Capítulo 6

875 Words
O carro prata se aproximava da passarela três da Avenida Brasil, Alexander fez uma curva e estacionou logo que achou uma vaga. Ficou ali parado no automóvel e refletiu sobre o que estava prestes a fazer. Respirou fundo e saiu do carro. Durante o tempo em que caminhou até o local combinado, ele parou em uma floricultura e pediu que a atendente montasse um buquê de girassóis. Satisfeito, pegou o ramalhete e seguiu até o local marcado sem pegar o troco. De longe, ele contemplou o vestido preto na altura do joelho que valorizava as curvas generosas. Os cabelos voavam a favor da suave brisa que batia contra o rosto, os óculos espelhados escondiam os olhos marejados. Uma mulher de estatura mediana o esperava em frente a um enorme portão de grades com uma enorme placa com a descrição "Memorial da Saudade".   — Você está bem? — Os dedos esguios acariciavam o rosto dela e enxugou uma lágrima que rolou na pele macia. — Desculpa por fazer você passar por isso.  — Comprimiu os lábios.   — Você, tem certeza que quer entrar lá? — Ela tirou os óculos e o encarou.  — Eu preciso!  — A voz grave estava decidida. Alexander emaranhou os dedos da mão dela, atravessou o enorme portão com grades em volta. Ambos passaram por uma pequena capela e fizeram o gesto da cruz em sinal de respeito. Depois de 10 minutos caminhando em silêncio, Nicole parou como uma estátua diante do jazigo e apontou para a placa dourada com a inscrição de Rodolpho Bittencourt Neto.  — É aqui!  — A voz titubeou enquanto Alexander a envolvia nos braços. Por um momento, os dois ficaram ali observando sem dizer uma palavra. A culpa e a dor consumiam Alexander por dentro. Ele se afastou de Nicole e deu alguns passos até o jazigo. Limpou a placa com um lenço xadrez azul que tirou do bolso da calça e colocou o buquê de girassóis sob o túmulo.  — Me perdoe! — As lágrimas fluíam dos olhos. — Eu sei que agora é tarde e nada do que eu diga vai trazer você de volta, eu quero que você saiba que, mesmo sem te conhecer, eu amo você. — Engoliu em seco e continuou. — Se eu soubesse que a sua mãe estava grávida, eu largaria tudo e voltaria para vocês. Me perdoe, meu filho! Mesmo que fosse tardia, a despedida era dolorosa. Um choro desesperado de um coração cheio de dor tocou o coração de Nicole. A raiva que sentia se dissolveu ao ver aquele homem que desabava em lágrimas.  — Está tudo bem! —  A voz serena o confortou.  —  Nosso filho sabe e ele entende. Apesar de estar magoada por tudo o que aconteceu nos últimos dias, Nicole o envolveu em um abraço apertado e encostou a cabeça no peito de Alexander.  — Eu voltei, meu filho. Eu estou cuidando da sua mãe — beijou os cabelos dela —, e do seu irmão com carinho. E eu prometo sempre vir aqui visitar você. Alexander inalou o cheiro doce e suave do perfume dos cabelos de Nicole. Uma leve brisa entrou pela porta do jazigo e tocou em seu rosto. Ele respirou fundo e aliviado. — Eu prometo que eu vou cuidar bem deles. — Os olhos caídos observaram os girassóis.  — Um dia eu vou te encontrar, meu filho. Ele agachou e ajeitou as flores que estavam no vaso próximo ao túmulo. Um sentimento bom invadiu- lhe o peito, era como se a dor fosse arrancada e uma paz inundasse o seu coração. — Você está bem? — Eu me sinto melhor.  — Mostrou um sorriso indulgente.  — Eu sei que meu filho está em um bom lugar. — Saiu do jazigo e olhou para o céu.  Após a visita libertadora, o jovem casal caminhou até atravessar os grandes portões. A culpa que Alexander sentia já não o perturbava como antes, aquele alívio momentâneo trazia alguma paz ao coração. — Nicky, podemos conversar durante o almoço? — Não tirou os olhos dela. ― Não! ― Ela olhou para o outro lado enquanto atravessavam a calçada. ― Eu aceitei vir aqui para te apoiar, agora eu só quero que você me leve para casa. Andaram mais alguns minutos até o carro. Ele se aproximou da porta e abriu para que Nicole entrasse,  em seguida, correu para o outro lado e se acomodou. Ligou a ignição e virou-se na direção de Nicole que falava algo sobre a reforma que pretendia fazer na casa. Silenciou os lábios dela com um beijo e se afastou. ― Por que você insiste em fazer isso, Alexander? ― Franziu a testa ao limpar os lábios. ― Você tem de entender que não dá para fingir que tudo está bem.  — Eu te amo tanto! ― Chega, Alexander! Eu não confio em você ― suspirou pesado. ― Quero ir para minha casa.  No fundo, ainda existia o amor, isso Nicole não conseguia negar, todavia o coração estava aos pedaços. Não conseguia confiar nas promessas vazias de Alexander.  Um coração partido e a falta de confiança são como um espelho que se despedaça e mesmo que junte os pedacinhos, sempre haverá uma rachadura, nada mais seria tão perfeito como antes.
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