3- DIGÃO

1365 Words
CAPÍTULO 3 DIGÃO NARRANDO Morro não escolhe ninguém. Ou tu nasce pra aguentar… ou ele te engole. Eu cresci aqui em cima. Santa Marta sempre foi minha casa. Cada viela, cada escada quebrada, cada barulho de tiro ecoando de madrugada… tudo isso moldou quem eu virei. Meu pai dizia que morro não perdoa vacilo. E ele não tava errado. Meu pai era o dono daqui. Não desses que grita pra provar poder. Ele mandava no silêncio. Bastava o nome dele rodar na boca de alguém que o corpo já sentia o peso. Eu era moleque ainda quando comecei a acompanhar ele nas reuniões, ouvir as conversas, entender quem era quem. Não porque ele queria… mas porque nesse mundo ninguém escolhe aprender devagar. Aprende ou morre. Quando ele morreu, eu tinha vinte e dois anos. Novo demais pra segurar um morro inteiro nas costas… mas velho demais pra correr. Foi numa emboscada. Traição de dentro. Sempre é. A notícia chegou igual tapa na cara. Não deu tempo de chorar, não deu tempo de cair. Tinha gente demais olhando pra mim, esperando minha reação. Se eu mostrasse fraqueza ali, o Santa Marta virava terra de ninguém em questão de horas. Eu enterrei meu pai de cabeça erguida. Por dentro, eu tava quebrado. Assumir o morro não foi escolha. Foi sobrevivência. No mesmo dia do enterro, eu sentei na mesa com os caras antigos, com os mais novos, com os que já me respeitavam e com os que duvidavam. Olhei um por um e deixei claro: quem ficasse, ficava sob meu comando. Quem quisesse testar… ia virar exemplo. Testaram. Os primeiros meses foram sangue. Não gosto de lembrar, mas lembro. Tentaram me tirar. Tentaram me passar pra trás. Tentaram tomar ponto, roubar carga, me diminuir por causa da idade. Todos erraram. Um por um. O morro aprendeu rápido que eu não era meu pai. Eu era pior quando precisava. Minha mãe ainda tava viva nessa época. Mulher forte. Doença nenhuma tinha levado o sorriso dela até então. Ela tentou segurar as pontas comigo, cuidar da minha irmã mais nova, fingir normalidade num lugar onde normal nunca existiu. Mas câncer não respeita força. Não respeita fé. Não respeita amor. Levou ela devagar. Vi minha mãe definhar na cama enquanto eu comandava o morro inteiro lá fora. Era um contraste que me rasgava por dentro. Eu mandava matar… e não podia salvar quem me botou no mundo. Quando ela morreu, dois anos depois do meu pai, foi como se arrancassem o chão debaixo dos meus pés. Ficou só eu… e minha irmã. Karina tem dezoito agora. Moleca ainda, apesar de tentar pagar de madura. É tudo que me restou de família. Por isso eu protejo demais. Por isso ninguém mexe com ela. Por isso o Santa Marta inteiro sabe que, se alguém chegar perto demais, não sobra nem o eco do nome. Tenho vinte e oito anos. Carrego coisa demais pra essa idade. Não durmo direito. Não confio fácil. Não me apego. Mulher, pra mim, sempre foi distração. Uma noite, duas no máximo. Nunca deixei ninguém ficar tempo suficiente pra virar fraqueza. Aqui, fraqueza mata. Meu coração aprendeu a funcionar fechado. Até agora. Ultimamente ando sentindo um incômodo estranho no peito. Como se algo tivesse fora do lugar. O morro tá quieto demais. Quando fica assim, é porque coisa grande tá se mexendo por baixo. Dívida, traição, gente querendo resolver problema de um jeito errado. E eu sei que vai sobrar pra mim. Sempre sobra. Meu nome corre pesado na boca. Digão. Dono do Santa Marta. O cara que assumiu cedo demais, que endureceu rápido demais, que não perdoa erro repetido. Mas ninguém vê o que fica quando a noite cai e o silêncio bate. Ninguém vê o moleque que enterrou os pais cedo demais e virou homem à força. Eu mando porque preciso. Eu sobrevivo porque não tenho opção. E no meu mundo, quando alguém cruza meu caminho por causa de dívida… não é só dinheiro que tá em jogo. É destino. E destino, aqui em cima, costuma ser c***l. Eu não cheguei aqui sozinho. Se