunça bem atrás de mim. A risada estrondosa de Cristina e a risada esganiçada de Mel, o violão que Bruno toca, acompanhando a música que Anderson canta. “Nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia. Tudo passa tudo sempre passará. A vida vem em ondas, como um mar Num indo e vindo infinito. Tudo que se vê não é, igual ao que a gente viu a um segundo. Tudo muda o tempo todo no mundo. Não adianta fugir, nem mentir pra si mesmo agora. Há tanta vida lá fora. Aqui dentro sempre. Como uma onda no mar. Como uma onda no mar. Como uma onda no mar.” Meu corpo balança ao som da melodia, afastando toda tristeza e preocupação que estavam tentando tomar conta de mim devido ao trabalho. Abro os olhos, sorri admirando a magnífica vista à minha frente, lembranças do meu pai surgem na minha mente. A última vez que o vi, eu tinha onze anos. Ele me trouxe nessa praia, depois desse dia, do melhor dia da minha vida, não voltei a vê-lo e minha mãe entrou em uma depressão profunda. Felizmente, não fui afetada pela depressão de dona Natália, mas nossa relação sim. *** Só olhei o celular quando cheguei em casa. Usei a câmera fotográfica para bater as fotos, haviam sete chamadas perdidas de Danilo e duas da dona Daniela. Isso não é normal. Bem, do garotão sim, mas, a tia Dani só liga para mim quando há uma emergência. Respiro fundo, chego a conclusão que um banho será muito bem vindo e que somente por hoje o casal D pode lidar com o filho sem a minha intervenção. Largo o celular em cima da cama e corro para o banheiro, de onde sai meia hora depois, visto meu pijama de oncinha, não me enxuguei pois aqui em Belém é tão quente que prefiro ficar molhada para manter a pele refrescada por mais um tempo. Me jogo na cama, estou exausta. *** Acordo com fortes batidas na porta e da campainha que toca insistentemente. Nossa… eu juro que eu mato o Danilo. Olho no celular, são três e vinte da manhã. Hoje ele passou dos limites! Visto meu robe e vou atender a bendita porta. Tinha tanta certeza que era o garotão que não olhei pelo olho mágico, dando de cara com o pesadelo da minha vida, Daniel Silva. Acho que paralisei de medo e surpresa. — Você é surda? Não ouviu a campainha? — pergunta furioso, entrando no meu apartamento sem ser convidado. Ele é tão alto que sua cabeça fica a apenas alguns centímetros de bater no teto. Cheio de desdém olha em volta fazendo uma careta, sinal que odiou meu aconchego. — Cadê aquele moleque i****a? — pergunta irritado. — Que moleque? E o que faz na minha casa a essa hora? — eu pergunto ignorando a pergunta dele. — Mas é uma anta mesmo. — Me retraio com a ofensa. — estou falando do seu protegido, o imprestável do meu irmão. Ele está impaciente e com raiva, até agora nenhuma novidade. — Não falo com ele desde sexta-feira. — respondo quase em um sussurro. — e apesar de entender que deve está preocupado com o seu irmão, isso não te dá o direito de bater na minha porta a essa hora da madrugada e ainda por cima me ofender. — falo enquanto tenho coragem. Ele passa a mão no cabelo o levando para trás. — Sem drama, isso não aconteceria se atendesse a p***a do celular. — mas é um s*******o mesmo, agora ele fala como se a errada fosse eu. — Tem ideia de onde ele possa ter ido? — olha em volta de novo como se duvidasse de mim, coisa que não duvido. — Não senhor. — respondo. Nesse exato momento escuto Bang tocar. É meu celular. Salva pelo Gongo, esse homem me deixa muito nervosa. — Com licença. — peço indo para o quarto pegar o aparelho. — Alô?— pergunto ao atender. — Ema, estou com um problema, pode me ajudar? — Danilo parece nervoso. — O que você aprontou agora? Onde você está? — pergunto o mais baixo que consigo. — Estou preso, mas não vou ligar para o papai, ele vai me matar. Por favor Ema, me tira daqui. — implora. — Como isso aconteceu? — pergunto. — Fui parado em uma blitz. Estava de moto, sem carteira, passando um pouco do limite de velocidade, sem mencionar que eu bebi um pouquinho. — Danilo você é um irresponsável, que delegacia está? — pergunto já procurando minha bolsa para sair de casa. — Seccional do Guamá. — Estou indo. — ele desliga. Vou precisar de um responsável legal por ele, será que Daniel vai querer pagar a fiança do irmão? — Eu não tenho todo tempo do mundo, vai ajudar a encontrar aquele moleque ou vai voltar a dormir? — ele entra no quarto cheio de autoridade como se fosse minha responsabilidade saí no meio da noite para procurar pelo garotão. Eu sou um capacho mesmo. Olho para o homem sem coração. — Era ele no telefone. — Sussurro. Daniel cruza os braços — E? — pergunta. — Ele foi preso por dirigir sem carteira, ultrapassando o limite de velocidade e bêbado. Seus olhos dilatam de ódio. — Sabe a delegacia que ele está? — pergunta contendo a voz. — No Guamá. — abraço meu corpo, amedrontada. Daniel está com raiva e já até sei em quem vai descontar. — Vamos. — fala me pegando pelo braço com certa força e apressado. — Mas estou de pijama. — protesto. — Ninguém vai olhar para você, nem para o que está vestindo. Onde está a chave desse cubículo? — Atrás da porta da sala. — respondo. — eu não posso aparecer numa delegacia de polícia vestida como uma garota de programa. — protesto. — Já disse que ninguém vai olhar pra você, ainda mais vestida como uma vovó — retruca. Minha vontade é de acertar uma voadora nesse bruto sem coração. Até hoje não entendo o que fiz para que esse homem me trate com tamanha grosseria. Ele me coloca de lado e tranca meu pequeno apartamento.
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