Enquanto YaoWei e eu saíamos da caverna e avançávamos pela paisagem digital, uma sensação desconfortável começou a me incomodar. Apesar de o ambiente do jogo ser intrigante, minha mente estava constantemente voltada para minha família. Sentindo uma pontada de ansiedade, decidi verificar se havia alguma atualização sobre o que estava acontecendo no mundo real.
— Espere um momento — eu disse a YaoWei, parando e sentando-me em uma rocha próxima. — Preciso checar algo.
Ativei um dispositivo dentro do jogo que permitia a comunicação com o mundo real. Não sei exatamente como consegui ativá-lo, mas, para minha surpresa, o computador em casa ainda estava ligado. Através de um microfone ligado em meu quarto, consegui ouvir o que estava acontecendo fora do jogo. O som que chegou até mim era de desespero: a voz de minha mãe, claramente preocupada, chamava por meu nome.
— Vicky, onde você está? — A voz da minha mãe tremia de preocupação. — Estamos tão preocupados. Não conseguimos encontrar você em lugar nenhum!
Senti uma dor no peito ao ouvir o desespero na voz de minha mãe. A culpa e a angústia me envolveram, e tive dificuldade em manter a compostura.
— YaoWei... — disse eu, a voz quebrando um pouco. — Minha mãe está desesperada. Eles não sabem onde estou, e eu não posso ir até eles. Estou tão preocupada.
YaoWei se aproximou, percebendo a tensão e a tristeza em meu rosto.
— Vicky, eu entendo que isso deve ser difícil para você — disse ele com uma voz calma e reconfortante. — Devemos focar no que podemos fazer agora. Se conseguimos enfrentar a caverna, podemos encontrar uma solução para isso também.
— Eu sei, mas é difícil não poder fazer nada. Eles devem estar tão angustiados... — respondi, com os olhos cheios de lágrimas.
YaoWei sentou-se ao meu lado, oferecendo um gesto de apoio.
— Olhe, você é forte e corajosa — disse ele. — Eles estão preocupados, e isso é natural. Mas agora, o que precisamos fazer é encontrar uma maneira de você sair desse jogo e voltar para eles. Eu estou aqui para ajudar. Juntos, encontraremos uma solução e você poderá explicar tudo a eles quando voltar.
As palavras de YaoWei ajudaram a acalmar um pouco o tumulto emocional que eu sentia. Respirei fundo, tentando me recompor.
— Obrigada, YaoWei. Eu realmente aprecio seu apoio. Vamos continuar e encontrar uma saída. Não podemos deixar que isso nos detenha.
Com uma nova determinação, levantei-me e olhei para o horizonte virtual. YaoWei estava ao meu lado, pronto para enfrentar os desafios que ainda estavam por vir. A conexão entre nós se fortaleceu e, embora a preocupação com minha família permanecesse, encontrei um novo impulso para superar os obstáculos e voltar para casa.
Após essa grande emoção e tensão, tentei me acalmar, respirando fundo novamente, e caminhei junto de YaoWei. Enquanto voltávamos a explorar, olhei para YaoWei, que caminhava quieto ao meu lado.
— Você está bem? — perguntei, preocupada.
— Claro, estou ótimo — respondeu YaoWei, forçando um sorriso que parecia nitidamente falso.
— Fale a verdade, YaoWei!
— Eu... eu estou preocupado com minha irmã — disse ele, com o tom de voz falhando, tentando conter o choro. — Quando eu a reencontrei, ela me abraçou e foi incrível, mas eu não sabia que ela estava doente. Quando cheguei em casa, minha mãe me contou sobre os dias que fiquei fora.
— Sinto muito... — disse eu, parando de andar e me aproximando de YaoWei para um abraço reconfortante.
— Vicky, quando eu te encontrei dentro do jogo, era o momento em que eu saí de uma missão tentando conseguir um remédio para curá-la, mas lá dizia que eu precisava ir a outro local e fazer outra missão — YaoWei explicou, em meio a uma angústia e sem retribuir meu abraço.
— Você parou sua missão para ajudar sua irmã por causa da minha situação? — perguntei, surpresa e em choque. — Volte agora e ajude-a. Eu me viro sozinha.
— Não, Vicky! Eu estou indo já em direção à missão... — A voz dele ficou falha e trêmula. — Eu... eu não sei mais se quero fazer essa missão.
— Por quê? Você precisa salvar sua irmã.
— É que... eu não sei como te dizer — YaoWei disse, embolando-se e com a voz ainda trêmula.
— O quê? Respire fundo e me diga! — falei com um tom de preocupação na voz.
— Eu tenho que sacrificar alguém na missão para conseguir o remédio para minha irmã — YaoWei abaixou a cabeça, não conseguindo manter contato visual comigo.
Assim que ouvi isso, me afastei dele e entrei em uma crise de riso, sentando-me em uma rocha próxima a uma gigantesca árvore na floresta. Olhei para cima, enquanto ele levantava a cabeça, evitando meu olhar.
— É brincadeira, né? Que missão seria tão maluca assim? E, aliás, quem você sacrificaria? Teríamos que caçar alguém? Isso é bizarro. — Fiz perguntas uma após a outra, incrédula e desacreditada.
YaoWei me olhou, seu olhar era frio e triste. Nesse momento, percebi que a pessoa sacrificada seria eu. O cara que eu ajudei a encontrar sua família por dias e dias agora queria me sacrificar. Eu entendo o desespero por causa de sua irmã, mas ele me enganou. Só consigo sentir decepção, medo e angústia. Pensei que ele se importava comigo. Desde que cheguei aqui, ele se mostrou super gentil, mas mentiu dizendo que me ajudaria a sair. Na verdade, queria me deixar morrer.
Fiquei parada naquela rocha por cinco minutos, em choque e em silêncio. Meus olhos estavam marejados e minha respiração, falha. YaoWei me chamava a todo instante, mas eu ouvia sua voz distante e sentia uma angústia enorme apertar meu peito. Então, levantei-me por impulso e comecei a andar sozinha, sem esperar por YaoWei, que vinha atrás de mim.
— Por favor, Vicky, me escute! Eu estou arrependido! — gritou YaoWei, mas sua voz continuava distante, e eu seguia em frente sem prestar atenção.
Parei de andar, assim como YaoWei. Olhei para ele com os olhos marejados e raiva. O encarei em silêncio, tentando acreditar em seu arrependimento, mas não conseguia.