Julian
Permanecíamos na sala de reuniões, falando dos relatórios e Sam contando coisas de sua vida diária louca, quando a porta se abriu de repente. Como um tornado de energia e perfume francês, Martina irrompeu na sala. Minha irmã mais nova, com apenas vinte e três anos e já dona de cada espaço que pisava.
Ela usava um vestido branco que se ajustava perfeitamente à sua silhueta. Linda, com os inconfundíveis traços Marlow: maçãs do rosto delicadas, olhar penetrante, queixo definido. Onde meus irmãos e eu projetávamos autoridade, ela irradiava uma sensualidade natural que havia transformado sua carreira de design em um sucesso prematuro.
Mas o mais fascinante em Martina sempre foi essa contradição ambulante: a herdeira Marlow que rejeita os confortos do sobrenome. Humilde, sorridente, constantemente buscando causas por que lutar. A viva imagem do nosso pai, não do empresário que o mundo conheceu, mas do homem que nos lia histórias antes de dormir.
— Meus três homens favoritos! Ela exclamou, enchendo cada um de beijos. Primeiro Sam, depois Thomas, e finalmente eu, me abraçando por trás enquanto eu continuava sentado.
— Quanto dinheiro você precisa desta vez? Perguntei diretamente. Ela não aparecia assim, de improviso, só para cumprimentar.
Sua risada encheu a sala enquanto ela plantava um beijo sonoro em minha bochecha. Se qualquer outra mulher tivesse tentado esse gesto, teria encontrado minha rejeição imediata. Ninguém, absolutamente ninguém, tocava meu rosto ou meu torso. As mulheres na minha vida tinham um propósito claro e limitado: prazer momentâneo, sem complicações nem proximidade. Exceto ela. Martina era nossa princesa, a única com permissão para ultrapassar minhas barreiras.
— Não preciso de dinheiro. Ela disse, dando a volta e passando por trás de Sam. — Mas sim te pedir um favor.
Assenti automaticamente. Era incapaz de ne*gar-lhe algo.
Thomas sorria enquanto a observava. Ela sentou-se em frente a ele, ao lado de Sam, e piscou o olho para Thomas.
— Preciso que você contrate uma amiga. Ela explicou.— Estuda contabilidade, já está no último ano da faculdade. É extremamente inteligente.
Revirei os olhos. Lá estava ela de novo, Martina, a defensora dos necessitados.
— Irmã Martina. Interveio Thomas com escárnio. — Como você tem uma amiga que estuda contabilidade se você estuda design gráfico?
Não pude evitar rir ao ouvir aquele apelido. "Irmã Martina". Ficava perfeito nela.
— Pois eu, meu sensual e quente irmão. Ela respondeu com aquela desfaçatez que só permitíamos a ela. — Tenho amigas em todos os cursos. E esta moça é muito doce. Ele fez uma pausa e juntou as mãos em um gesto que antecipava a verdade. — Não é uma amiga muito próxima. Ela acrescentou, fechando os punhos como se estivesse medindo a proximidade. — Mas eu a conheço e ela é prima de um rapaz de quem eu gosto.
Revirei os olhos de novo. Então era isso.
— Por favor, Julian. Por favor. Ela suplicou, juntando as mãos como quando era pequena e me pedia para espantar os monstros debaixo da cama dela.
Sam e Thomas riram. Eu me rendi, como sempre.
—Você se aproveita de que eu nunca consigo dizer não para você. Eu disse enquanto ela se levantava para me abraçar novamente.
—Que venha amanhã. Diga ao Carson para colocá-la na contabilidade. Afinal, acho que o Anderson precisa de mais auxiliares. Acrescentei, aludindo ao desastre de hoje.
— Por isso te amo, irmãozinho! Ela celebrou, apertando-me com força. — Desejo que a fada mágica te conceda uma linda mulher que te ame como você merece.
Neg*uei com a cabeça enquanto ela se despedia com beijos dos três e saía tão repentinamente quanto havia entrado, deixando para trás um rastro de perfume e energia.
— O que farei com ela? Murmurei, vendo-a desaparecer pela porta.
— O mesmo que você faz sempre. Respondeu Thomas. — Dar-lhe tudo o que ela quer.
