"Sem restrições, fui mandada para destruir."
Music To Watch Boys To, Lana Del Rey
Depois que o Lion saiu por aquela porta, só me sobrou a imensidão do flat silencioso e os meus pensamentos barulhentos. Não consigo parar de pensar. Pensar na minha dívida, no dinheiro que falta, na Hope, na cretina da Donna, e até na Maya, na Ivy, no próprio Lion e no Slowan.
Maldito Heron Slowan.
Queria saber, queria mesmo saber, exatamente, o que o garoto de cabelos platinados queria dizer com o "sua garota". Eu nem sou de ninguém, a não ser, de mim mesma. A vida me ensinou, de uma forma meio descomunal, que o meu corpo só pertence a mim. Quando um homem me olhava com malícia, e eu tinha que servi-lo por não ter outra escolha no meu passado cheio de sombras, eu precisava me impor, mesmo sendo considerada uma jovem indefesa, e foi assim que aprendi a me defender. Com unhas e dentes, com a própria alma.
Me afundo na jacuzzi do quarto, dando uma última molhada no meu cabelo, depois saiu, pendurando uma toalha no meu corpo. Caminho até a sala, sem me importar, com o rastro molhado que deixo no chão do lugar. Observo a pequena adega no canto do sala. Ela está repleta de garrafas de variadas marcas de vinhos; envelhecidos, brancos e tintos. Não consigo conter a vontade de apreciar um deles. Lion disse para que eu ficasse à vontade, isso incluía saborear a bebida mais adocicada e fina daquela estante? Espero que sim, pois quando me dei conta, já estava despejando o líquido bordô na taça Bordeaux.
Me pergunto como a minha vida consegue ser ainda mais imprevisível que uma montanha russa? Horas atrás eu estava na rua e sem ter onde dormir, agora, estou limpa, cheirosa e com uma bela cama de lençóis de seda me esperando para dormir uma noite maravilhosa de sono que não tenho há tempos.
Abro a janela que estava coberta pelas cortinas blackout, me deparando com uma linda vista do céu escuro, salpicado por diversas estrelas. E agora, aquecida depois de um banho quente, me permito apreciar a brisa fria sem medo de congelar. Gosto da noite. Gosto do clima sombrio que vem com ela. Isso me ajuda a se conectar comigo mesma, me faz colocar a cabeça no lugar. Me traz equilíbrio e sintonia.
Sinto o aroma do vinho, depois giro delicadamente a taça nos dedos, misturando as notas, antes de apreciar o gosto doce, junto com álcool que é um pouco ácido. Céus, essa é a primeira vez que bebo algo alcoólico desde de que sai da prisão. Não que eu fosse exigente com bebida, na verdade, eu bebo qualquer coisa que mate minha sede, mas não existe nada mais f**a do que uma mulher livre apreciando um bom vinho caro na varanda.
Me sinto em uma realidade paralela, tipo uma fanfic, que acabei de criar na minha mente.
Não demora muito para que três taças sejam viradas. Estou na quarta, quando noto meu corpo mais leve, libertino e soberano. Isso me remete às sensações que sinto, quando danço, então logo me dar vontade de fazer isso.
Mas ai me lembro, que por mais que eu tenha saido da cadeia, não estou livre. Pelo contrario, estou mais presa do que nunca, ligada a um babaca que tudo que quer, é me mostrar que estou sempre abaixo dele, por ter uma maldita divida e por isso tenho que me submeter a coisas que eu jurei a mim mesma, nunca mais fazer.
Logo meus pensamentos se aceleram. É como se o pânico não me desse uma trégua, lembrando-me da dura realidade que me aguarda na vida real. Parece um inferno.
Novamente a sensação de não ter ar suficiente para respirar nos pulmões, minhas mãos hiperventilado, o pressentimento de ter alguém me rodeando, alguém me observando, alguém me perseguindo. Medo...
A energia fulminante me cerca.
Lion disse que não me assustaria mais como fez na rua mais cedo, e francamente, parece ser inocente da minha parte, mas eu acreditava nele. Acreditava, porque gostei de conhecer o lado doce do garoto que me ajudou me dando um abrigo para ficar.
Mas confirmo que não é a sua energia leve que se faz presente nessa sala, e sim a dele.
Slowan. Heron Slowan.
Estava me olhando, me olhando enquanto eu observava a vista lá fora e apreciava minha taça de vinho, como um bom cretino que é.
Paro o que estou fazendo, saltando meu olhar até a porta, não consegui entender por que, subitamente, a minha respiração ficou ofegante. Eu me coloquei automaticamente na defensiva, exibindo um semblante impassível. Meu corpo inteiro respondeu à imagem do Slowan, que me encarava com uma expressão tentadora no rosto. Mesmo enquanto me observava como se quisesse jogar uma bomba em cima de mim. Percebo o quanto a sua beleza era chamativa, ao mesmo tempo que eu me odiava por achá-lo bonito. Deveria ser proibido pessoas imbecis serem presenteadas com uma aparência semelhante à de um Deus grego. Pelos seus traços joviais, deduzo que tenha a mesma idade que eu, com os seus cabelos dourados bagunçados e a pose de durona bem intimidadora. E conforme se aproximava, parecia ainda mais.
