LAURA EGOROVA
Kaleo Fratelli sabe ser insistente.E, embora eu saiba que só fez tantas perguntas na tentativa de arrancar qualquer informação que o ajudasse a entender quem eu sou de verdade, não me senti realmente ameaçada. Cuido bem demais do meu anonimato para que algumas respostas vagas pudessem me prejudicar. Já disse mais do que deveria — espero que seja o suficiente, porque não estou nem um pouco disposta a continuar alimentando sua curiosidade.
Agora, diante da mansão da família Fratelli, tudo parece ainda maior. Mais luxuoso. Não tive tempo de observá-la direito antes, então, assim que o carro atravessa os portões, inspiro fundo.
Jamais, em toda a minha vida, cogitei me casar em tais circunstâncias. E, com certeza, casar com alguém como Kaleo Fratelli não esteve nem remotamente nos meus planos. Desde os meus doze anos, minha vida gira em torno do responsável pela morte da minha família. E, desde os dezessete, meu maior alvo tem sido escorregadio demais para ser alcançado.
A mansão é, ao mesmo tempo, moderna, rústica e absurdamente luxuosa. Eu poderia ter uma dessas… se me importasse. Mas não me importo. Nunca me importei com esse tipo de ostentação. Prefiro ficar longe dos holofotes — e, principalmente, dos curiosos.
— Vamos? — Kaleo pergunta, me observando.
— Sim.
Assim que desço do carro, um enorme cão surge correndo em nossa direção — mais precisamente na direção de Kaleo. Ele tem olhos escuros, atentos, como os de um predador. O pelo é completamente n***o e brilhante. Mesmo com a postura ameaçadora, é impossível negar: ele é lindo.
Nunca gostei de cachorros, mas esse… é diferente.
— Cronos, não! — Kaleo o repreende em um tom firme. Só então percebo que ele está me rodeando.
O animal ignora completamente a ordem e continua farejando, rosnando em minha direção. Provavelmente sente o cheiro de Devil em mim. Cronos rosna de novo, mostra as presas e, em um movimento rápido, pula sobre mim. O impacto quase me derruba. As unhas grandes afundam no meu quadril, arrancando um rangido involuntário de dor dos meus dentes.
Kaleo percebe e dá um passo na minha direção.
— Kronos, ostanovis! — ordeno em russo, em voz alta.
Incrivelmente, ele obedece. O cão se senta à minha frente e passa a balançar o r**o como se nada tivesse acontecido.
Kaleo faz menção de afastá-lo, mas levanto a mão, impedindo-o. Isso só pioraria a situação. Tentar conter um animal desse tamanho, ainda em alerta, seria uma estupidez.
— Eu estou bem — garanto, dando um passo para longe de Cronos.
Kaleo inclina a cabeça, então se vira para o cão. O homem tatuado se agacha ao lado dele, passando a mão firme por sua cabeça.
— Ele nunca obedeceu outra pessoa — diz, olhando para mim. — E nunca demonstra afeição por ninguém, além de mim.
Sustento seu olhar.
— Estamos quites, então — respondo, sorrindo de leve me recordando como Devil preferiu ele do que eu.
O italiano se põe de pé e olha por cima do meu ombro parecendo notar algo, trava o maxilar então de súbito se aproxima. Sua mão desliza pela minha cintura, a outra para o meu cabelo, afastando uma mecha. Seu hálito faz cócegas na minha pele.
— O quê...
— Tente evitar falar seu i****a de origem, bella. — avisa baixo — Meus soldados podem desconfiar, eles odeiam os russos.
— E você? — pergunto no mesmo tom de voz.
O sinto sorrir contra minha pele, ao deixar um beijo no meu ombro.
— Para você, abro uma excessão Laura.— provoca se afastando de mim.
— Vou me esforçar para não pronunciar nada em russo enquanto estivermos casados — digo.
— Não seja tão radical também. — faz careta — Quando estivermos a sós, se sinta a vontade para falar em russo. Eu certamente, vou gostar.
Fico boquiaberta, ele somente sorri.
— Vamos entrar — diz, passando à minha frente.
Ao atravessarmos a enorme porta que leva ao hall principal, encontramos o restante dos irmãos Fratelli. Alan engasga visivelmente surpreso ao me ver. Belinda, por outro lado, abre um sorriso largo.
