Júlia Eu descobri que já estava apaixonada no instante em que parei de conseguir odiá-lo por inteiro. Ainda havia raiva, sim. Ainda havia medo. Ainda havia aquele impulso desesperado de lembrar a mim mesma tudo o que Bruno representava: o sangue no asfalto, os homens armados nas esquinas, a guerra respirando pelas vielas do morro como se nunca fosse embora de verdade. Mas agora existia outra coisa por baixo de tudo isso. Uma coisa mais funda. Mais silenciosa. Mais c***l. Amor. Um amor sujo, atravessado de culpa e desejo, desses que não chegam com flores nem promessas limpas. O meu tinha cheiro de pólvora, gosto de erro e olhos escuros demais. E eu já não sabia mais como arrancá-lo de mim. Naquela noite, fiquei sozinha em casa depois que Tiago dormiu. A luz da cozinha estava apagada.

