CAPÍTULO 19 GABRIELA NARRANDO Eu não consegui dormir. O banho quente ajudou a tirar o cheiro da rua, da fumaça, do medo grudado na pele. Mas não tirou o peso do dia. Deitei na cama e fiquei olhando pro teto. Silêncio. A casa era grande demais pra mim. O quarto arrumado demais pra alguém que não sabe se vai ficar. Karina tinha deixado uma toalha limpa dobrada em cima da cadeira. Um cuidado simples. Eu não tava acostumada com cuidado. Virei pro lado. Toda vez que eu fechava os olhos, via a viela. As mãos estendidas. O dinheiro passando de um lado pro outro. Minha própria voz repetindo as mesmas frases, automática. “Não tem fiado.” “Valor certo.” “Não encosta.” Eu aprendi rápido. Rápido demais. Sentei na cama, puxei os joelhos pro peito e abracei as pernas. O quarto tinha uma j

