Vicky: Ele não viveria com essa culpa?

1037 Words
Sigo meu caminho e me lembro de que, no início do jogo, quando ainda estava em casa, YaoWei conseguiu uma chave. Naquele momento, não descobrimos para que ela servia e talvez agora ela possa ser útil. Não sei ao certo, mas sinto que a chave deve ter um motivo para ter sido entregue logo no começo. Olho para trás e vejo YaoWei me seguindo, um pouco distante. Aproximo-me dele e respiro fundo antes de começar a falar. — A chave... — digo, com a voz fria, estendendo a mão em expectativa. YaoWei me olha confuso, em silêncio por alguns momentos, e finalmente decide falar. — Que chave? — A chave, YaoWei! Não se faça de desentendido. Eu estava transmitindo ao vivo quando você ganhou essa chave misteriosa. Foi bem no começo do jogo. — Ah, é verdade! Já faz tantos dias que eu havia esquecido. — Ele diz entre risos. Reviro os olhos, impaciente, e continuo com a mão estendida. Após alguns segundos, ele coloca a chave em minha mão. Então, sigo meu caminho de volta, à frente dele, mas ele se aproxima e caminha ao meu lado. — YaoWei, pare de andar tão perto. — Murmuro, com raiva. — O que? Você disse alguma coisa? — Se afasta, por que está tão perto? — Grito. YaoWei assente com a cabeça e se distancia. Continuo caminhando, olhando para a chave, tentando entender para que ela serve. Suspiro, cansada de tanto pensar; só queria voltar para casa. É pedir muito? Enquanto andava, sentia-me cansada, com fome e com sede. YaoWei percebeu e, preocupado, correu até mim. — Você está bem? — Pergunta YaoWei, com um tom de angústia e preocupação. — Estou, mas se afasta! — Respondo, com a voz fraca e trêmula, mas tentando me manter firme. Continuo caminhando, e YaoWei volta a se manter à distância. Olho para cima e tudo parece misturado. Cada vez mais, ando com dificuldade, meus passos ficam lentos e minha respiração mais ofegante. Insisto em continuar, mas minha teimosia resulta em um desmaio rápido. Em questão de segundos, abro os olhos, sem forças para me levantar, e vejo YaoWei me olhando enquanto se agacha para me pegar no colo. Quero evitar, mas estou fraca demais para me mover. Nos braços dele, minha visão escurece. Quando finalmente abro meus olhos novamente, encontro-me em um lugar completamente diferente. Percebo que estou em um lugar diferente. A luz que antes parecia suave e translúcida agora é mais dura e fria. Estou em um albergue antigo e empoeirado, com paredes descascadas e móveis cobertos de poeira. O cheiro de mofo e madeira velha é forte no ar, e a única fonte de luz vem de uma janela quebrada, que deixa entrar uma luminosidade difusa. Sento-me na cama, ainda atordoada, e tento me levantar, mas a fraqueza persiste. Olho ao redor e vejo YaoWei sentado ao meu lado, sua expressão grave e preocupada. A princípio, o desejo de evitar seu olhar é quase instintivo. Ele percebe meu desconforto e se levanta, caminhando para o canto da sala, longe de mim. — Eu... — começa YaoWei, a voz carregada de um peso emocional. — Preciso te contar algo importante. A voz dele me faz hesitar. Sinto um turbilhão de emoções conflitantes, mas tento ouvir o que ele tem a dizer, mesmo que isso me cause um certo desconforto. — Quando tudo começou, eu pensei que sacrificar você poderia ajudar minha irmã. — Ele faz uma pausa, procurando as palavras certas. — A ideia de sacrificar alguém para salvar ela era um plano desesperado, mas, à medida que o tempo passava, percebi que isso não era apenas sobre salvar minha irmã. Eu percebi que, se você morresse, eu também morreria, mas de um jeito diferente. — Como assim? — Minha voz sai mais fria do que eu pretendia, lutando para entender suas palavras. — No começo, eu pensei que salvar minha irmã era tudo o que importava. Mas, com o tempo, eu percebi que perder você destruiria quem eu sou. Não adianta salvar minha irmã se eu ficar destruído sem a pessoa que me faz bem. — Ele se aproxima um pouco, com um olhar sincero e vulnerável. — Eu pensei que estava fazendo o certo, mas agora vejo que não posso viver sem você. Eu olho para ele, lutando para processar suas palavras. A confusão e o ressentimento misturam-se com o desejo de acreditar nele. A dor e o medo de ter sido usada como peça em um jogo c***l são intensos. — E por que eu deveria acreditar em você agora? — Pergunto, a voz falhando um pouco, embora eu me esforce para manter a firmeza. — Você queria me sacrificar. Como posso confiar em alguém que esteve disposto a me destruir? — Eu entendo a sua desconfiança. — Ele diz, a voz agora cheia de arrependimento. — Mas por favor, tente entender. Eu não sabia o que estava fazendo. O que eu queria, mais do que qualquer coisa, era que você estivesse bem, e ao perceber isso, percebi também que não poderia viver com essa culpa. A sala, com seu aspecto velho e abandonado, parece refletir a batalha interna que ambos enfrentamos. A confiança é algo que leva tempo para ser reconstruída, e a dor não desaparece facilmente. — Eu... preciso de tempo para pensar — digo, a voz fraca, mas decidida. — Não sei se consigo te perdoar agora, mas preciso de tempo para entender tudo isso. YaoWei assente, o rosto mostrando um misto de dor e compreensão. Ele se afasta, dando-me o espaço que eu preciso, e eu me sinto perdida em meus próprios pensamentos enquanto examino o albergue. O lugar pode estar desgastado e abandonado, mas também é um refúgio inesperado onde eu posso tentar encontrar alguma clareza. Enquanto olho pela janela quebrada, o sol da manhã ilumina o ambiente, e o calor da luz parece prometer uma nova perspectiva, embora eu ainda esteja longe de encontrar todas as respostas. Meu sentimento maior é apenas a necessidade enorme de voltar para casa e fingir que tudo isso não passou de um sonho, sinto uma forte conexão com YaoWei, mas ele me machucou muito e por isso quero fingir que nunca o conheci.
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