1.

2324 Words
O carro arrastava-se pela estrada secundária que iria dar a Ribeira Grande. Ana começava a achar que os amortecedores eram uma belíssima invenção, sobretudo naquela maldita estrada de terra, com mais buracos que um passador. No banco do pendura, a mala jazia aberta, na confusão habitual de creme de mãos, carteira e chaves a espreitar, por cima de uma revista de culinária. Não tinha o hábito de fazer nenhuma daquelas receitas, mas pelo menos consolava-se observando os pratos de aspecto apetitoso, pensando para consigo que deviam ser saborosos. Um estalo vindo do capô fê-la praguejar eloquentemente, hábito que lhe ficara dos anos em que vivera na Maia. Saiu do carro, ainda a praguejar, mas antes que deitasse a mão ao capot, uma voz deteve-a: – Ò cachopa afaste-se daí senão leva com o vapor na cara e queima-se toda. Virou-se. A estrada secundária era ladeada por uma cerca a qual circundava um milheiral e, empoleirado na cerca, estava o velho Jeremias. Velho, velho não seria; mas a pele curtida do sol, os olhos permanentemente franzidos de quem está habituado a enfrentar o sol de frente e os ombros curvados envelheciam-no bastante mais do que os sessenta anos que levava desta vida. Sorriu, rezando intimamente que ele não a tivesse ouvido praguejar. Resquícios de uma educação que recebera noutra vida faziam-na morder a língua quando se dirigia a idosos. – Esta treta avariou – disse em voz alta. – Já vi. Deixe lá essa geringonça aí que alguém há-de tratar disso. – Tenho pressa em chegar a casa. – Os jovens e as vossas pressas! A casa foge? Você vai mais rapidamente se estiver enervada? Não, pois não? Então lave lá a língua com sabão e ponha-se a andar que há-de vir alguém tratar do carro. Não se preocupe que ele no meio do caminho não fica. Corada até à raíz dos cabelos, ao perceber que ele a tinha ouvido, hesitou momentaneamente e Jeremias interpretou correctamente a sua hesitação: – Tem compras que se estraguem? – Sim, na bagageira. O velho pôs as mãos em concha e gritou: – Ò Manel! Do outro lado da cerca, emergiu uma cabeça, escondida por um chapéu enorme: – O que quer vossemecê? – Ajuda aqui a cachopa a levar as coisas que a chaleira avariou. – Atão sou burro de carga, agora? – Não insultes os burros, homem! O homem que resmungava entre dentes tinha a pele completamente tisnada pelo sol, o cabelo era ainda escuro, e poucas eram as pessoas que sabiam que batia um coração de ouro por baixo da resmunguice e da carapaça dura. A idade, tal como de Jeremias, era indefinida. Ana sorriu a Manuel – Ti Manel para os amigos – em agradecimento e abriu a bagageira. Manel afastou-a rudemente para o lado e olhou para os dois sacos que jaziam solitários no meio da bagageira. – Isto é que é o seu carrego? Veja lá se lhe dói as cruzes. Agarrou nos sacos, não permitindo que Ana o ajudasse. Ainda tinham um bom quilómetro e meio para andar a pé, dando ao Ti Manel oportunidade para se lançar numa das suas diatribes favoritas sobre a fragilidade da juventude. – Olhe para si, uma florzinha que qualquer ventinho leva. Chamam a isso beleza? Na minha terra, beleza é sadio, é cores fortes na cara, ali com o rosadinho da saúde! Você parece que vai para a praia de noite e se bronzeia com a luz da lua! A seu lado, Ana registou vagamente como o sotaque alentejano se tornava mais evidente à medida que o homem se entusiasmava na sua arenga. Noite soara a “nôte” e saúde saíra “súde”. O Ti Manel não era mau homem, apenas um tanto ou quanto rezingão. Tal como Jeremias, era apenas um dos idosos que habitavam a propriedade da Ribeira Grande. Tal como o nome indicava, Ribeira Grande nascera à beira de um rio. Ou melhor dizendo, de um afluente do rio Guadiana. Era uma propriedade vasta, situada mais perto de Mértola do que de Beja, e fora em tempos pertença de uma família de renome antes do 25 de Abril. Tinham muito nome e pouco dinheiro, e após a revolução, perderam ambos. Sem herdeiros próximos, foi vendida em leilão por um valor inferior ao que realmente valia a um casal que se encontrava suficientemente perto da reforma para poderem sonhar com “um monte no Alentejo”. Quando atingiram a idade da reforma, descobriram que o seu paraíso no Alentejo era demasiado calmo para os citadinos que ainda eram e rapidamente descobriram como o rentabilizar. Fizeram obras na casa grande e na que seria antigamente a dos