KAYLA WILLIAMS
Bruce, sob a mira de Owen Dunne, amarra Khloé e eu, uma de costas para a outra, sentadas no chão. Ele estava decidido a sair daqui junto com esses malucos, acreditando que somente assim seria possível saber o paradeiro do meu filho.
— Me desculpe. — sussurra e beija a minha testa
— Bruce… — tento falar, mas sou interrompida
— Sem despedidas. — Ashley diz segurando a arma de Bruce, a apontando para nós também
Sinto cólica e um aperto no peito. Quero dizer a Bruce que estou grávida, quero dizer a ele que não quero que ele se sacrifique, no entanto fico calada. Jakob precisa disso para se manter vivo.
Bruce me dirige um último olhar e se levanta, ficando sob a mira dos irmãos pirados.
— Passa na frente. — Ashley diz — Guia o caminho.
Os três saem do escritório, deixando Khloé e eu para trás, com a porta fechada. Ainda consigo ouvir um pouco do som da boate. Não é possível que o show lá embaixo continue e que ninguém tenha percebido a m***a que está acontecendo aqui em cima.
— Se eu soubesse disso, eu não teria aceitado te entregar aquele cartão de memória. — ouço Khloé murmurar
— De alguma forma, você sentia que isso poderia me afastar do Bruce e aceitou fazer isso. — resmungo — Não queria perder a Nancy e o faturamento das minhas performances.
— Falando assim, parece que eu sou uma megera. — bufa
— Quem é que estava fazendo planos pra eu voltar, antes mesmo de eu encontrar o meu filho?
— Ok, você tem um ponto. — a ouço suspirar — Me desculpe.
Franzo o cenho, minha mente trabalhando a mil por hora. Passo um olhar analítico por todo o escritório e mexo os pulsos amarrados nas minhas costas, sentindo que estou começando a suar mais.
— Khloé, você ainda recebe cartas daquele velho t****o que odeia e-mails? — pergunto ao encarar a gaveta de sua mesa
— Duas por mês. — ela resmunga — Por que?
Respiro fundo.
***
— Ei, Khlo, quem é o ultrapassado que ainda manda carta em pleno século vinte e um? — pergunto limpando as prateleiras do escritório
— É uma longa história. — ela ri usando um abridor de cartas para abrir uma carta — Esse cara costumava vir aqui, na época que minha irmã e eu dançávamos.
— Ele é um fã das gêmeas Rousey? — a olho rindo — Uau! Isso, realmente, faz muito tempo.
— Ei, não explane minha idade, ok? — ri — Ele é um velho de uns noventa e tantos agora, não anda mais, mas acha divertido mandar cartas relembrando as apresentações favoritas dele.
— Eca! — paro ao seu lado, lendo a carta por cima de seu ombro — Por que ainda recebe isso?
— Porque um cheque de cinco mil vem junto. — dá de ombros — É claro que eu preciso receber.
***
Eu arrumo esse escritório há dois anos, eu sei onde cada coisa costuma ficar. Será que eu consigo tirar a gente daqui?
BRUCE CARTER
Dizem que quando se está prestes a morrer, sua vida inteira passa como um filme diante de seus olhos. Todos os momentos bons, os ruins, as escolhas. Porém agora, tudo o que eu consigo pensar, é no desespero da Kayla quando viu a casa da mãe explodir. Meus ouvidos ainda escutam os gemidos do seu choro, dos seus pedidos de socorro. Tudo o que eu estou fazendo, é para que ela ainda possa ter seu filho ao seu lado.
Havia um único beco que não teria como a equipe tática se esconder, justamente por ainda não ter dado tempo de todos chegarem. Foi exatamente essa saída que usamos, nos afastando do clube.
— E agora? — pergunto
— O carro tá na outra esquina. — Owen comenta
— E o Jakob?
— Relaxa. — Ashley revira os olhos — Vamos.
Escondendo a minha arma em sua jaqueta, ela passa a liderar o trio, enquanto o irmão se mantém na minha cola, com o seu revólver nas minhas costas. Não fazem nem cinco minutos que saímos da boate e eu percebo que as ruas estão estranhamente mais vazias. Na outra esquina, Ashley para diante do sedan azul marinho e se apoia no porta-malas, observando os fundos do clube. Eu franzo o cenho. Ela está tranquila demais pra alguém que sabe que está sendo vigiada e que irá ser pega assim que entregar a locação de Jake.
— Pode ser agora? — Owen a olha
— O que? — franzo o cenho
— Pode.
Owen me empurra contra o carro e mexe em alguma coisa em seu bolso, pegando um telefone celular descartável. Os próximos segundos são inacreditáveis. Eu me abaixo, protegendo o rosto, assim que ouço o barulho de uma grande explosão. Meu mundo para por alguns instantes. Eu não consigo focar na risada de Ashley, nem nos comandos de Owen para que eu entre no carro. Eu só consigo enxergar o letreiro rosa néon do Olympus Club despencando e sendo envolvido pelo fogo do segundo andar da boate, exatamente onde o escritório fica. Mesmo distante, sinto o calor das chamas e minhas lágrimas quentes molhando meu rosto.