— O que faz aqui? — pergunto, não mostrando que estou assustada, enquanto firmo a toalha mais ao meu corpo.
— Eu que devia te perguntar, — ele responde, depositando sacolas de papel na bancada americana, e só agora eu noto que ele trazia aquilo em suas mãos. Acho que passei tempo demais, perdida no seu olhar frio. — mas o Lion já me disse.
— Você sempre foge das minhas perguntas perguntas. — bufo impaciente, querendo fugir de ter que respirar o mesmo ar que o seu.
— É bom te ver também, princesa. — fala irônico, sabendo bem que esse apelido barato me tirava do sério.
Seu olhar sacana corre por todo meu corpo coberto com apenas uma mísera toalha branca. Minha pele queima com toda a intensidade que tem nas suas orbes deslizando pelas gotículas de água repicas no meu corpo, se não fosse a malícia que o faz, eu deduziria que ele estava contando cada uma delas. i*****l.
— Pare de me chamar assim, — ergo meu dedo no ar, de maneira intimidadora. — pare de me chamar como se eu fosse igual as mulheres que caem aos seus pés, porque definitivamente, eu não me impressiono com você. E pare me olhar de toalha! Você me assustou, Heron. Isso não é legal.
— Me desculpa então, — ele levanta as mãos, como quem decreta inocência — por entrar na minha casa e te pegar com uma toalha minha.
— Sua casa?
Não me apego a provocação sobre o que visto, estando surpresa por Lion ter me escondido esse detalhe, apesar de estar levemente constrangida por ele ter me visto em um momento um tanto quanto íntimo. O odeio ainda mais por isso.
— Lion não disse?
— Não.
Heron cruza os braços, encostando seu corpo na mesma bancada. A forma como as suas sobrancelhas se erguem, mostram que falsamente, ele estava surpreso.
— Bem, talvez porque ele deva satisfações só a mim.
Reviro os olhos instantaneamente. A forma arrogante na qual ele sempre fazia questão de lembrar que mandava em tudo, me fazia querer fazer ele voltar pro útero da sua mãe com as próprias mãos.
— Costuma ser i****a sempre ou só quando respira?
— Só quando eu trago comida para um certo alguém que prefere ir ao inferno do que me ver.
Fecho os olhos e seguro uma risada seca que insistia em sair.
É sério? Porque se tiver alguma câmera gravando essa pegadinha, já podia aparecer.
— Inferno e você, me parecem coisas similares. — a resposta estava pronta na ponta da minha língua. — E só pra constar, aceitei vir pra cá, depois que o Lion me convenceu, mas isso não quer dizer que estou disposta a aceitar coisas vindas de você. Até porque, eu me lembro bem que da última vez que aceitei, eu me dei muito m*l.
— Que isso, princesa? Fico até sem jeito com tamanha gratidão.
Eu o odeio. Cada vez mais, a cada segundo que se passa.
— Estou falando sério, não quero sua comida. — digo firme, pensando seriamente em ir embora.
Não sei o que se passou na minha cabeça para ter aceitado um favor, indiretamente, seu. Talvez fosse pela necessidade, por não ter escolha e por estar fodida em cem tons de cinza, mas nada disso justificava. Aquele cara nunca seria bom para mim, eu deveria saber disso.
— Ele me falou que você não comia a horas. — seu olhar me parece genuíno, apesar de que não consigo decifra-lo. — Então deixa de bancar a arrogante, e aceita. Se não, vai desmaiar igual desmaiou mais cedo lá no clube.
Meu desmaio no clube tinha a ver com os meus picos de medo. Minha mente parava de funcionar quando eu atingia ápices de estresse, e ainda não sei lidar com essa merda. E talvez, só talvez, pela minha alimentação precária desde de que sai da cadeia.
— Isso é culpa?
— Talvez. — sua resposta me pega de surpresa. Ele percebe isso pelo meu silêncio momentâneo. De fato, eu estava a procura de uma resposta para debater, mas não achei, por isso ele faz questão de continuar tirando com a minha cara. — O quê? Não posso assumir isso em voz alta? A orgulhosa aqui é você.
— Já disse que não quero, Slowan. — tento transparecer que estou convicta do que falo. Mas não tenho tanta certeza assim, quando o vejo se virar e retirar da forma mais tranquila do mundo todas as compras das sacolas de papel.
— Uma pena, trouxe várias coisas. Tem hambúrgueres, milkshake, refrigerante, batata fritas,— ele continua retirando, mas meus olhos se atentam apenas a uma coisa no meio de todas àquelas guloseimas — e até bombons de chocolate com recheio de cereja.
Chocolate? Ele falou chocolate?
— Chocolate, huh? — me aproximo.