criados, organizaram os terrenos, separaram-nos e cultivaram-nos, deixando indicações nas cidades de Mértola e de Beja que recrutavam agricultores. Graças aos conhecimentos do Sr Dr,conseguiam escoar os produtos nos mercados locais. Já a Srª Drª ninguém sabia bem o que fazia, mas dizia-se que era ligado à área da saúde. Ana chegara à Ribeira Grande por acaso. Estava em Beja quando vira o anúncio e decidira candidatar-se. Na altura, estavam à procura de uma cozinheira, mas acabara por ficar como ajudante porque a D. Branca também vira o anúncio e a verdade era que Branca era... Branca era Branca. Um portento da natureza e não só porque era volumosa. A mulher parecia ter encarnado o espírito da Padeira de Aljubarrota e em momento algum a jovem duvidou que ela fosse capaz de despachar uns quantos malandros à pazada. Chegaram enfim à casa grande, cuja pintura recente reluzia à luz do entardecer, e Ti Manel não parou a arengada senão quando chegaram à cozinha. Aí chegado, interrompeu-se bruscamente e tirou o chapéu, dizendo respeitosamente à porta de entrada: – Boa tarde, D. Branca. Branca estava de costas, ocupada a cortar legumes com uma faca suficientemente grande e afiada para poder fazer a matança do porco, e resmungou um “boa tarde”. – Trago-lhe aqui uma encomenda desgarrada. – Se não forem os enchidos que lhe pedi para o cozido de amanhã não estou interessada – retrucou a mulher, continuando a bater com a faca na tábua de madeira. Ana entrou na arejada cozinha e disse: – Sou eu, Branca. A mulher fungou desdenhosa. – Bonito serviço! Peço enchidos e trazem-me a trinca espinhas. Sem se ofender, a jovem abriu o frigorífico e tirou o leite, enchendo um copo e bebendo-o de seguida, sequiosa. Ofereceu um ao Ti Manel, mas o homem nem ouviu, ocupado que estava a virar o chapéu nas mãos. – Leite! Como se esse aí bebesse alguma bebida branca que não seja aguardente! Vá-se daqui, finja que tem um campo a cultivar e não me apareça sem os enchidos. Fechou a porta com força e olhou para Ana, com ar crítico. – Quando foi a última vez que comeu? Algo no tom e na postura fê-la recordar da Mã Rita e ao fazê-lo, sentiu um baque no coração. Um soluço ficou preso na garganta e pôs-se de pé rapidamente. – Precisa de mim hoje, Branca? Era a sua folga, mas sentia que tinha de trabalhar. Tinha de se mexer, trabalhar até ficar exausta para ver se conseguia dormir duas ou três horas por noite que fosse, sem pesadelos que a mergulhavam na depressão. – Veja lá que o fogão apaga-se se não estiver aqui – ripostou a mulher, desabrida. – Vá lá gozar a folga, beba uns copos, faça lá o que quer que as raparigas da sua idade costumem fazer! Agarrou no saco que continha as suas compras, deixou o outro saco em cima da mesa e quase fugiu pela porta fora. O minúsculo apartamento que lhe destinara fora em tempos parte das cavalariças. Tinham renovado o andar de baixo e onde em tempos os cavalos tinham dormido estava agora o armazém. Por cima, onde fora provavelmente a casa do tratador, estava agora o seu renovado, ainda que modesto, apartamento. O que fora em tempos duas divisões tinha-se convertido em quatro, ou melhor, em três e meia. A meia pertencia à sua pequena casa de banho onde estava um poliban minúsculo, um lavatório e uma sanita. A sala fazia de sala de estar e de refeições, pois a pequena kitchenette m*l tinha espaço para os três armários, frigorífico pequeno e fogão, quanto mais para pôr mesa e cadeiras. O sofá que estava na sala era também ele pequeno e com ar usado, se bem que estivesse em bom estado. A televisão era antiga e de caixa grande, mas como ela também nunca a ligava, nem sabia dizer ao certo quantos canais apanhava. O quarto, como todas as divisões, também era pequeno e era ocupado em grande parte pela cama de corpo e meio que se encontrava encostada à parede. Uma mesinha de cabeceira e um roupeiro pequeno constituíam todo o mobiliário do quarto, que se encontrava tão despido com a sua nova ocupante como estivera após a conclusão das obras de renovação. A Srª Drª dera-lhe liberdade para alterar a decoração da casa à sua vontade, mas a Ana não lhe interessava se as paredes tinham quadros ou se a mobília combinava com os tapetes. Galgou rapidamente os degraus que a conduziam ao seu pomposamente apelidado apartamento. Uma vez aí chegada, verificou rapidamente se a tampa de caneta que pendurara por cima da porta