O sangue parece correr feito lava em minhas veias, fazendo-me parar de raciocinar e uma b***a primitiva acordar dentro de mim. As risadas de Ashley não me ajudam. Me viro para ela e agarro seu pescoço com as duas mãos, vendo-a se assustar. A olho nos olhos e, pela primeira vez na vida, percebo que estou causando medo em alguém. Bato sua cabeça no porta-malas do carro e começo uma briga com Owen, tentando tomar o controle do revólver. Eu já não tenho mais o que perder, eles mataram a Kayla.
— Onde está o Jakob? — pergunto ao acertar um soco no rosto dele
Seguro seu pulso e aperto, tentando fazê-lo soltar a arma, enquanto Ashley está caída no meio fio, o rosto sangrando. Owen me golpeia no rosto e depois me derruba, fazendo-me cair esticado perto de sua irmã. Eu consigo ouvir as sirenes das ambulâncias e das viaturas. A equipe tática está se aproximando de nós.
No beco por onde saímos, vejo uma mulher no chão, machucada, se arrastando em nossa direção. A cabeça está sangrando, ela parece estar com feridas pelo corpo, causadas pela explosão. É Kayla! É ela, mas eu não sou o único a perceber isso. Owen se vira e aponta sua arma na direção dela. Eu me levanto, usando de toda a minha ira para ir contra ele. Ouço uma sequência de disparos e sinto ardência nas minhas costas. Me jogo, caindo por cima de Owen e o impedindo de atirar, mas ao tentar respirar fundo, sinto meu pulmão sendo afogado pelo meu próprio sangue.
— Carter! — alguém me chama — Carter!
Com a visão turva, consigo ver Jones e Stone, mas não consigo falar.
— Bruce! — Andrew grita
— Atrás da boate, quatro feridos! — vejo Jones falar em seu rádio transmissor — O detetive Carter não está conseguindo respirar, precisamos de alguém agora!
Minha cabeça cai pro lado, me permitindo ver Owen sendo imobilizado, Ashley morta e Kayla sendo amparada por Margot Hastings. Ela olha pra mim, o rosto retorcido em uma careta de dor e choro. Quero ampará-la, quero pedir perdão por trazer o caos pra sua vida, mas não consigo mais. É tarde para mim.
— O menino está no porta-malas! — ouço alguém dizer — Jakob Williams está no porta-malas!
Nada mais passa percebido por mim. Os olhos desesperados de Kayla me prendem.
Então essa é a sensação?
TRÊS ANOS DEPOIS…
KAYLA WILLIAMS
Depois de Owen ser preso, eu precisei de tempo para absorver tudo o que havia acontecido naquela noite. Se eu tivesse demorado mais um minuto para encontrar aquele abridor de cartas, Khloé e eu teríamos morrido naquela explosão. Quando tudo foi pelos ares, eu ainda estava saindo pela porta lateral e o impacto fez com que alguns pedaços de concreto caíssem sobre mim. Eu me arrastei por aquele beco enquanto inalava fumaça, sentia os ferimentos da minha cabeça latejando e os pontos da minha cirurgia romperem. Eu vi Bruce salvar minha vida, Ashley atirar nele, Andrew atirar em Ashley e, enquanto a detetive Hastings tenta manter a minha cabeça elevada, eu vi o homem que eu amo morrendo. Eu assisti tudo isso enquanto sentia meu filho escorrendo pelas minhas pernas.
A vida não é justa.
Ashley matou Elizabeth, fez Bruce parecer o principal suspeito disso, matou minha mãe, tentou m***r a mim e ao meu filho, mas morreu e não vai pagar por nada disso na cadeia.
A descida é mesmo um caminho sem volta.
— Sente falta dele, não é? — me sento ao lado de Jakob, após arrumar a mesa com bolo e doces
— Bruce era legal. — meu filho murmura — Um super herói.
— Isso. — beijo sua testa — Um super herói que nos salvou. — sorri
A campainha toca e eu trato de me animar. Martha, Susan, Elena, Andrew, Rebecca e seu filho Robert, de dois anos, vieram comemorar o aniversário do meu menino. Apesar de ter perdido Bruce e minha mãe, não me sinto sozinha.
— Você salvou a vida dele. — Elena diz ao me abraçar — Sabe disso.
— Salvei? — franzo o cenho — Ele está morto, Elena.
— Mas a alma dele está viva. — ela me solta e sorri — Graças a você e ao Jakob.
Ele precisava de alguém pra descer essa ladeira com ele. No fim das contas, nossos seis meses valeram a pena. Ele pode provar sua inocência. É o que importa.
— Vocês vão se ver de novo, querida.