Ele tinha razão. O tubarão dos negócios, o implacável Julian Marlow, tinha uma fraqueza com nome e sobrenome. E ela acabava de conseguir um cargo na contabilidade, para a prima, de sua próxima conquista.
— Sim, vou dar ouvidos à Martina, vamos encher as empresas de vendedores ambulantes e ex-condenados, ela sempre vê o "bom coração de todos". Disse, conseguindo fazer Sam e Thomas gargalharem e eu não pude evitar sorrir também, como raramente fazia.
*****
Eu estava no meu escritório, que me oferecia uma vista espetacular. Quarenta e cinco andares de altura. Daqui, as pessoas pareciam formigas, minúsculas e insignificantes. Às vezes me perguntava se é assim que me veem: distante, inatingível, observando-os das alturas.
Revisava os relatórios preliminares para a reunião de sexta-feira quando ouvi três batidas na porta, seguidas de sua a******a imediata. Não precisava levantar a vista para saber quem era. Só uma pessoa em toda a empresa ousava entrar sem esperar minha resposta. E Deus sabe o quanto isso me irritava.
Sandra Blackwell.
O tilintar de seus saltos de grife no chão de mármore anunciava sua presença como um tambor de guerra. Ela usava um terno de alfaiataria cor de vinho que provavelmente custava mais do que o salário mensal de qualquer um dos nossos chefes intermediários. Seu cabelo loiro caía em ondas perfeitas sobre seus ombros, e sua maquiagem, como sempre, parecia aplicada por um artista.
— Julian, querido, como você está se sentindo? A sua voz tinha aquele tom meloso que ela reservava exclusivamente para mim.
—Thomas me contou o que aconteceu na reunião. Não pude estar na reunião, tive que ir à minha consulta médica.
Nem sequer levantei os olhos dos documentos.
— Estou perfeitamente bem, Sandra. Foi só um momento de fadiga.
Ela se aproximou da minha mesa. Colocou sobre a mesa uma caixa branca amarrada com um laço azul.
— Trouxe seu favorito. Torta de amora. Eu mesma assei ontem à noite.
Desta vez, levantei o olhar, encontrando os seus olhos avelã que me estudavam com um anseio m*al disfarçado. Sandra Blackwell, Gerente Administrativa da Marlow Industries e, o mais importante para ela, afilhada de Teresa Marlow, minha mãe.
Quase pude ouvir meu pai rindo do túmulo dele. Era exatamente o tipo de mulher que minha mãe sempre sonhou para mim: educada nos melhores internatos da Europa, sobrenome antigo, fortuna familiar e ambiciosa o suficiente para entender o valor do império Marlow. O que minha mãe nunca entendeu é que essas qualidades eram precisamente as que me mantinham à distância de mulheres como ela.
— Obrigado. Respondi secamente, empurrando a caixa para o lado da mesa. — Vou experimentar mais tarde.
Ambos sabíamos que a caixa acabaria nas mãos de Sam, que devorava qualquer coisa doce que entrasse no meu escritório. E ambos sabíamos que aquele bolo não tinha sido assado pelas suas mãos perfeitamente arranjadas, mas comprado na exclusiva pastelaria francesa do centro, a mesma que usava há anos para os seus "presentes caseiros".
— Sua mãe ligou esta manhã. Ela continuou, sentando-se na beira da minha mesa, muito perto. — Quer confirmar nossa presença na gala beneficente de sábado.
Nossa. Como se fôssemos um casal. Como se tivesse esquecido as dezenas de vezes que eu deixei claro para ela que entre nós só existia uma relação profissional e, no máximo, uma amizade desgastada por suas constantes insinuações.
— Não irei à festa de gala. Respondi, fechando a pasta de relatórios. — E eu apreciaria que você não programasse compromissos em meu nome, Sandra. Não está dentro das suas funções.
Seu sorriso vacilou por um instante, mas ela se recompôs rapidamente. Vinte anos de rejeição haviam fortalecido sua fachada.
— Julian, sua mãe conta com a nossa presença lá. É para a fundação da família. Você não pode faltar.
Levantei-me, dirigindo-me para as janelas. Precisava de espaço, ar. Seu perfume começava a se tornar sufocante.