ainda lá se encontrava. Sim, estava tudo no sítio. Rodou a chave na fechadura e m*l entrou, trancou-se novamente. Embora não quisesse saber de quadros e carpetes, a primeira compra que fizera para a casa fora uma fechadura reforçada que convencera Jeremias a instalar, coisa que o homem fizera, resmungando entre dentes contra as excentricidades das pessoas “lá de cima”. – Vivem em cidades que mais parecem colmeias, metidas no meio do barulho e da confusão, e no fim vivem engaiolados! Aqui não há nada disso. Mas instalara a fechadura, recusara qualquer dinheiro pelo trabalho e fora-se embora a resmungar contra o reumatismo. Deixou o saco em cima do balcão da kitchnette e permitiu-se respirar fundo. Esfregou os braços com apreensão. Estava gelada, apesar do calor da tarde. Mais do que isso, os nervos enrolavam-se numa bola à volta do seu estômago e davam-lhe vómitos. Foi ao quarto, à procura do casaco de malha que comprara na feira de Évora. Ao abrir o roupeiro, tentou não olhar para o espelho. Sabia o que ele lhe iria dizer: estava mortalmente pálida, com olheiras profundas, olhos arregalados de apreensão, cabelo descaído e sem vida. Com o casaco vestido, deixou-se cair em cima do sofá e fechou os olhos. Passara grande parte do último ano em fuga e o descanso fugia-lhe. O medo era uma constante na sua vida, tal como os pesadelos e a doença. Houvera realmente uma altura em que vivera sem medo? Não se conseguia recordar. Não tinha fome e o leite que bebera na cozinha andava às voltas no estômago. Tentou reprimir o vómito, mas a dada altura levantou-se de um salto e m*l teve tempo de chegar à sanita antes de o expelir todo. A bílis subiu-lhe à boca e pareceu-lhe que por fim já nada tinha para deitar fora excepto fel. Lavou a boca, bochechou e arrastou-se até ao balcão, onde deixara o saco. Vasculhou o seu interior. Além de artigos de higiene, comprara maçãs verdes. Era das poucas coisas que o seu estômago conseguia aguentar, sobretudo se fossem bastante ácidas. Colocou-as na fruteira, guardou os iogurtes no frigorífico e arrumou os artigos de higiene. A postura de Branca na cozinha, ainda há pouco, recordava-lhe a Mã Rita. O coração apertou-se ao pensar nela e soltou o soluço que vinha a reprimir desde que saíra desabridamente da cozinha. Sentou-se no chão e deu livre curso às lágrimas. * Aplicou cuidadosamente a maquilhagem, decidida a estar no seu melhor. O vestido aderia ao seu corpo como se fosse uma segunda pele, deixando entrever aqui e ali o que de certeza o iria deixar de água na boca. Escovou o seu generoso cabelo n***o e enrolou-o num nó em cima da cabeça. Olhou de esguelha para os sapatos com saltos de agulha e protelou o momento de os calçar. Colocou no pescoço o fio de ouro que ele lhe dera e acariciou com os dedos o coração que pendia, como uma lágrima, em direcção ao vale dos seus s***s. Quando ele tocou à campainha, pontualmente às sete e meia, Sónia estava pronta. Abriu a porta de par e par e sorriu ao vê-lo com um ramo de flores na mão. Aquele belo corpo tonificado, metido num fato de cerimónia, fazia-lhe crescer água na boca. – Isso tudo é para mim? – questionou, arqueando uma sobrancelha elegantemente depilada. – Para o meu coração – disse ele baixinho, imediatamente antes de cobrir a distância que os separava com passadas largas e envolvê-la nos seus braços. Algo rijo bateu nas suas costas e ela sorriu ao reparar na garrafa de champanhe que ele trazia. – Estamos a comemorar algo? – perguntou enquanto punha as flores em água. Viu-o ir à cristaleira buscar dois copos e servir o champanhe generosamente. – O facto de o meu coração estar perto de mim – replicou ele com um sorriso. Estendeu-lhe uma flûte cheia e ergueu a sua num brinde. – A nós – disse Sónia, bebendo um golo generoso de champanhe. – A ti – retribuiu ele, bebendo o conteúdo de um só trago. Virou-se de costas para se servir novamente.– E ao meu coração – acrescentou, imediatamente antes de se abeirar dela e de delinear gentilmente a linha dos lábios dela com a ponta da língua. Pegou-lhe ao colo e encaminhou-se para o quarto dela, murmurando: – E se deixássemos o jantar para mais tarde? De repente, apeteceu-me começar pela sobremesa. Ela riu-se, os olhos a brilhar, enquanto lutava com o nó da gravata. Ele encaminhou-se para a cama, onde deu início ao ritual.
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