hoje o Santa Marta para quando eu mando parar, é porque teve gente que caminhou comigo desde o começo. Gente que viu eu cair, levantar, sangrar e endurecer. E no meio de tanta cobra, só um ficou. Juninho. Juninho é meu braço direito. Sub do morro. Meu escudo e minha lâmina. A gente cresceu junto, dividiu pão, o gole e fuga de polícia. Enquanto muita gente se vendeu por troco, ele ficou. Enquanto muita gente testou minha força, ele tava do meu lado, segurando a bronca. É o único que eu confio de verdade nessa vida. Confiança aqui não é discurso bonito. É saber que o cara pode tá com uma arma na mão, meu nome na boca de geral, e ainda assim não vai vacilar. Juninho nunca vacilou. Ele conhece meus silêncios. Sabe quando eu tô pensando demais. Sabe quando é pra apertar… e quando é pra segurar. Não precisa de muita palavra entre a gente. Um olhar resolve. Naquela noite, eu tava na boca. O movimento tava intenso. Carro subindo, moto descendo, rádio chiando sem parar. Aquele caos organizado que só quem é do morro entende. Eu tava encostado no parapeito, olhando o fluxo lá embaixo, cabeça pesada, aquele incômodo ainda batendo no peito. Juninho tinha descido pro asfalto mais cedo. Cobrança. Tinha um cara devendo faz tempo. Aviso dado. Prazo estourado. Aqui funciona assim: a gente avisa uma vez. A segunda já é favor. A terceira… não existe. Eu já tava quase mandando alguém ligar quando ouvi o barulho do carro subindo. Reconheci na hora. O farol cortando a curva. O motor forçando na subida. Parei de conversar na hora. Endireitei o corpo. Todo mundo sentiu. O carro parou atravessado, sem muita cerimônia. A porta abriu. Juninho desceu primeiro. Cara fechada. Mandíbula travada. Aquela expressão que eu conheço desde moleque. Deu a volta no carro e puxou alguém pelo braço. Uma mina. Pequena, com os cabelos cacheados. Ela quase caiu quando botou o pé pra fora. Começou a gritar na hora. Voz fina, desesperada. Pedindo pra soltar, pra não fazer nada, chamando por alguém que não vinha. O som dela cortou o ar. A boca inteira ficou em silêncio. Eu desci devagar os dois degraus e fui andando na direção deles. Cada passo pesado. Não gosto de surpresa. E aquela… eu não tinha pedido. — Qual é, Juninho — falei baixo, mas firme. — Que porrä é essa? Ele me olhou. Não soltou a mina. — O cara não tinha dinheiro, Digão — respondeu. — Mandou trazer ela em troca da dívida. Ela se debateu de novo, puxando o braço, chorando agora. Gente começou a olhar. Curiosidade misturada com medo. Eu senti o sangue ferver. — Leva ela lá pra dentro — falei. — Agora. Juninho hesitou por meio segundo. Me conhecia o suficiente pra saber que aquilo não era ordem pra continuar a cena ali. Assentiu e puxou a mina de novo, mais rápido, sem dar chance pra espetáculo. Eu virei pro resto da boca. — Circulando — falei seco. — Ninguém tem nada pra ver aqui. Todo mundo voltou pro movimento. Mas o clima já tinha mudado. Entrei atrás deles. Meu peito tava apertado. Não era pena. Não era raiva. Era aquela sensação r**m de coisa fora do controle. Dívida não é brincadeira, mas eu não gosto de bagunça desnecessária. E mulher gritando… chama atenção demais. Quando cheguei no cômodo, a mina tava encolhida num canto, tremendo inteira. Juninho em pé, braços cruzados, esperando minha reação. Olhei pra ele. — Eu mandei cobrar o cara. Não trazer problema pra dentro do morro. — Eu sei — ele respondeu. — Ele falou que ela era virgem e que podia te servir. Irmão a gente ia matar o velho, porque dinheiro ele não tinha. Fechei os olhos por um segundo. Respirei fundo. Era sempre assim. Covarde nunca paga sozinho. Sempre tenta jogar o peso em alguém mais fraco. Abri os olhos de novo. — Solta ela — falei. Juninho soltou na hora. A mina me olhava como se eu fosse decidir a vida dela ali. Talvez fosse mesmo. Continua ......
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