Júlia Eu devia ter aprendido a evitar certos caminhos. No morro, não era só o beco escuro que oferecia perigo. Às vezes, o risco vinha em silêncio, com passos firmes, olhar pesado e nome que fazia os outros abrirem espaço sem perceber. E, por mais que eu me repetisse que Bruno era exatamente esse tipo de ameaça, meu orgulho parecia ter nascido sem instinto de autopreservação. No fim da tarde, saí da lanchonete com o corpo moído e a cabeça cheia. O dia tinha sido longo, com cliente reclamando de preço, fornecedor atrasado e minha paciência por um fio. O céu já começava a escurecer, tingindo o morro com aquele laranja sujo que antecede a noite. O vento trazia cheiro de fritura, poeira e cigarro. A gente subia e descia as vielas como sempre, mas eu sentia o peso estranho de quem vinha and

