Karine
Cheguei no shopping por volta das sete e pouco. O estacionamento estava lotado, então estacionei mais distante do acesso principal. Ajeitei minha bolsa no ombro e fui caminhando até a entrada. Logo de cara, entrei numa loja de artigos pra casa, comprei umas coisas que queria fazia tempo e segui pelo corredor com as sacolas na mão.
Foi aí que esbarrei, sem querer, numa mulher apressada. Ela segurava uma criança no colo, e antes que eu pudesse sequer me desculpar, ela saiu quase correndo, como se tivesse feito algo errado.
Karine: Maluca... – murmurei, sem entender nada, e continuei andando. Subi pela escada rolante. Lá em cima, entrei numa loja de roupas, peguei umas peças pra mim, paguei no caixa e saí. Já do lado de fora do shopping, fui caminhando até meu carro. Destravei, coloquei as sacolas no banco de trás, quando fechei a porta, ouvi um som estranho. Um resmungo baixo. Um chorinho abafado. Franzi o cenho. Olhei ao redor, nada. Mas o som continuava. Fui seguindo aquele barulho e, três carros depois do meu, vi algo no chão: uma bolsa rosa e, do lado, um bebê deitado sobre uma manta. Meu coração disparou.
Karine: Meu Deus...
Me aproximei devagar. Era uma menininha linda. Morena, cabelinhos cacheados, olhos brilhantes... parecia uma boneca. Me abaixei e a peguei no colo com cuidado. Ela nem chorava mais, só resmungava baixinho, com as mãozinhas perto da boca.
O instinto falou mais alto. Peguei a bolsa dela no chão e fui direto pro meu carro. Entrei no banco do motorista, ajeitei ela com todo cuidado no meu colo, tentando entender o que tinha acabado de acontecer.
Karine: Quem tem coragem de deixar um bebê assim... sozinha? Que tipo de pessoa faz isso. – ajeitei o lacinho na cabeça dela, e ela só me olhava, curiosa, tranquila, como se não tivesse acabado de ser deixada no mundo.
Na minha cabeça, mil pensamentos. Levo pra polícia? Levo pra casa? Olhei de novo pra aquele rostinho. Não dava. Não dava pra simplesmente entregar ela pra qualquer um.
Karine: Tá... por enquanto, você vem comigo, tá bom?
A caminho do meu apartamento, minha cabeça era um redemoinho. Tentava racionalizar o que tinha acabado de acontecer, mas não conseguia. A cada parada no sinal, olhava pra ela no meu braço – tranquila, olhando pela janela como se nada tivesse acontecido.
O nome dela, a história dela, eu não sabia. Mas uma coisa era certa: eu não ia largar aquela bebê sem ter certeza de que ela estava segura. Estacionei na garagem do prédio e tirei ela do carro com todo cuidado. Carregava também a bolsa rosa que achei ao lado dela – tinha fralda, uma mamadeira com um restinho de leite, uma chupeta com uma cordinha enfeitada e um paninho de boca.
Subi no elevador em silêncio. Eu, ela e o barulho baixo da chupeta sendo mastigada. Aquele som... tão inocente e tão doloroso ao mesmo tempo. Quando a porta do meu apartamento abriu, a coloquei devagar no sofá da sala. Ela olhou ao redor, como quem tenta reconhecer um novo mundo, e depois virou o rosto pra mim, confiante – como se soubesse que ali era seguro.
Karine: Ei, pequena... A gente precisa entender o que vai acontecer agora, né?
Fui até a cozinha, preparei uma mamadeira nova com a fórmula que tinha guardada de uma cliente que havia deixado comigo por engano meses atrás. Por sorte, ainda dentro da validade. Sentei no sofá com ela no colo e ofereci a mamadeira. Ela segurou com as duas mãozinhas, com fome.
Karine: Você deve estar com um nome lindo... Aposto que é Mel ou algo assim. – ela me olhou, os olhos grandes e brilhantes.
Depois de mamar, ficou deitada no meu colo por um tempo, até dormir. E ali, com ela nos braços, pela primeira vez em muito tempo... eu senti um silêncio bom. Um silêncio cheio. Quase como se... aquilo tudo fizesse sentido.
Mas no fundo, eu sabia: Em algum lugar dessa cidade... Alguém estava desesperado atrás dela.