É. Ele ganhou minha atenção.
— Eu não gosto muito de doce, mas o resto da comida tá uma delícia. — ele retira um bombom da embalagem e morde, não se importando em falar de boca cheia. — É bom que sobra mais para mim.
Meus olhos caem discretamente para a sua boca, para a forma que ela se movimenta, como uma fina liga de chocolate escorrendo no canto dela. Seu tom rosado, as rachaduras eminentes, a barba por fazer e aquele maldito sorriso. Um sorriso cheio de malícia, de quem sabe os pecados que se passa nos meus pensamentos.
— Não colocou veneno nesses hambúrgueres? — pergunto, me desfazendo disso, da forma como ele me atrai sem nem se esforçar.
Decido prestar atenção na carne suculenta e na fumaça que se esvai dela. Isso sim é atrativo. O cheiro gostoso que só confirmava o que ele falava, a comida está uma delícia. Comida, Hanna. E não um cara i*****l.
— Não coloquei. — diz ainda com a sombra daquele sorriso zombeteiro.
— Então morda os dois hambúrgueres, para me certificar. — peço, me sentindo rendida a comer, decidindo começar pelo milkshake, porque trazer logo o sabor de chocolate com baunilha era um golpe muito baixo da sua parte.
— Claro, princesa. — assim ele o faz, e dessa vez, decido focar em apenas chupar o canudinho do meu milkshake e não na forma como os seus lábios se movimentava — até porque o veneno eu deixei pra bebida.
Cuspo o líquido o mais rápido que posso. Porque não desconfio que ele esteja falando a verdade.
— Filha da pu...
— Eu tô brincando, princesa, relaxa. — sua risada explode os meus tímpanos, de raiva, é lógico. — não iria te matar... não dessa forma.
Cerro meus olhos na sua direção. Por que tenho a sensação que existe outra intenção por trás da sua fala?
— E como iria?
— Você me odiaria ainda mais se soubesse dos meus pensamentos em relação a você.
Meu coração erra as duas próximas batidas. É estranho esse efeito, quando a única coisa que sinto é ódio por todo o caos que a minha vida rumou, depois que ele cruzou meu caminho.
Ódio, é tudo que eu quero sentir por ele.
— Se eu fosse te matar como eu sonho em matar, você nem iria ter tempo para pensar.
Um tiro nas bolas seria interessante.
— Já te disseram que você é meio mórbida as vezes?
Não respondo sua pergunta, apenas deixo com que a minha mão se escorregue até o hambúrguer a minha frente. Não demoro para morder, e saciar com a explosão de sabores que invadem minha boca. Meu Deus, comer é divino, ainda mais quando suas costelas estão coladas na coluna de tanta fome.
— É assim que trata todas as garotas que você ameaçou de matar? — pergunto de boca cheia. Ser educada na sua frente não era algo no qual eu precisasse me esforçar para ser.
— Só as que se irritam quando eu as chamo de princesas. — dessa vez não me importo de rir, mesmo que o meu sorriso fosse cheio de orgulho enquanto comia como uma ex-presidiária que há tempos não via um hambúrguer.
— Deve ter muitas na mesma situação que eu, então. — estalo, sentindo um gosto amargo na lingua, apesar da bebida estar extremamente gostosa.
— Na verdade, Hanna, eu não quero que pense que sou uma pessoa r**m, — Heron solta o hambúrguer na bancada, evito levantar meus olhos até os seus, porém percebo que pelo o tom da sua voz, ele estava falando sério. — eu só tenho um nome para honrar, um grupo para liderar, uma reputação para manter. Não posso deixar que qualquer pessoa entre no meu território e me peite, como você anda me peitando. Porque... p**a que pariu, princesa, tu tem um gênio forte pra c*****o.
Acho graça por ele dizer isso de mim, dessa forma. Sei que não sou a flor mais doce de se cheirar, e sinceramente, não quero mudar. Quero que ele me classifique como uma pedra em seu sapato, porque é tudo que eu sou, uma rancorosa que se alimenta de vingança. Prestes a fazer ele pagar por tudo que está me causando.
— Não sou qualquer pessoa, Heron.
— Sei que não. Você já esteve no lugar onde eu estou e sabe que estou coberto de razão.
Sabia. Mas eu não diria em voz alta, não de maneira tão direta.
— Talvez. — imito sua resposta de mais cedo. — Mas não vai ouvir isso da minha boca. Não quero inflar mais ainda o seu superego.
Ele riu. Riu sem se preocupar por estar comendo fast-food, enquanto joga conversa fora com a sua ex ou atual inimiga. Não sei... Não sei mais como classificar a proximidade do Heron. Uma parte de mim, insiste em me alertar que estou em perigo constante perto dele; líder dos Treze e uma dívida enorme para pagar. Outra parte de mim, concorda que estou em perigo, mas não por esses motivos citados, e sim porque me pego achando seus olhos azuis cristalinos uma combinação perfeita com seus lábios grossos pintados de petulância.