— Eu disse que não vou.
Ouvi ela suspirar dramaticamente atrás de mim.
— Pelo menos me diga que você virá jantar na sexta-feira. Sua mãe convidou os Montgomery. Sua filha mais nova acabou de voltar de Londres e está ansiosa para conhecê-lo.
Girei para enfrentá-la, sentindo minha paciência começar a se esgotar.
— Qual parte de "não" você tem dificuldade em entender, Sandra? Não irei à festa de gala, não jantarei com os Montgomery e definitivamente não estou interessado em conhecer nenhuma herdeira recém-chegada da Europa.
Seu rosto endureceu, finalmente deixando cair a máscara de doçura.
— Prefere continuar com suas conquistas de uma noite? Com aquelas mulheres que só estão com você por causa do seu dinheiro?
Uma risada seca escapou dos meus lábios.
— E você com certeza quer estar comigo pela minha personalidade encantadora. Sério?
O golpe acertou em cheio. Vi em seus olhos a indignação.
— Isso não é justo, Julian. Conheço você desde que éramos crianças. Sei quem você realmente é, sob essa armadura de frieza.
— Não, Sandra, você não sabe. Dei um passo em direção a ela, baixando a voz. — E esse é precisamente o problema. Você persegue uma fantasia há vinte anos, uma versão de mim que só existe na sua imaginação.
Ela se levantou, endireitando-se em toda a sua altura, embora ainda assim m*al me chegasse ao queixo.
— Sua mãe tem razão. Você precisa se assentar. Formar uma família. Dar um herdeiro ao império Marlow.
Senti a raiva subir pela minha garganta como bílis.
— Minha mãe pode opinar sobre minha vida quando começar a vivê-la ela mesma, em vez de se esconder atrás de suas joias e de seus eventos beneficentes.
— Julian…
— Esta conversa acabou, Sandra. Voltei para minha mesa e apertei o interfone. — Liam, você pode vir um momento?
A porta abriu-se quase imediatamente, revelando meu assistente executivo, um homem de meia-idade cuja eficiência só era superada por sua discrição.
— Sim, Sr. Marlow?
— A senhorita Blackwell já estava indo. E por favor, entre em contato com a assistente da minha mãe. Diga a ela que estarei fora da cidade este fim de semana.
Sandra recuperou sua dignidade, olhando para mim com uma frustração que já me era familiar demais.
— Isso não acabou, Julian.
— Nunca começou, Sandra. Respondi, voltando aos meus documentos. — É hora de você aceitar isso. E procure cumprir suas funções e estar presente em todas as reuniões dos chefes, ou me verei na obrigação de procurar um gerente financeiro que cumpra totalmente.
Seu rosto ficou vermelho.
Observei-a ir embora, batendo os saltos com fúria. Assim que a porta se fechou, Liam se aproximou com um documento na mão que exigia minha assinatura.
— Sua irmã ligou para confirmar que sua... amiga comparecerá amanhã às nove para a entrevista. A palavra "amiga" soou ligeiramente enfatizada, deixando entrever que ele conhecia perfeitamente os métodos de Martina. — E o doutor Peterson confirmou sua consulta para esta tarde às cinco.
Concordei, agradecendo mentalmente seu profissionalismo. Nem uma palavra sobre o confronto que acabara de presenciar.
— Obrigado, Liam. Pode se retirar.
Quando fiquei sozinho, me vi olhando para a caixa do bolo. Outra tentativa desesperada, outra estratégia patética. Minha mãe e Sandra pareciam não entender que eu não estava interessado em uma mulher que se aproximasse de mim por causa do sobrenome Marlow, do dinheiro ou do status.
Não é que eu estivesse procurando o amor. Há muito tempo eu havia renunciado a essa ilusão. O amor era para pessoas como Martina, que ainda acreditavam em finais felizes e fadas madrinhas.
Para mim, bastava manter o império que eu havia construído funcionando, proteger meus irmãos e, talvez, se eu tivesse sorte, encontrar algum dia alguém que me olhasse e visse Julian, não o herdeiro Marlow.
Peguei o telefone para ligar para o Sam. O bolo não devia ser desperdiçado, afinal.