Sentada no meu escritório, já era noite e o relógio marcava quase 22h da noite, estava exausta, mas precisava deixar tudo arrumado e adiantado, estava com um voo programado para a França e passaria uma semana em Cannes, num dos melhores hotéis, eu tinha que aproveitar o dinheiro da venda da minha casa antiga, iria sozinha e estava radiante em poder desfrutar da minha própria companhia, me levantei e peguei minha bagagem e minha bolsa e saí trancando tudo, e desci, meu táxi me esperava, sorri e o motorista pegou minha bagagem e o meu celular vibrou, antes de entrar no carro, o procurei na bolsa e atendi, mas não escutei nada do outro lado, estranhei, vi que o numero era restrito e desliguei, ao levantar a cabeça quando guardei o celular, um homem rendia o motorista, outro tirava minha mala do porta malas e outro me puxou para andar, fui tomada por um choque e não consegui reagir, estavam armados e não demonstravam que pretendiam desistir, eu estava sendo sequestrada literalmente, me colocaram em uma van, colocaram um capuz em minha cabeça e senti uma picada em meu pescoço, gritei de dor, mas logo apaguei e não vi mais nada.
Acordei com uma brisa leve entrando pela porta da varanda, cheguei a pensar que estava em minha casa e na minha cama, que tudo não passou de um pesadelo, a cama era convidativa e o lençol que me cobria era leve e macio e cheirava a flores, me mexi na cama e agarrei o outro travesseiro e suspirei me sentindo leve e confortável, abri os olhos, fiquei um tempo tentando me lembrar de onde eu realmente estava, e aos poucos fui despertando, o dia estava claro lá fora e ao pé da cama Renzo sentado em uma cadeira me observando, quase caí da cama quando o vi me levantando rápido assustada, meu coração quase explodiu, eu ofeguei e muito, ele estava tranquilo e passivo e me olhava com carinho e ainda decepcionado, não sei se comigo ou com ele.
"O que está fazendo aqui?", perguntei tentando me acalmar, puxando o lençol para me cobrir.
"Você não me deixou opção Victória... Eu te sequestrei!". Ele não se moveu da cadeira.
"E você fala assim com a maior cara lavada que me sequestrou?... O que pensa que está fazendo Renzo!?".
"Eu amo você e preciso que me escute... Depois disso, você pode fazer o que quiser!".
Ri e sacudi a cabeça, "O que fez é imperdoável e não vou voltar... Então nem perca o seu tempo em se explicar!".
Abracei os joelhos, eu percebi que estava usando a mesma camisola que ele tinha comprado para mim no dia que ele me bateu, ela era nova e acho que ele queria reviver o momento, mas de um modo diferente, do jeito que era para ter sido.
"Mesmo assim eu vou me explicar... Afinal de contas, eu mereço ser ouvido!".
"Descordo!", o encarei, eu não tinha o menor desejo por ele, o menor amor e muito menos admiração.
"Eu sei que errei... Que não quis te escutar!", ele se levantou e foi até a porta da varanda, passou as mãos pelos cabelos que estavam mais compridos, "Eu preferi escutar aquele cara, do que você que sempre foi leal e dedicada a mim e a Priscila!", ele se virou para mim, "Eu sinto muito... Eu estou arrependido do que fiz e por isso eu"... Ele fez uma pausa e veio até mim, pulei da cama para o outro lado justamente para ele não me tocar, ele parou com a mão no ar, seus olhos se encheram de dor, mas eu tinha medo dele, "Eu contei a minha mãe e ela me ajudou a procurar um profissional... Estou fazendo terapia, por que eu quero ser um homem melhor, não só para você como para a minha filha!".
Seus lábios tremeram, ele estava a ponto de chorar, mas fiquei parada do outro lado da cama escutando o que dizia, eu estava começando a ficar confusa e isso não era bom, eu não podia abrir mão de mim mesma e me jogar nos braços de um homem que eu mal conheço, então ele continuou.
"Eu fui a traz das imagens... Eu vi o quanto lutou para tirar ele de seus braços...Eu fiquei arrasado por não... Acreditar em você!", ele se sentou na cama de costas para mim, "Margareth sempre me traía, eu a punia e ela aceitava e nunca foi embora... Por algum motivo achei que faria a mesma coisa... Mas eu estava completamente enganado...Você e doce, gentil, engraçada, fiel aos seus princípios e valores e nunca imaginei que fugiria da forma que fugiu de mim... Achei que iria um dia me encarar e me escutar, mas você seguiu em frente e eu e Priscila estacionamos!".
"E só por que está me dizendo que viu as imagens que agora acredita em mim?", fiquei chocada, "Nunca dei motivos para você duvidar de mim, do meu carinho por você... Eu aceitei me casar com você naquele mesmo dia... Você acha que só por causa disso eu iria cair nos braços de outro homem?... Por quê?... Dinheiro?... era isso que passa pela sua cabeça?... Que estava com você por que é rico?".
"É sempre assim Victória!... As mulheres que sempre se aproximaram... era por dinheiro, fama e mordomia!". Ele girou na cama, apoiando a perna e me olhou, a decepção ainda morava em seus olhos, "Sinto muito!... Eu só enxerguei isso tarde demais... Eu já estava podre por dentro, minha mente estava poluída por"... Ele fez uma pausa tentando achar uma palavra, mas não conseguiu e me olhou, "quero começar tudo de novo!".
"Eu não quero... Eu quero ir para a minha casa, para a minha vida e para os meus amigos e esquecer que um dia eu te conheci!".
Renzo tirou um envelope da gaveta do criado mudo e jogou na cama e empurrou com o dedo e tocou duas vezes com o indicador, "Priscila está muito mudada... Ela está decepcionada comigo... Eu tive que contar a ela o que aconteceu entre a gente... Ela se mudou para o campus... Disse que não pode viver comigo... Que eu a magoei e magoei você o suficiente para não ser mais sua amiga!", Renzo tirou os óculos e passou os dedos neles, "Ela está me roubando... a mãe está se aproveitando de sua fragilidade e arrancando dinheiro dela... Não consegue se controlar... E voltou a vomitar e está magra novamente... Eu não sei mais o que fazer e sinceramente... Até eu estou desistindo de tudo!".
"Você acha que eu vou salvar vocês?", eu disse ríspida, "E quem é que me salva?... Quem é que vai me defender todas as vezes que achar que eu te traí ou que sei lá o que se passe na sua cabeça!".
"Eu sei que tem medo de mim e eu sinto muito!", ele novamente empurrou o envelope, "Quero que leia esse contrato, isso é uma minuta pré-nupcial, aí explica tudo que precisa saber e como se proteger de mim!", ele se levantou e foi até a porta da varanda e apontou lá para baixo, "Nosso casamento será às 17h, como você sempre sonhou, estão arrumando tudo, seu pai está a sua espera, eu estarei a sua espera lá em baixo, seu vestido chagará em duas horas, não tem nada com que se preocupar, é só ler, assinar se aceitar e se arrumar!".
Comecei a rir, "Você enlouqueceu?... como pode achar que um simples papel como esse vai me fazer feliz e me sentir satisfeita?".
"Leia!", disse ele me olhando e saiu do quarto.