— Laura! — exclama.
— Oi, Belinda.
— O que você está fazendo aqui? — Alan pergunta, sem rodeios.
Percebo os olhos de Belinda pararem brevemente na minha mão direita.
Ela viu.
— Preciso conversar com vocês dois! — Kaleo ordena, já se afastando. — No meu escritório. Agora.
Os dois seguem o irmão mais velho — o chefe — sem questionar.
— Senhorita Walker?
Uma voz masculina surge atrás de mim.
— c****e! — exclamo, me virando de supetão.
Cronos aparece de trás de mim, rosna e se posiciona ao meu lado, protetor. Levo alguns segundos para me recompor. Ele realmente gostou de mim.
O homem à minha frente observa o animal com atenção visível.
— Está tudo bem, Kronos — digo, passando a mão por sua cabeça. — Está tudo bem, se acalme.
Ele se aquieta imediatamente, voltando a parecer quase… inofensivo.
— Desculpe, não quis assustá-la — o homem diz, claramente mais aliviado. — Meu nome é Draco. O senhor Fratelli pediu que eu a levasse até onde vai ficar hospedada.
— Certo.— ajeito minha postura e o sigo.
Draco caminha alguns passos à minha frente pelos corredores da mansão.
O silêncio aqui é pesado, não acolhedor. Cada detalhe parece pensado para impor presença: paredes altas, iluminação indireta, quadros grandes demais para serem apenas decoração.
Cronos nos acompanha por todo o percurso.
— É por aqui — Draco diz, virando à direita.
Subimos uma escada larga de mármore. Meus passos ecoam mais do que eu gostaria. Não gosto de lugares que amplificam minha presença. Lugares assim nunca permitem passar despercebida.
Paramos diante de uma porta dupla de madeira escura.
— Este será o seu quarto. — informa, abrindo a porta.
Entro.
O espaço é amplo demais para algo que deveria ser íntimo. A cama king ocupa o centro, perfeitamente alinhada. Lençóis claros, impecáveis, quase intocados. Há uma varanda ao fundo, parcialmente coberta por cortinas leves, e uma porta lateral que imagino levar ao banheiro.
Não é um quarto improvisado. É definitivo.
— Se precisar de algo, é só chamar — Draco acrescenta, educado, mas distante.
— Obrigada.
Ele se retira, fechando a porta atrás de si. Fico parada por alguns segundos, apenas ouvindo o som do meu próprio respirar. Então solto o ar devagar, como se só agora pudesse fazê-lo.
Caminho até a cama e apoio a mão no colchão, tudo parece luxuoso demais. Nada aqui combina comigo.
Abro a bolsa e confiro automaticamente se tudo está no lugar. Documentos, celular, dinheiro, o pequeno canivete escondido no bolso interno. Tudo certo.
Caminho até a varanda e afasto a cortina. A vista dá para o jardim lateral da mansão. A iluminação é baixa, estratégica. Nada aqui parece deixado ao acaso. Nem mesmo os pontos cegos.
Kaleo Fratelli, tem controle sobre tudo isso. Cada metro quadrado. Cada pessoa que circula por esses corredores. E agora… sobre mim. Ou pelo menos é o que ele acredita.
Fecho a cortina e sigo até o banheiro. Espelhos grandes demais. Pia de pedra clara, banheira funda, toalhas dobradas com precisão militar. Lavo as mãos, observando meu reflexo. O anel na minha mão direita chama atenção sob a luz. Não pelo valor, mas, pelo peso simbólico.
Contrato.
Uma aliança sem promessa, um casamento sem afeto. Uma união baseada em interesses que ainda não compreendo por completo. Apoio as mãos na pia e fecho os olhos por um instante.
Isso é só uma posição estratégica, uma passagem. Nada mais. Mas, ainda assim, sinto algo diferente.
Caminho até a cama, tiro os sapatos e me sento na beirada, Cronos se acomodou no tapete. A mansão segue silenciosa, mas sei que isso não significa tranquilidade.
Permaneço sentada sentindo meus próprios pensamentos me consumirem. Kaleo Fratelli, já sabe que sou Russa e ainda assim, fez aquela proposta. Ou ele leva muito a sério dividas de vida ou está tramando contra mim. Seja lá o que for estarei pronta.